Olhares (e ver)

4 Julho, 2009

Hipocrisias

Quando alguém, no cimo dum telhado olha para baixo, pode sentir uma vertigem. Esta é uma reacção normal. No entanto, há pessoas que, nas mesmas condições, apresentam manifestações de pânico. Para este facto contribuem vários factores, um deles a personalidade neurótica do indivíduo.

Não parece que a hipocrisia seja comparável à fobia das alturas. Julgo que ninguém “compra” todas as guerras. A alguns morde-lhes a consciência por qualquer pequena cobardia ou traição. É uma espécie de vertigem das alturas. Mas aquilo que aqui tratamos é da grande Hipocrisia, para a qual provavelmente contribuem factores de educação, personalidade, potenciados pela ambição desmedida de poder.

As ilustrações utilizadas na maioria dos casos estão disponíveis na net. Merece particular destaque o traço inconfundível de João Abel Manta.

FM

 

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Ora Eça de Queiroz foi à inauguração do Canal do Suez e a digressão pela Palestina serviu-lhe para uma saborosa descrição das aventuras e desventuras de Teodorico Raposo, reunidas no romance A Relíquia. Curiosamente, quando o seu plano fracassa, parecia que a hipocrisia não compensa… Mas vamos recapitular a história.

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Teodorico, orfão de mãe e pai, é criado por sua tia D. Patrocínio das Neves, conhecida por todos por Titi. Teodorico é um jovem boémio, sem escrúpulos, que finge ser um católico fervoroso só para agradar à tia, pois acha-se seu único herdeiro. A tia financia-lhe a educação e ele frequenta a Faculdade de Direito em Coimbra, donde sai Bacharel. No entanto, a feroz vigilância da tia traz-lhe alguns dissabores, obriga-o a uma vida de penúria e traz-lhe a chacota dos colegas. Como conseguir deitar mão à fortuna da Titi? De Coimbra vem com a alcunha de “Raposão”. A grande dificuldade de Teodorido é a educação extremamente religiosa, que ela lhe impõe. No entanto, tudo corre bem até que Teodorico, descobre que a Titi, vai deixar toda sua fortuna à Igreja…

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Podemos imaginar a senhora de porte severo, hábitos religiosos extremos, um leve cheiro a incenso, talvez um pequeno buço, uma capela, um oratório, recebendo o padre comensal semanal ou mesmo mais do que um, como veio a acontecer quando o finório do Padre Negrão se insinuou junto da Titi e passou a comer diariamente, perante a censura de Teodorico que pressentia a ameaça. Então engendrou um plano: fazer uma viagem para representar sua tia perante os religiosos da Terra Santa e trazer-lhe a absolvição dos pecados antes da sua morte. E ela pede-lhe uma relíquia…

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Teodorico parte e vive como um fidalgo em Jerusalém. Sonha conseguir as boas graças da tia trazendo vários presentes e uma relíquia (a coroa de espinhos de Cristo) e mais umas tantas bugigangas (rosários, bentinhos, medalhas, espulários, frascos de água do Jordão, palhinhas, etc) que com o seu amigo Topsius, arqueólogo alemão e reputado egiptólogo, vai coleccionando. Este sentencia: as relíquias não valem pela autenticidade que possuem, mas pela fé que inspiram!

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Lá, envolve-se com uma rameira, Mary, a Maricoquinhas. Ao retornar a Portugal, Teodorico acredita ter conseguido as boas graças da tia trazendo inúmeros presentes e a esperada relíquia do Santo Sepulcro. Mas um terrível engano deita tudo a perder: ao abrir o embrulho, em vez da relíquia surge a alvura da camisa de dormir da sua Maricoquinhas! Escândalo!. Dona Patrocínio expulsa o desafortunado sobrinho a pontapés de sua casa, e ao morrer deixa tudo o que possuía à sua amada Igreja.

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Para a Igreja não foi bem assim, pois além de serviçais, também amigos e padres visitas de casa foram contemplados no seu testamento. Entre eles, o Padre Negrão foi o mais beneficiado…Ah, mas manda a verdade dizer que D. Patrocínio não se esqueceu do sobrinho! Deixou-lhe um óculo que estava pendurado na parede, certamente para ele ver a fortuna por um canudo…

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Chegados aqui, poderíamos pensar num final moralista do tipo “O crime não compensa”, na versão da inutilidade da hipocrisia, pensamento que ocorreu ao desditoso Raposão. Para sobreviver, arranjou um negócio de venda das relíquias que trouxera da Palestina. Quando elas se esgotaram, o acaso fê-lo encontrar um velho amigo que lhe ofereceu emprego e mais tarde apresentou a irmã. Zarolha, cabelo ruivo, peito “sólido”. Casou, foi pai, enriqueceu e acabou por comprar a propriedade que o padre Negrão herdara da Titi…Então, a hipocrisia é inútil?!

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Claro que, antes de Raposo e depois dele, sempre houve impostores, mais ou menos refinados, à espreita dos melhores ardis para atingir os seus fins: lisonja, falta de carácter, falsidade, abusos de toda a ordem…Mais duas ficções mas que poderiam ser histórias verdadeiras…

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Esta é uma história exemplar: como progredir, obter sucesso? Podem perguntar-me se os métodos são correctos…Avaliem por vós.

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Quando Abel nasceu, o seu destino estava traçado. O pai era um homem de negócios, proveniente duma modesta família da Beira-Baixa, que soubera prosperar.

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A casa no Estoril era o testemunho dessa ascensão.

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Porém, o pai guardava uma mágoa: dono de uma importante firma de Import-Export, com escritório no Cais do Sodré, não era licenciado. Mesmo, quando agora lhe chamavam “Sr. Dr”., ele sabia não ser verdade e preferia que o tratassem por Sr. Comendador. Porque a Comenda recebera-a, de facto, num 10 de Junho, embora, sempre tivesse acabado por ter de mexer uns cordelinhos…

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Portanto, quando Abel nasceu, o pai sentenciou: há-de ser médico! Abel teve uma infância feliz e uma adolescência despreocupada. Era simpático, cativante. Cedo se apercebeu como a gentileza, e um toque de sedução por vezes ajudavam a resolver o que parecia impossível.

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Fez a Faculdade, um doutoramento nos USA e conseguiu a Direcção do Serviço. Porém, a pouco e pouco o Sr. Professor ou o Abel, como gostava que o tratassem, passou a rarear no Serviço. Por vezes, ia muito cedo e marcava falta aos retardatários, mas depois ele próprio não punha lá os pés semanas a fio. A sua semelhança com o dr. House era notória, apenas a melena desgrenhada sobre a testa era uma imagem de marca.

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No entanto, nos primeiros tempos a actividade era grande, o entusiasmo maior, só que depois foram esfriando…

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Aos seniores, acontecia mandá-los chamar e fazê-los esperar durante uma hora ou não os poder receber…;

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Quando pretendia cativar algum colaborador prometia um equipamento que fosse necessário para o desenvolvimento dum projecto que aquele ambicionava há muito, dizendo que tinha chegada a hora…Passavam-se meses e…

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e acabava por mandar um homem de confiança dizer que “a Gulbenkian cortara as verbas”… ou que se vira obrigado a substituir o pedido…enfim, contrariedades que ele lamentava profundamente, claro…

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Abel está nas suas sete quintas. Tudo quanto é personalidade importante –gestor, político, jornalista, é ele que observa, opera, segue minuciosamente. A imprensa, a comunicação social estão nas suas mãos. Tem um conselheiro de imagem. Joga ténis, pratica hipismo.Faz capa de revistas quando se sente pressionado.

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Abel não tem amigos ou melhor tem muitos (interesses). Recentemente, porém, as coisas começaram a tornar-se mais complicadas e o seu lugar deixou de ser inquestionável…Talvez que a adversidade o tenha iluminado e uma inusitada fé religiosa o avassalasse, o que não deixa de ser surpreendente para quem nunca manifestara qualquer crença.

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Há tempos tentou formar uma Lista para se candidatar à Presidência duma Sociedade Científica. Dando-se conta que os apoios de que dispunha não lhe permitiriam ganhar, retirou a sua candidatura e no dia da eleição, quando o vencedor comemorava, voltou-se para ele e disse: “Parabéns! Vais ter um mandato abençoado por Nossa Senhora”. Era o 13 de Maio. Estranhos são os desígnios do Senhor!

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(não há coisa mais importante na vida do que a amizade!)

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Esta é uma outra história, um pouco mais antiga. O seu herói é o Eng. Ferro. Trabalhava ele num Departamento do Estado que dependia directamente da Presidência do Conselho, onde ingressara em 1972.

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Um seu tio, General, tinha sido Ministro de Salazar.

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O pai fora legionário e participara no Batalhão dos Viriatos na Guerra civil de Espanha. Naquela altura, já meio demenciado, residia no Chiado, num casarão na Rua Ivens.

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Ao Eng Ferro abria-se um futuro auspicioso. Fazia investigação científica. Algumas experiências valeram-lhe a alcunha de “cientista louco”. Mas a possibilidade de um doutoramento e de uma carreira académica eram objectivos naturais. Durante a Faculdade nunca se lhe conheceram quaisquer actividades contestarias. Ouviu-se mesmo dizer até fora fura-greves, mas se calhar eram boatos dos comunas…

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O Eng. Gaudêncio e a Dra. Odete eram pessoas próximas de Ferro. A segunda era uma mulher de voz fanhosa que devia acordar maldisposta, de temperamento bilioso, sempre pronta a desfazer nos colegas; Gaudêncio, um hipocondríaco com tendência para os dramas. Tinham sempre presentes os comunicados do Governo, que aceitavam sem a mínima dúvida. A oposição, um bando de subversivos. Portugal era uno e indivisível e, por isso mesmo, defendíamos o Ultramar da cobiça estrangeira. Eram Portugueses como devia ser!

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O Prof. Julião era o chefe do Departamento: católico fervoroso, tinha uma certa vaidade na “sua” quinta do Algarve que por sinal era da mulher. O funcionamento intestinal de precisão suíça, faziam-no atravessar o Laboratório às 16,45h. 10 minutos antes todos os funcionários, mesmo que nada tivessem feito durante o resto do dia, exibiam tubos de ensaio, lâminas, postavam-se diante do microscópio, enfim uma actividade fervilhante. Quando Julião se aliviava tinha sempre uma palavra cordial para com eles.

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Um certo dia o Eng. Ferro, que fazia um estudo que obrigava a controlos diários, esteve uma semana com atestado, não avisou ninguém e o trabalho perdeu-se. Como se tratava duma investigação cujos resultados deveriam ser apresentados em breve, o Prof. Julião ficou furioso. Chamou-o ao gabinete e deu-lhe uma reprimenda, dizendo que ele era irresponsável. À saída o nosso Ferro rosnou: “Pode ser que um dia te arrependas…”

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Mas eis que surge a Revolução de Abril. Aquele Departamento de gente pacífica, a grande maioria com padrinhos sonoros do Antigo Regime…regenera-se! Fazem-se assembleias de trabalhadores, nomeiam-se comités, organizam-se comissões de saneamento. Abaixo os chefes! Cada um deles é escrutinado. Vários são saneados, entre eles o Professor Julião, acusado de prepotência e perseguição aos trabalhadores, que o levava a fazer visitas diárias ao local de trabalho com o intuito malévolo de fiscalização e controlo (provavelmente às 17 horas). A proposta, aprovada por maioria, fora apresentada pela Dra Odete e instigada pelo Eng. Ferro. Este cumprira a ameaça!

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Foram meses de intensa actividade. Finalmente em todo o Departamento havia vida. Em vez de provetas escreviam-se comunicados, os balões foram substituídos por reuniões em que definiam todos os objectivos inclusivé os científicos, onde democraticamente todos participavam com direito a voto, do servente (que passara a auxiliar de limpeza) ao licenciado.

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Os retroprojectores serviam para dinamização política. As salas de reuniões estavam permanentemente ocupadas.

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Até o pacato Cepeda, fazendo juz ao apelido, emitia sonoros borborismos: Abaixo a Reacção!

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O Eng. Ferro encabeçou um movimento de extrema esquerda. Mas veio a pacificação de Novembro. O nosso heroi muda de Departamento e de atitude. Filia-se num partido, dos que podem ser Governo. Quando o Prof. Julião é readmitido, vai felicitá-lo e desculpa-se pelos seus ardores de jovem revolucionário. Trocam um abraço. Ferro candidata-se a deputado. Tem futuro.

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Como se vê, Teodorico, Abel e Ferro são apenas exemplos em épocas diferentes de impostores de afectos para daí tirarem proveito. Conhecemo-los em toda a parte. Ás vezes torna-se mais fácil revelarem-se: a ocasião faz o ladrão.

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Teodorico, orfão de mãe e pai, é criado por sua tia D. Patrocínio das Neves, conhecida por todos por Titi. Teodorico é um jovem boémio, sem escrúpulos, que finge ser um católico fervoroso só para agradar à tia, pois acha-se seu único herdeiro. A tia financia-lhe a educação e ele frequenta a Faculdade de Direito em Coimbra, donde sai Bacharel. No entanto, a feroz vigilância da tia traz-lhe alguns dissabores, obriga-o a uma vida de penúria e traz-lhe a chacota dos colegas. Como conseguir deitar mão à fortuna da Titi? De Coimbra vem com a alcunha de “Raposão”. A grande dificuldade de Teodorido é a educação extremamente religiosa, que ela lhe impõe. No entanto, tudo corre bem até que Teodorico, descobre que a Titi, vai deixar toda sua fortuna à Igreja…
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