Lugares, encontros e memórias

00“A política e os destinos da humanidade são forjados por homens sem ideais nem grandeza. Aqueles que têm grandeza interior não se encaminham para a política.”

Albert Camus

Todos falamos de cafés, de lugares que conhecemos, uns mais relevantes que outros. Que evocam acontecimentos ou figuras que nos marcaram a vida ou, pelo menos, são referências maiores. Como sucede com o Martinho da Arcada e Fernando Pessoa ou o Nicola e Bocage.
Deambular por esta ou aquela cidade e vir-nos à memória uma história de que por vezes falamos ou que, de repente, desperta do esquecimento. Como darmos conta de locais que se transformaram, dos cafés de estudante travestidos em lojas de vestuário ou balcões de um qualquer banco. Ou terem desaparecido de todo.
O que sabemos do Chave d’Ouro no Rossio e do Gen. Humberto Delgado, quando na campanha eleitoral de 58, ao perguntarem-lhe qual seria a sua atitude referente a Salazar, se vencesse, respondeu: “Obviamente, demito-o”? Ou, já agora, olhar a placa que na Estação de Santa Apolónia, evoca o regresso do General da visita triunfal ao Porto, onde fora aclamado por 200000 pessoas?
O tempo (nem sempre, o progresso) segue o seu curso e, mesmo que haja políticas de recuperação ou manutenção de locais históricos (que são raras), cada um dará sempre pela falta dum espaço, onde uma carícia, um sorriso, um abraço como uma lágrima, uma revolta ou a saudade de alguém, ocorreram. Como da escola onde um professor teve a capacidade de determinar as nossas escolhas. São esses locais, espólio da memória de cada um, os quais terão sempre lembranças que, por poucos, serão partilhadas.
Evidentemente, os espaços, como nós, envelhecem e morrem. Alguns perdurarão. São património da cultura e matriz de civilizações, ou marcos de tragédias, as quais, piedosa e ingenuamente, aspiramos a que não se repitam.
Um campo de concentração nazi, visita para imaginar os horrores, a maldade, crueldade exercida sobre gente indefesa, cujos crimes eram ser judeus ou ciganos ou inválidos ou homossexuais, ou por expressarem ideias opostas aos dogmas nacional-socialistas. Os campos, onde milhões de seres humanos foram exterminados. Porém, não só na II Guerra Mundial, como os arménios por turcos e otomanos, como nas ditaduras mais ou menos recentes de Staline ou Mao, por exemplo, a pretexto de não se integrarem na nova ordem social que defenderia os interesses dos oprimidos (mas antes, a oligarquia do partido ou o poder pessoal). Genocídios. Ou, actualmente, pelo fanatismo religioso a conduzir a atentados e a assassinar quem não pensa do mesmo modo. O horror dos atentados suicidas que dizimam inocentes, a repulsa pelos que mutilam as jovens, que as impedem de frequentar a Escola, que lhes tapam o rosto e as obrigam a baixar os olhos em presença de um homem…
Ceder aos hábitos reaccionários, à castração física e intelectual é o regresso à barbárie, à Idade Média. Das Cruzadas ao Estado Islâmico, muito foi o progresso, as liberdades conquistadas. Do esplendor da civilização islâmica temos bem perto Alhambra e Córdova, de que nos orgulhamos, como património da humanidade. Como nos orgulhamos da arte – música, literatura, arquitectura, etc., das civilizações hebraico-cristãs.
Por que horrores e agonia passaram todos aqueles prisioneiros? O universo de cada um de nós está formatado cada vez mais para o cumprimento de tarefas, para a sobrevivência a qualquer preço. A economia, a crise financeira, os escândalos, o nepotismo, a corrupção, calúnias, preenchem o quotidiano. O que nos dizem os sorrisos de alívio de quem fugiu a tempo do horror nazi ou o menino de braços no ar ameaçado pelas espingardas do ocupante no ghetto de Varsóvia, que seria depois destruído pelos alemães? Talvez um imediato sentimento de pena e horror, rapidamente esquecido. É pouco. Visitar Varsóvia e ver as suas largas avenidas planas e perceber que é uma cidade nova, reconstruída sobre escombros. Como tantas outras, arrasadas pela Guerra.
A memória é curta e apenas a aproximação da História nos leva a desconfiar das promessas e dos propósitos demagógicos de tantos politicozinhos fabricados na proveta das Juventudes partidárias, como sucede em Portugal. Por isso, políticos há muitos, estadistas raros. E ética, isso as famílias não ensinam, as escolas não têm tempo.
Mas em momentos de opressão onde as liberdades estão impedidas ou censuradas, há, houve e haverá quem se não resigne e gradualmente se vá opondo, juntando vozes, cimentando as convicções, dando combate. São forças crescentes que são ou destruídas ou, mais cedo ou tarde, contribuirão para o derrube da opressão. Foi assim em Portugal na década de 60, e de que damos testemunho. De reivindicações académicas, aparentemente singelas, a cegueira totalitária com levantamento de processos disciplinares, cargas policiais, prisões e expulsões, potenciou uma consciência política que haveria de contribuir para politizar os oficiais do Quadro Permanente que entendiam que a “Guerra do Ultramar” não poderia continuar sem uma derrota militar que, no mínimo, os iria pôr em cheque.
Da Guerra Colonial já falamos noutro caderno deste blog, mas não do que se viveu em Portugal entre 74 e 75. Período fascinante, em que tudo foi posto em causa, onde se misturavam desde revolucionários que tinham vivido na clandestinidade até oportunistas filhos-de-família tornados extremistas de esquerda por má consciência, houve de tudo. Felizmente, também gente equilibrada capaz de entender o razoável. Luta de quase todos os dias, em que os acontecimentos, manifestações e contramanifestações se sucediam, discursos delirantes, intentonas, provocações, ataques à liberdade de imprensa. A Revolução em Lisboa, transformada em zoo da política mundial.
O Cinema Novo, rompendo com as velhas tradições, focou-se no homem, na análise dos seus conflitos, do ambiente real em que se movimentava ou asfixiava. Se uma foto é um flash dum momento, o filme retrata em continuidade uma história. Eu lembro, porque me é próximo, porque me identifico, porque aborda experiências que conheci, “Os Imortais” de Antonio-Pedro Vasconcelos – tornado filme de culto. A guerra, a solidariedade, a marginalidade, a crueza e, ao mesmo tempo, lirismo e impiedade. Filmes não de uma época, que contam histórias sejam elas quais forem, servindo-se da estética que o realizador perfilha. O cinema que apareceu nos anos 60 mostra essa metamorfose. O filme “D.Roberto” de Ernesto de Sousa, estreado no ex-cinema Império (que saudade de tantos Visconti que ali vi…) até este “Os Gatos não têm vertigens!” também do Antonio-Pedro Vasconcelos, são uma amostra da evolução do Novo Cinema português.
A memória de cada um pode ser avivada pelos factos, encontros e lugares mais insólitos ou inocentes. É desses, de alguns desses, de que agora falo.

FM

 

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Após a ascensão ao poder pelos nazis (1933) e durante toda a 2ª guerra Mundial, Lisboa foi uma porta de saída para os refugiados que conseguiam escapar à ocupação nazi. Muitas foram as personalidades que por lá passaram como Calouste Gulbenkian e Antoine de Saint-Exupéry. Mas, se Lisboa era uma saída para a liberdade, muitos outros locais alojaram refugiados que conseguiam escapar. E, simultâneamente, era porta de entrada para espiões de ambos os lados, diplomatas e militares…

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Eis uma placa que assinala o local onde muitos refugiados ficaram alojados, na Vila da Ericeira

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Também em Sintra, neste Hotel, hoje à espera de reabilitação, ficaram alojados refugiados, cujo objectivo principal era seguir para os Estados Unidos.

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A chegada ao Hotel Netto e a alegria (ou alívio) dos que haviam escapado.

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Porém, foi pequeno o número daqueles que conseguiram escapar. Dos 340.000 judeus que deixaram a Alemanha e a Áustria, no início da guerra, quase 100.000 deles encontraram refúgio em países que, posteriormente, foram conquistados pela Alemanha, e onde as novas autoridades deportaram e mataram a grande maioria dos que tentaram fugir.

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Figueira da Foz, numa fotografia da época, outro local de acolhimento.

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Relembrando o filme Casablanca, não se sabe se algum dos refugiados sentados nesta esplanada do Rossio, em Lisboa, teria uma carta de trânsito obtida por um qualquer Ugarte (pequeno delinquente no filme, que matara dois mensageiros alemães, para as obter) . Essas cartas eram uma espécie de passe que permitia ao titular o livre trânsito pela Europa controlada pelos nazis e chegar a Lisboa, cidade neutra, e, daí partir para os  Estados Unidos.

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As pessoas cujos dias estão impregnados pelo horror do que vêm – os doentes, os moribundos, o fumo que sai dos fornos crematórios e anuncia a morte massificada; como as humilhações infligidas pelos algozes, metamorfoseando-as em números tatuados na pele; a cobardia de alguns prisioneiros como elas, mas que as vigiam e denunciam para melhorar as suas condições de vida; os comboios que chegam consecutivamente com mais escravos, uns para trabalharem, outros para serem liquidados de seguida. Mas, até matar dá trabalho. E, talvez por isso, à entrada desses campos de ignomínia sempre se leia a mesma frase “Arbeit macht frei” (o trabalho liberta).

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Dachau (perto de Munique) foi o primeiro campo de concentração mandado construir por Hitler e um dos maiores. Albergou inicialmente oposicionistas ao nazismo, mas depois, judeus, polacos, homosexuais, ciganos, testemunhas-de-Jeová, sem-abrigo. As condições de vida no campo eram inimagináveis. Os presos serviram para experiências “médicas” (transformados em cobaias – muitas morreram vitimados por doenças, principalmente tifo e cólera), perdiam a sua dignidade dentro de uniformes listados e com estrelas de 6 pontas. Eram submetidos a trabalho-escravo sobrehumano que os matava também por exaustão e fome. Dachau chegou a albergar 200.000 prisioneiros, dos quais foram exterminados cerca de 30000. Muito do esforço de guerra alemão assentou neste trabalho-escravo. Os bens dos judeus (eram considerados como tal, desde que houvesse desde os seus avós pessoas com essa origem) foram confiscados. E até os dentes de ouro dos mortos eram removidos e fundidos.

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Dachau possuia uma câmara de gás, embora não haja provas de que tenha sido utilizada. Mas, além dos campos de concentração como este, os nazis criaram campos de extermínio para conseguir a solução final (assassinatos em massa), como foi o caso de Auschwitz. Estava previsto exterminar os judeus até dos países neutrais como Portugal, ou Inglaterra e Estados Unidos. Os campos de concentração serviram principalmente para centros de detenção e de trabalho forçado, enquanto os campos de extermínio eram “fábricas de morte”.

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Cerca de 20000 campos de concentração albergaram prisioneiros, tanto para trabalhos forçados, como de passagem para os campos de extermínio. Uns foram construídos na Alemanha, mas também nos países que iam sendo ocupados, como foi o caso da Polónia ou da União Soviética. O transporte dos presos por comboio prensados em vagões de transporte de gado, era inimaginável e muitos prisioneiros morriam pelo caminho. O primeiro campo de extermínio foi aberto em Dezembro de 1941, e nele, judeus e ciganos foram mortos por envenenamento em furgões com tubos que soltavam gás para o seu interior.

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Mas, a partir daí, a metodologia foi sendo refinada e constituía verdadeira linha de montagem. Os nazis construíram câmaras de gás para tornar o processo de assassinato em massa mais eficiente, rápido e menos pessoal para os executores. As câmaras de gás eram aposentos fechados que recebiam o gás letal que matava quem lá metiam. Havia quatro câmaras de gás no campo de extermínio de Birkenau, localizado no complexo de Auschwitz. No auge das deportações para o campo, mais de 6.000 judeus eram diariamente executados. Os seus corpos, muitos eram cremados.

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As SS e a polícia alemã assassinaram cerca de 2.700.000 judeus nos campos de extermínio, fosse utilizando câmaras de gás ou fuzilamento.

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Ghetto de Varsóvia (esta imagem que vi reproduzida em revistas já depois da guerra acabada nunca a esqueci). Após a invasão e rapidamente, aos judeus que ocupavam uma zona reduzida da cidade juntaram-se mais, trazidos pelos alemães, e provindos de outras cidades. Um ano depois ergueram um muro para os separar do resto da cidade. As condições de vida eram insuportáveis. Cada morador tinha direito a alimentação cujas calorias eram menos de 1/10 das atibuídas aos alemães. Os prisioneiros, que tinham arcaboiço para tal, tinham de fazer trabalho-escravo. Fome, doenças, morte. Alguns judeus rebelaram-se. A repressão, foi o esperado. Em 1942 os judeus começaram a ser levados em massa para campos de extermínio (Treblinka). Calcula-se que, da população inicial de 380.000, tivessem sobrevivido 70000.

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Apesar de Portugal se ter mantido neutral, o Governo, se na sua maioria e nos primeiros anos da guerra, predominava o entusiasmo pelos sucessos das tropas hitlerianas e pela sua política, figuras houve cujas simpatias iam para o esforço inglês de resistência. Armindo Monteiro foi um deles, desempenhado entre outros cargos o de embaixador de Portugal em Londres, durante a fase inicial da Guerra. Mas a personalidade que mais influência teve e a cuja acção alguns milhares de refugiados ficaram a dever vistos para Lisboa, em 1940, escapando assim ao Holocausto, foi Aristides de Sousa Mendes (aqui, um busto seu em Bordéus). Cônsul naquela cidade, ousou recusar o “dever de obediência”, a que a sua actividade obrigava, e acabou por ser aposentado por Salazar. Morreria em 1954, amargurado e pobre.

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Imagem dum campo de concentração. Período de descanso.

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De facto, é importante não esquecer as atrocidades da barbárie extrema de todos os genocídios, não só as praticadas pelos nazis, mas por todos os totalitarismos e fanatismos. As placas, as lápides, os memoriais, mesmos os mais singelos, que nos levem a perceber a face oculta da maldade. O encontro com a monstruosidade.

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O Café Gelo é talvez o mais célebre dos cafés do Rossio. Essa notoriedade deve-a pricipalmente a ter sido daqui que saíram os carbonários Buiça e Costa, com a missão, nunca devidamente esclarecida, de assassinar ou o Chefe do Governo, João Franco ou o Rei D. Carlos, que regressava de Vila Viçosa, onde passava largas temporadas. Acabaram por ser o Rei e o Príncipe Herdadeiro, as vítimas, embora também o outro filho tivesse sido ligeiramente ferido.

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Situado entre o Rossio e a rua traseira (hoje, Rua 1º de Dezembro) era o local onde se reuniam republicanos mais extremistas, carbonários e maçons. De quem partiu a ordem, não se sabe. Assassinaram o Rei, porque o ditador João Franco mudava permanentemente de local de dormida e não foi apanhado na sua residência oficial? Ou pretendeu-se, deliberadamente, acabar de vez com a Monarquia?

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Retrato de Afonso Costa no café Gelo – Mais tarde foi também local de tertúlia de artistas como Cesariny. No 1º de Maio de 1962 a Polícia matou um manifestante junto ao Palácio Foz; o café Gelo foi invadido e, depois,gradualmente, entrou em decadencia.

 

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Hoje, tem um aspecto rejuvenescido, onde nas paredes se encontram fotografias da época, com destaque para esta gravura do regicídio (os fotógrafos aguardavam o rei no palácio das Necessidades…). Na pequena sala dos fundos pode imaginar-se um ambiente conspirativo.

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A Cervejaria Trindade, considerada património cultural da cidade de Lisboa, desde 1986, é a mais antiga do país e um espaço grandioso. Os seus primórdios remontam a 1294, quando é fundado o Convento da Santissima Trindade, inaugurado pela Rainha Santa Isabel, já no século seguinte. Muitas foram as vicissitudes por que passou: incêndios, destruição pelo terramoto… (Caiu o Carmo e a Trindade). Em 1834 – extintas as Ordens Religiosas, parte do Convento foi demolida. É, então, construída uma fábrica de Cerveja em terreno anexo, que depois passa a funcionar no local que hoje conhecemos.

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As paredes do antigo refeitório dos monges foram revestidas por paineis de azulejos com motivos maçónicos. No seu interior funciona uma galeria de arte onde se realizam exposições de pintura e escultura, Depois de ser alienada a fábrica de cerveja, o edifício foi renovado e ampliado. É, sobretudo, na década de 40 que a Cervejaria adquire a traça arquitectónica actual, estendendo-se pela espaço, outrora ocupado pela Igreja e depois pela fábrica de cerveja.

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A Brasileira do Chiado, fundado em 1905, é um dos mais emblemáticos cafés de Lisboa. A sua importancia deve-a sobretudo ao facto de ter sido local de tertúlias artísticas e literárias das mais significativas de Lisboa.

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Várias exposições fizeram da Brasileira um museu ocasional em que foram expostas obras de Almada Negreiros, António Soares, Eduardo Viana, Jorge Barradas , Bernardo Marques, Stuart Carvalhais, Eduardo Nery, Nikias Skapinakis, Noronha da Costa e Vespeira, entre outros.

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A Brasileira do Chiado possui uma identidade própria, dada pela especificidade da sua decoração, e por se encontrar também associada a círculos de intelectuais, escritores e artistas de renome como Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Santa Rita Pintor ou Abel Manta, entre muitos outros.

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Na esplanada do café, em 1988, foi inaugurada uma estátua em bronze de Fernando Pessoa, cliente assíduo, da autoria de Lagoa Henriques. Pessoa, enquanto jovem, reunia-se com um grupo de intelectuais que fundariam o Orpheu, à volta da figura do poeta-general Henrique Rosa (tio adoptivo de Fernando Pessoa).

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O café Nicola, como hoje o conhecemos, resultou de várias remodelações de um espaço, inicialmente criado por um italiano que lhe deu o nome, durante a reconstrução de Lisboa, após o Terramoto. Foi, também ele, local de tertúlia de políticos e artistas, como Bocage, cuja figura é evocada por uma escultura e várias telas. Nessa época, Portugal vivia uma época de grave crise financeira, pois o ouro do Brasil já não compensava o esbanjamento da Corte. O povo era miserável.

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Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805) era filho dum bacharel em Direito que terá sido vítima duma armadilha que o manteve preso, sem julgamento, sete anos. O avô materno, Almirante francês, viera para reorganizar a Marinha Portuguesa. E também Manuel Maria enveredaria pela Marinha Real, que o levou como Oficial ao Brasil, Moçambique, Índia e Macau, não sem que por várias vezes tivesse desertado… Nessa época, o talento de Bocage era já reconhecido, não apenas como poeta lírico, mas satírico e erótico. A causa da Liberdade era-lhe cara, os ventos da Revolução Francesa influenciavam-no tanto quanto a repressão ordenada pelo Intendente Pina Manique, que na loucura da Rainha Maria Pia, era quem, de facto, mandava no pais.

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Durante 10 anos Bocage viveu uma vida libertina, mas corajosa na denúncia do despotismo do Intendente. Se esta postura lhe granjeou fervorosos adeptos, inevitavelmente conduziram-no à prisão. “Desordenado nos costumes”‘ foi a acusação feita. Passou pelo Limoeiro (onde viveu em condições sub-humanas) e passou por vários calabouços da Inquisição. Durante a reclusão fez traduções de poetas franceses e latinos. Quando saiu em liberdade, já doente, trabalhou com um frade brasileiro, politicamente bem situado, que lhe garantiu traduções, até à morte. Mas até depois desta, o seu espólio literário foi devassado e adulterado. Eis Bocage, que é bom recordar no ambiente requintado do Café Nicola.

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Já Bocage não sou!… À cova escura/ Meu estro vai parar desfeito em vento…/ Eu aos céus ultrajei! O meu tormento/ Leve me torne sempre a terra dura.// Conheço agora já quão vã figura/ Em prosa e verso fez meu louco intento./ Musa!… Tivera algum merecimento,/ Se um raio da razão seguisse, pura!// Eu me arrependo; a língua quase fria/ Brade em alto pregão à mocidade,

Que atrás do som fantástico corria: // Outro Aretino fui… A santidade/ Manchei!… Oh! Se me creste, gente ímpia,/ Rasga meus versos, crê na eternidade! (Soneto Ditado na Agonia in Rimas)

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Três anos depois do terramoto nasceu uma taberna por baixo de uma das arcadas da Praça do Comércio, que só teria inauguração oficial e solene em 1782, com direito a fanfarra e tudo. Chamava-se “Casa da Neve”. Passou a ser frequentada por nobres e burgueses endinheirados. Porém, o primitivo dono, que desempenhava funções na Corte, arrendou-o a um italiano que lhe mudou o nome para ”Casa de Café Italiana”

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Independentemente da excelência da sua cozinha, O Martinho da Arcada, como depois foi rebaptizado, após outras gerências e designações, foi inevitavelmente local de reuniões literárias. Situado a meio caminho dos bairros históricos, em plena baixa pombalina e virado para o Tejo, era um invejável ponto de encontro.

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Fernando Pessoa era frequentador assíduo, aqui numa imagem “em pleno delitro”. Muita da sua produção poética foi feita aos fins de tarde numa mesa do café; e nos últimos anos de vida, transformado numa espécie de 2ª casa, sobretudo após a morte de sua mãe, com quem vivia juntamente com os meio-irmãos, num andar do edifício, hoje, todo ele, transformado na Casa Fernando Pessoa. Para sobreviver (levava uma vida modesta e pacata) fazia traduções de correspondência estrangeira para várias casas comerciais.

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Pelo Martinho da Arcada passaram importantes políticos e escritores. Entre os últimos Bocage, Cesário Verde, Antonio Botto ou Almada Negreiros. E, claro, Fernando Pessoa. Parece ter sido aqui que tomou o último café com Almada, antes de ser internado e falecer. Pessoa tinha uma mesa permanente, distinção de que gozou também Saramago (talvez intrigado pelo facto de Pessoa não ter previsto o Ano da morte de Ricardo Reis…e que a isso se tivesse dedicado).

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Fernando Pessoa com o escritor Costa Brochado. Poeta múltiplo que escreveu de acordo com as diferentes personalidades que criou, elaborou uma carta astrológica para cada um dos seus heterónimos. Ele próprio (o ortónimo) nasceu às 15,20h, tinha ascendente Escorpião e o Sol em Gémeos). Mas realizou mais de mil horóscopos. A maçonaria e a Rosa-Cruz foram organizações a que terá estado ligado.

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“Cada um tem a sua vaidade, e a vaidade de cada um é o seu esquecimento de que há outros com alma igual. A minha vaidade são algumas páginas, uns trechos, certas dúvidas… Releio? Menti! Não ouso reler. Não posso reler. De que me serve reler? O que está ali é outro. Já não compreendo nada…” (Livro do desassossego/Bernardo Soares)

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Este edidício na Rua Coelho da Rocha, 16, 1º. Dt.º, Lisboa, foi a última residência do poeta. Presentemente todo o edifício foi transformado na Casa Fernando Pessoa (1993). Eis excertos do modo como se definia: Ideologia Política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberdade dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reaccionário. “Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria. “Posição iniciática: Iniciado, por comunicação directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da (aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal.“Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda a infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: «Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação».“Posição social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.“Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos – a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania”.

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” Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso – em suma, é a nós mesmos – que amamos. Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. O onanista é objecto, mas, em exacta verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana. As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha complexidade. No próprio ato em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois «amo-te» ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer dizer uma ideia diferente, uma vida diferente, até, porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstracta de impressões que constitui a actividade da alma.”…”É de compreender que sobretudo nos cansamos. Viver é não pensar.”

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Era um homem magro, com uma figura esguia e franzina, media 1,73 m de altura. Tinha o tronco meio corcovado. O tórax era pouco desenvolvido, bastante metido para dentro, apesar da ginástica sueca que praticava. As pernas eram altas, não muito musculadas e as mãos delgadas e pouco expressivas. Um andar desconjuntado e o passo rápido, embora irregular, identificavam a sua presença à distância.
“Vestia habitualmente fatos de tons escuros, cinzentos, pretos ou azuis, às vezes curtos. Usava também chapéu, vulgarmente amachucado, e um pouco tombado para o lado direito. ..” In
: À mesa com Fernando Pessoa/Luís Machado; pref. Teresa Rita Lopes.- Lisboa: Pandora, 2001.

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“Apesar de conviver com os amigos, no fundo nunca deixou de ser um homem neurasténico, solitário e reservado, pouco dado a conversar com estranhos. No final da sua vida, a melancolia e uma exagerada angústia existencial predominavam. Daí a tendência para se isolar dos mais próximos e dos próprios familiares. O seu temperamento ansioso foi interpretado por alguns dos seus biógrafos como uma personalidade do tipo emotivo não activa. No fundo, era um tímido introvertido, dado a fortes instabilidades de sentimentos e de emoções. In: À mesa com Fernando Pessoa/Luís Machado; pref. Teresa Rita Lopes.- Lisboa: Pandora, 2001.

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Na casa Fernando Pessoa está preservada a biblioteca que lhe pertenceu, desde os livros por ele adquiridos, sobretudo escritos em inglês e francês, aos portugueses, muitos deles oferecidos. Hoje a vasta obra do poeta está digitalizada.

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Móveis e vários objectos pessoais, entre os quais a máquina de escrever, os óculos e blocos de apontamentos complementam o acervo da Casa, que alberga também uma sala multimédia – o Sonhatório.

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…”Toda a vida marítima! tudo na vida marítima! / Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina / E eu cismo indeterminadamente as viagens. / Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte! / Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas! / As solidões marítimas, como certos momentos no Pacífico / Em que não sei por que sugestão aprendida na escola / Se sente pesar sobre os nervos o/ fato de que aquele é o maior dos oceanos / E o mundo e o sabor das coisas tornam-se um deserto dentro de nós! / A extensão mais humana, mais/ salpicada, do Atlântico! / O Índico, o mais misterioso dos oceanos todos! / O Mediterrâneo, doce, sem mistério nenhum, clássico, um mar para bater / De encontro a esplanadas olhadas de jardins próximos por estátuas brancas! / Todos os mares, todos os estreitos, todas as baías, todos os golfos, / Queria apertá-los ao peito, senti-los bem e morrer!…” In Ode Marítima/Álvaro de Campos

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Ilha do Faial e o seu café-bar feito ícone, não só para apreciadores de Gin, mas pelas histórias de viagens, pescadores e marinheiros. Eram outros tempos, mas o gosto é o mesmo e os graffiti da marina também o testemunham.

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José Azevedo (1925-2005) foi quem esteve na origem do nome Peter, por que o café é conhecido. Isto porque umo oficial do navio “HMS Lusitânia II” da Marinha Britânica, ao visitar a ilha em 1939, encontrou grandes semelhanças entre José Azevedo e o seu filho Peter, passando a tratá-lo por Peter, aquando das visitas ao até então “Café Sport”.

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Para além do ambiente cosmopolita do café, José Azevedo, em 1986, inaugurou o Museu Scrimshaw. Este termo refere-se à arte de entalhe, gravação ou pintura em ossos ou dentes de cetáceos. Juntamente com a vizinha ilha do Pico, foi em ambas que a indústria baleeira conheceu até aos anos 80 grande importância, através do comércio do óleo e outros produtos. Muitos faialenses dedicaram-se à criação de artigos de artesanato feitos a partir de partes da baleia, e atualmente, um pouco por toda as ilhas subsiste a oportunidade turística de observação de cetáceos nos Açores.

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No Porto, como aliás noutras cidades do país, assiste-se ao desaparecimento ou degradação de cafés tradicionais, dada a desertificação nocturna das zonas históricas pelas populações, atiradas para a periferia. Os que persistem são, sobretudo, mantidos pelos turistas.

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Em plena Rua de Santa Catarina sobrevive um café que pretende manter o glamour da “belle époque”. Em funcionamento deste 1921, o luxuoso café Majestic dispõe de um ambiente arte nova, onde o luxo evoca inúmeras histórias. Aqui se encontravam periodicamente intelectuais como José Régio, Teixeira de Pascoaes e Leonardo Coimbra. Era também um centro de boémia. Discutiam-se questões políticas, sociais e filosóficas, regadas a café.

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Recebeu, também, ao longo do século a visita de outras grandes personalidades, como Gago Coutinho ou Beatriz Costa.

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Outrora, era no café A Brasileira do Porto que convergia a alta sociedade portuense. Fundado pelo inovador Adriano Teles, que lançou o hábito de servir café em chávena em 1903, este estabelecimento funcionou até 2008, sofrendo depois diversas alterações. Recentemente, soube-se que o espaço vai ser requalificado com construção de um hotel, mas conservando o café.

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A Cantina da Universidade de Lisboa. Clássica – nem Técnica nem Nova. Cantina Velha, depois; agora de novo Cantina, já que a Nova encerrou.

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A fotografia actual revela um imóvel sem diferenças visíveis, mas onde no seu interior muito se modificou. Na década de 60, fruto da situação política , crescia a consciência contra a ditadura.

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Tímidamente, mas, à medida que a mobilização militar dos estudantes aumentava, mais a consciência política crescia. Da Mocidade Portuguesa do Estado Novo (de saudação romana de braço estendido) nasciam os associativos que iriam revolucionar a Universidade. Também a actividade cultural era intensa. Apareciam Grupos de Teatro (sobretudo, o de Direito), a participação no Festival de Nancy…

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Na Cantina comia-se, entre 61-68 por 8$00. E nos intervalos muitos estudavam. No primeiro piso (à direita na imagem) existem uns separadores que permitem uma certa intimidade. Havia quem tivesse “lugar cativo”. Quase à entrada era o lugar de eleição do Ruy Belo. Mas muitos estudantes haveriam de ser gente notável, não só na profissão, como fora dela. O Antonio Lobo Antunes, por exemplo, que não era frequentador assíduo. Como também o João Varela, que trouxera de Coimbra a auréola de aluno brilhante, a quem os colegas iam assistir aos exames, e que viera concluir o curso em Lisboa.

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Do João Varela, que depois partiria para a Bélgica, onde fez uma carreira notável de investigador e professor na área das Neurociências, devo o primeiro contacto com Saint-John Perse, T. S. Elliot , os clássicos gregos e a revisão da Bíblia, que ele considerava, não por razões religiosas, um livro belíssimo. Leio agora artigos de quem se insurge pelo facto de não lhe ter sido atribuído o Prémio Camões. João Manuel Varela ou T. T. Tiofe ou G. T. Didial ou João Vário – os vários pseudónimos que utilizou.

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É uma poesia narrativa, com uma riqueza de imagens por vezes asfixiante. As citações, alusões aos clássicos fazem a sua poética densa, um tanto hermética. De facto, à altura de um Pound. Como é possível os críticos não se terem apercebido disso, as reedições só timidamente começarem a aparecer? Poeta maior, caboverdeano do Mindelo, onde também morreu aos 70 anos, dos maiores poetas da língua portuguesa.

…Depois, depois faremos ou fará o tempo, por sua vez,/ Aquele blasfemíssimo comentário,/ E então consta que amámos.

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E então subimos aquele grande rio/ e as portas do Ródão, chamadas. Era em abril/ dois dias depois da neve/ e da cidade dos nevões, na serra./ E olhamos para os penhascos da beira-rio,/ as oliveiras, o xisto, a cevada/ as ervas de termo, e as colinas./ E, junto da via férrea, os homens do país/ miravam-nos como se fossemos nós e não eles os mortos desta terra,/ homens do medo e do tempo da discórdia/ que trazem para o cimo das estradas/ a malícia que vai apodrecendo/ seus pés neste mundo e em terras de outrém./ Que fazeis do mundo e/ da sua chama imponderável, os homens,/ perdidos que estais, hoje como ontem, entre a casa e o limiar?/ E evocamos, mais uma vez, esse provérbio sessouto./ E, na verdade, porque/ regressaremos,/ após tantos anos, a este tema?/ Será que a morte nos ensinou/ a olhar para o homem com pavoroso êxtase? (João Vário)

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Aqui a velha Pastelaria S. Carlos, no Bairro Santos ao Rego, em new-look, onde se juntavam muitos estudantes cujas famílias não residiam em Lisboa.

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A crise académica de 1962 foi um dos mais importantes acontecimentos políticos do ano. Logo no dia 1 de Janeiro gorara-se uma tentativa de golpe de Estado em Beja; poucas dias antes do Natal as tropas indianas haviam anexado o chamado Estado Português da Índia; e meses antes ocorrera o assalto ao navio Santa Maria por um grupo oposicionista capitaneado por antigo apoiante de Salazar; como, em Angola, se tinham iniciado motins sangrentos. Tais acontecimentos chamaram a atenção do Mundo para este país bucólico e rural.

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A velha pretensão dos alunos em comemorarem o seu Dia do Estudante foi uma vez mais proibida pelo governo, desta vez em Fevereiro. Numerosos estudantes da Universidade Clássica de Lisboa reagiram e ocuparam a cantina universitária. A repressão policial não se fez esperar. Mas os antecedentes desta crise vinham já muito detrás. A promulgação do decreto 40900, em 1956, que visava controlar e espartilhar a actividade das Associações de Estudantes e esvaziar algumas das suas funções, foi um rastilho. Perante as numerosas manifestações de repúdio, a Assembleia Nacional fê-lo baixar à Câmara Corporativa, o que significava um recuo governamenteal. Mas a repressão aumentou: numerosos estudantes foram presos e encerradas várias Associações de Estudantes. A partir daí a vida associativa encontrava-se num vazio legislativo.

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Voltando a 1962: a Academia de Lisboa decide realizar uma greve de protesto, intitulada “Luto Académico”. Mais concentrações e numerosas são as acções repressivas da “Policia de Choque”. O Estádio Universitário é palco de numerosos plenários, mas também noutros locais da Cidade Universitária se discutem os caminhos a seguir. Organizam-se “convívios” que são reuniões mais restrictas e com cariz mais politizado, sem que no entanto houvesse uma corrente predominante e declarada. Lutava-se pela liberdade associativa, desde católicos até jovens que mais tarde militariam em partidos à esquerda. Há tentativas de negociação, mas o Governo é intransigente. Espera que a pressão dos pais e a ameaça da perda do ano por faltas, dissuada os estudantes. Mas pouco efeito surte. Alguns docentes universitários e intelectuais manifestam-se abertamente contra a política governamental, como foi o caso do Prof. Luis Lindley Cintra que chegou a ser agredido pela polícia.

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Às manifestações, o Governo responde com repressão. A data do Dia do Estudante é transferida, mas mesmo com a intercessão de Marcelo Caetano, é impedida. Era a autonomia universitária o que estava em jogo. O Governo pretendia estrangulá-la. O Decreto-Lei 40900 só permitia a tomada de posse dos dirigentes associativos depois de autorização do Ministério, previa a participação de um “delegado permanente do director da escola” em todas as reuniões associativas e dava ao Ministro o poder de substituir as direcções eleitas por “comissões administrativas” nomeadas por ele, suspender o seu funcionamento ou mesmo extingui-las.

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Marcelo Caetano, que sentia a “corporação universitária” ameaçada, demite-se de Reitor e iria manter uma distancia “higiénica” do Governo até à doença de Salazar. Na Universudade prossegue a violência.

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Em Maio um grupo de estudantes inicia uma Greve de Fome nas instalações da Cantina. Pela madrugada do 3º dia a Cantina é cercada pela Polícia de Choque e cerca de 1500 estudantes são presos (lembro-me, como se fosse ontem, também eu, no meio de mais de 85, fiz greve de fome, que apenas durou o tempo de não querermos levantar-nos do sofá, de nos sentirmos fracos, de sermos visitados por Profs. como Lindley Cintra e Barahona Fernandes. À nossa volta muitas centenas de colegas davam-nos protecção. Mas a Polícia impediu a nossa “heroicidade”. Quando nos prenderam, levaram uns para o Quartel da Polícia Móvel e outros para Caxias. Decidiramos que se perguntassem se tinhamos feito greve de fome , o confirmassemos, mas só o fizeram a quem levaram para Caxias. Eu fui para o quartel da Polícia na linha do Estoril…)

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A alguns foram levantados processos disciplinares e irradiados da Universidade. Vários iriam partir para o exílio. O conflito atenua-se até perto dos exames. Mas fora criada ou cimentada uma nova consciência de liberdade. E a contestação académica iria renovar-se e agudizar-se poucos anos depois. 1962 foi o meu ano de caloiro.

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E, em Coimbra como evoluiram os acontecimentos? A Universidade é uma das mais antigas do mundo em actividade. Lógico, que tenha permanecido até hoje o culto pelas suas tradições. Porém, houve alturas em que o modo de introduzir os novos alunos na academia e as regras que lhes eram impostas, (a praxe) compreendiam práticas de humilhação ou mesmo sadismo. O espírito boémio e trauliteiro de muitos dos alunos nada tinha a ver com as ideias libertárias que iam evoluíndo. Passou a ser-se praxista ou anti-praxista.

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As Repúblicas – algumas ainda existentes como esta (Os Galifões), são espaços tradicionais que albergam estudantes do ensino superior e por eles são geridos. Aqui pernoitaram os estudantes que se deslocaram para o I Encontro Nacional de Estudantes, no princípio de Março de 62 e que também a mim me acolheu.

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Porta Férrea – Realizaram-se encontros entre membros das duas academias. As Associações de Estudantes que ainda não tinham sido proibidas e os núcleos que pretendiam recriar as extintas pelo governo (as Pró-Associações) aproximavam-se e atrás das reivindicações de automomia universitária e associativa académicas crescia a consciência política que a repressão policial facilitava. Foi uma lufada de ar fresco.

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Já em 1961, a revista Via Latina, orgão da Associação Académica de Coimbra, publicara um texto Carta a uma Jovem Portuguesa, que deu origem a viva polémica com os jornais mais reaccionáros do regime, que a consideraram ultraje à moral pública. O autor do texto, Marinha de Campos, foi afastado pelo receio da revista ser encerrada. Eis excertos: Vou escrever para ti jovem portuguesa e particularmente para ti, jovem estudante da nossa cidade. Não tenho a fazer a apologia de qualquer tipo de ideal; ensinar-te qualquer doutrina, defender fanaticamente uma moral (…)
A minha liberdade não é igual à tua. Separa-nos um muro alto e espesso, que nem tu nem eu construímos. A nós, rapazes, de viver do lado de cá, onde temos uma ordem social que em relação a vós nos favorece. Para vós, raparigas, o lado de lá desse muro; o mundo inquietante da sombra e da repressão mental (…)
Só nos é permitido atravessar o muro para escolhermos. E eu escolho-te a ti jovem portuguesa (…)
Tu, vítima de todos nós e de ti mesma. Tu, vítima do nosso desejo não concretizado e portanto falseado e iludido (…)

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Café A Brasileira …”Tens a inconsciente e mal definida sensação de que há um sistema social mais forte que tu ou eu e no qual devemos integrar, sob pena de ficarmos sós e desamparados. Há um determinismo social que te oprime e te define (…)
Viver dentro da juventude não se ensina, aprende-se vivendo. E a jovem e o jovem português não vivem dentro dela (…)
Jovem Portuguesa! Dou-te a minha mão e o meu corpo. Sinto os teus dedos, o teu braço. Sinto um corpo jovem junto do meu. Mas não sou um molde; sou um jovem diferente de ti. Um rapaz para quem o amor por ti é a concretização sexual, única diferença nas relações entre o homem e a mulher que devem decorrer no mesmo plano de homem para homem.

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Dos cafés de 1962, muitos desapareceram, transformados em espaços para outras actividades. Os poucos que persistem testemunham a memória dessa época. Antigo Arcádia junto à Brasileira que, como esta, foi vendido para loja de roupa há anos e não voltou ao ramo, como aconteceu com a Brasileira.

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Mandarim, talvez o mais icónico dos cafés da época. O seu ambiente era inesquecível. Coabitavam desde os Jovens de Portugal (organização de cariz fascista que apoiava o Estado Novo) até aos anarquistas e comunistas, sempre sob a vigilancia disfarçada dos Pides… Era um corropio de entradas e saídas. O bitoque, o “Combinado número 5” e o bife à Mandarim ficaram célebres.

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O Café de Santa Cruz que se mantem activo com enorme esforço, para sobreviver e revitalizar a baixa moribunda de Coimbra.

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Lisboa, Café VÁ-VÁ, cruzamento das Avenidas de Roma com a dos Estados Unidos. Nos anos 60 era um ponto de encontro de intelectuais, estudantes universitários, jornalistas e cineastas. Por lá terá nascido o que se chamou o “Cinema Novo”. Fernando Lopes, Cunha Telles, Seixas Santos, Antonio-Pedro Vasconcelos, Paulo Rocha, João César Monteiro, Lauro António eram presenças assíduas. Representou a ruptura gradual do cinema com a degradação que vinha da década anterior.

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Desse tempo, apenas restam os paineis de azulejos de Menez e a saudade. A decadência em que se encontra, entristece. A distinção e classe do café nos anos 60 nada tem a ver com aquilo que é hoje.

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Foi na Tóbis que se iniciou praticamente o cinema sonoro português. Muitas obras do período da comédia portuguesa, centrados na popularidade de actores como Vasco Santana, Antonio Silva ou Beatriz Costa, aqui foram realizados, com particular destaque para a Canção de Lisboa de Cottinelli Telmo. Mas também, o Costa do Castelo, O Leão da Estrela ou O Grande Elias, todos de Arthur Duarte. Eram comédias em que o público se identificava com os protagonistas, filmes que não precisavam de legendas, que contavam histórias simples, por vezes hilariantes e que não faziam pensar, onde a felicidade estava assegurada, sem desassossegos grandes. A vida era um Pátio das cantigas… Foi um período que se estendeu entre os anos 30 e 40. Os Anos Dourados do cinema português.

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Depois, a pouco e pouco , foram-se ensaindo temas mais “patrióticos” ou tentando adaptações de obras literárias importantes. É mais Brum do Canto, António Lopes Ribeiro, Leitão de Barros. Apesar de apoiado pelo governo de Salazar, a produção de filmes diminui, até se chegar ao ano de 1955, conhecido pelo ano zero (não foi estreado qualquer novo filme português).

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Nessa altura, os mais novos iniciaram contactos com o cinema francês e a nouvelle vague. A formação era diferenciada: uns fizeram estágios ou trabalharam com realizadores importantes como Renoir; outros provieram da crítica, da fotografia e dos cineclubes; outros com concepções novas não só de realização como da produção. Pretendiam aproximar-se do “cinema de autor”, abordar a vida dos seres humanos, os seus conflitos, abandonar o folclore de bairro típico do cinema anterior. Manoel de Oliveira, desde Aniki-bobó tinha sido a única excepção, e que se manteria até hoje, a realizar tranquilamente a sua obra. D. Roberto de Ernesto de Sousa e Os Verdes Anos de Paulo Rocha, devem ter sido os primeiros filmes desta ruptura.

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O Cinema Novo muito deve a  Cunha Telles. A sua actividade desdobrou-se entre realizador e produtor, além de se ter envolvido noutros projectos sempre ligados ao cinema. Para começar frequentou uma escola de cinema em Paris (IDHEC). Depois, foi produtor de Os Verdes Anos (1963) de Paulo Rocha e Belarmino (1964) de Fernando Lopes, fracassos financeiros que o arruinaram. Em algumas salas, o público, habituado às fórmulas tradicionais das fitas portuguesas chegou a exigir de volta o dinheiro dos bilhetes, partiu cadeiras, etc. Cunha Telles não desistiu. Realiza vários filmes, como o Cerco em 1970 e funda uma distribuidora que passa pela primeira vez em Portugal realizadores, como Eisenstein ou Bertolucci. Ao novo cinema aderem os jovens universitários, gente do reviralho, público mais culto.

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O Cerco de Antonio Cunha Teles, já de 1970, consagraria Maria Cabral, a quem foram atribuídos vários prémios e que seria considerada um símbolo do Cinema Novo. Cerco estará presente na Quinzena de Realizadores do Festival de Cannes de 1970 e será o grande sucesso do Novo Cinema. A principal importancia destes filmes foi o facto de, exibidos em festivais internacionais, serem reconhecidos e alguns premiados, criarem curiosidade, depois interesse, público e apoios.

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Fernando Lopes é outro dos realizadores responsáveis por este cinema novo. Vem dos cineclubes, frequenta a London Film School, como bolseiro e torna-se realizador. Em 1964 filma Belarmino, baseado na vida daquele que foi um grande pugilista. Faz também Uma Abelha na Chuva (1971) e O Delfim (2002), que são as suas obras mais significativas. Durante vários anos foi Director do 2º canal da RTP, que conheceu uma fase de excelente programação: “O canal do Lopes”). “Não concebo o meu cinema de outra maneira que não essa da permanente viagem ao coração das trevas que cada um de nós tem em si.” …“O que há de fabuloso no cinema é aquilo que magicamente passa para cá do ecrã. Ou seja, de como esse sonho nos vem habitar e de como o habitamos.”

Lopes em jeito de auto-biografia: “Que é o cinema mais do que o box não me dizes? Também no cinema não se janta nada, mas nem por isso somos infelizes” …”Campeões com jeito é nossa vocação , nosso trejeito. Retrato final (genérico de fim). Bebi demais (não me arrependo). Fumo demais (nao me arrependo). Comovo-me demais (não me arrependo). Sou um erro sociológico.

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António-Pedro Vasconcelos considerou “Belarmino”, como “o melhor filme feito em Portugal e em qualquer parte sobre uma personagem“.

Como Fernando Lopes conheceu o pugilista: Conheço o Belarmino em 61/62, acabava de chegar de Londres. Tinha feito a primeira curta-metragem, «As pedras e o tempo», que, de certo modo, é um prenúncio de um novo cinema português. Na altura já trabalhava na RTP como realizador. O grupo da RTP parava muito Ribadouro e no Parque Mayer. A noite acabava às seis da manhã. Uma noite vou com o (Baptista) Bastos ao Clube dos Artistas beber mais um copo. O guarda-costas, o Leão de Pedra como se chamava, era o Belarmino, que eu sabia que tinha sido um grande boxeur mas que já não combatia… Achei que ele tinha um físico de John Garfield! E que se mexia como os portugueses não sabiam mexer. Passado pouco tempo, sai no «Diário de Lisboa» uma pequena notícia sobre um combate falso que o Belarmino tinha feito em Inglaterra, em que tinha sido pago para perder. Apanhei a notícia e disse ao Bastos «Temos de pegar nisto. Isto é um filme»….Nessa altura já não era segurança, andava a engraxar sapatos na Baixa. Fui ter com ele e disse-lhe «Quero fazer um filme contigo»

Mas outros falam de Belarmino. O meu amigo Sebastião, dono do Bonaparte de que falarei adiante, recorda: Conhecia o Belarmino. Tratava-me por Padrinho. Quando regressei de Paris, encontrei-o a engraxar sapatos ao pé do Condes. Perguntei-lhe: – Então, o que fazes agora? – Sou artista de cinema! – Mas, e estás a engraxar sapatos?! –É que estou teso e preciso de ganhar umas coroas…

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Estes são realizadores e obras importantes do Cinema Novo. O que trouxeram, foi uma visão inédita sobre a vida das pessoas e da sociedade no tempo do Estado Novo. Influências do Neo-realismo e da Nouvelle Vague, sobretudo. João César Monteiro foi outro realizador vanguardista: Quem espera por sapatos de defunto morre descalço ou Recordações da Casa amarela, filmes fundamentais. Mas é longa a lista de realizadores a que este café está ligado. Hoje, o que resta são os painéis de azulejos de Menez, mal tratados, desprezados.

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Vá-Vá foi o berço do Cinema Novo português. Ou o Ninho dos lacraus, como lhe chamavam na década de 60. Dirigentes associativos, jovens – eles e elas, que liam a Cartilha do Marialva do Cardoso Pires ou O 2º Sexo da Simone de Beauvoir e despontavam para maior liberdade sexual e questionavam os dogmas da moral hipócrita do regime. E mais uns livros proibidos, comprados clandestinamente a livreiros de confiança… Mas também homens do jazz e os jovens que começavam a fazer uma nova música, arredando-se do nacional-cançonetismo, também por lá moraram. Outros cafés das Avenidas Novas foram centros de tertúlia, como o Nova York (hoje balcão de um Banco), onde pontificava o Eduardo Prado Coelho ou a Suprema.

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Pergunto ao vento que passa/ notícias do meu país/ e o vento cala a desgraça/ o vento nada me diz./ o vento nada me diz//. Pergunto aos rios que levam/ tanto sonho à flor das águas/ e os rios não me sossegam/ levam sonhos deixam mágoas// Levam sonhos deixam mágoas/ ai rios do meu país/ minha pátria à flor das águas/ para onde vais? Ninguém diz.// Se o verde trevo desfolhas/ pede notícias e diz/ ao trevo de quatro folhas/ que morro por meu país//.Pergunto à gente que passa/ por que vai de olhos no chão/ Silêncio — é tudo o que tem/  quem vive na servidão// Vi florir os verdes ramos/ direitos e ao céu voltados./ E a quem gosta de ter amos/ vi sempre os ombros curvados// E o vento não me diz nada  ninguém diz nada de novo./  Vi minha pátria pregada/ nos braços em cruz do povo//…

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Vi minha pátria na margem/  dos rios que vão pró mar/ como quem ama a viagem/ mas tem sempre de ficar./ Vi navios a partir/ (minha pátria à flor das águas)/ vi minha pátria florir/  (verdes folhas verdes mágoas)//Há quem te queira ignorada/ e fale pátria em teu nome./ Eu vi-te crucificada/ nos braços negros da fome.// E o vento não me diz nada/ só o silêncio persiste./ Vi minha pátria parada/ à beira de um rio triste// …Ninguém diz nada de novo/  se notícias vou pedindo/ nas mãos vazias do povo/  vi minha pátria florindo// E a noite cresce por dentro/ dos homens do meu país./ Peço notícias ao vento/ e o vento nada me diz// Quatro folhas tem o trevo/ liberdade quatro sílabas./ Não sabem ler é verdade/ aqueles pra quem eu escrevo.// Mas há sempre uma candeia/ dentro da própria desgraça/ há sempre alguém que semeia/ canções no vento que passa// Mesmo na noite mais triste/ em tempo de servidão/ há sempre alguém que resiste/ há sempre alguém que diz não. (Manuel Alegre)

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Em Alfama havia na década de 70 um bar/restaurante na Rua de S. Miguel, que foi para mim um verdadeiro observatório dos anos de brasa, que antecederam o Golpe Militar de 25 de Abril e a revolução que se seguiu. Se antes, pouco o frequentei por ter estado na guerra, depois do Verão de 73, passei a assíduo cliente. O dono era um homem entroncado, de estatura meã, tipo Lino Ventura, que vivera muitos anos em Paris. Lá comi pela primeira vez cous-cous e einsbein. E aprendi a gostar de música francesa, Serge Réggiani, Leo Férré, Serge Lama… Chamava-se Bonaparte e o patrão – Sebastião. “Careca“, para os amigos. Um dos meus filhos, chegou a lá ir ainda dentro da alcofa.

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Aí aparecia gente de toda a esquerda. Desde revolucionários que militariam na UDP, MRPP, BR, LUAR, a mais ortodoxos do PCP ou do PS, quando este se reclamava partido marxista. Outros ignorava-lhes a inclinação. Ao interior acedia-se por uma espécie de ponte sobre um minúsculo riacho. Uma outra zona tinha um primeiro andar protegido por umas ameias que resguardavam intimidades ocasionais de olhares indiscretos. Na noite do assalto à Embaixada de Espanha, lembro-me de ter visto entrar um pequeno grupo com ar “ganzado”. Uma jovem repetia perseverantemente “queimar, matar“. Felizmente, ninguém foi morto, mas o episódio deixou marcas de preocupação entre muita gente. A Guerra Civil esteve à porta.

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Por lá apareciam também cantores de intervenção. De alguns me lembro, como o Adriano Correia de Oliveira ou o Vitorino. Como de militares, como Aventino Teixeira, que conhecera na Cantina, quando, Capitão da Administração Militar quiz fazer o curso de Direito. Aventino, homem inteligente, brilhante, culto, irreverente.

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O Sebastião, nascido em Alfama (Largo do Chafariz de dentro), foi um amigo para a vida. Como pouca gente, era de uma generosidade e disponibilidade incomparáveis. Os verdadeiros amigos são raros.

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Alfama hoje está diferente, mas talvez conserve o essencial. Para mim, a memória do PREC e de alguns outros lugares. Como a Guitarra de Alfama (do Alexandre), onde na minha época de estudante recitava poesia, acompanhado à guitarra e viola.

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O Procópio é um bar emblemático de Lisboa. Abriu em 1972, meses antes do aparecimento do Expresso, curiosamente coincidentes na “Primavera marcelista” ou já no desencanto de quem esperara por uma abertura do regime político. Situado junto ao Jardim das Amoreiras, perto da Fundação Arpad Szenes-Maria Helena Vieira da Silva. O seu acesso faz-se por uma pequena escadaria de pedra no alto da qual um chafariz centenário parece dar as boas vindas.

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Terei lá entrado pela primeira vez em Dezembro do ano da inauguração. A decoração Arte Nova conserva-se até hoje, agora enriquecida por quadros, utensílios, caricaturas de gente notável que por ali passou. Hoje há uma mistura de gerações, os mais novos talvez trazidos pelos mais velhos, mas que aqui encontram o ambiente que a todos seduz.

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De artistas como Malangatana Valente, José Fonseca e Costa a políticos como Medeiros Ferreira ou militares como Aventino Teixeira. Lembro-me de ficar fascinado a ver no balcão um pato em vidro cheio de gás com uma densidade diferente que oscilava cada vez mais perto de um recipiente com água, onde mergulhava o bico, para logo girar, atirado para trás e os movimentos se repetirem incessantemente.

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A frequência actual não difere muito da da década de 70, novos e velhos. Mas a seguir a 74 e no período revolucionário até final do ano seguinte, a política, a discussão sem mordaça, a tudo aqui se assistia. O segredo do bar e da sua longevidade – nem novo nem velho – clássico, não só na decoração, como no acolhimento. Mérito dos donos e do profissionalismo que quem nos recebe.

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Recomendados:

http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/

http://memoria-africa.ua.pt/Library/JoaoVario.aspx

http://www.redejudiariasportugal.com/images/livros/refugiadosdaiiguerra.pdf

http://www.cinemateca.pt/CinematecaSite/media/Documentos/Fernando-Lopes-Profissao-Cineasta.pdf

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Os autores agradecem a colaboração de Francisco Vaz Garcia, Pedro Tomé, Karim Sima e Maria José Carrapa