Sintra, o musgo e as sombras

Sintra conserva ruínas e outros vestígios com origem desde a Pré-história. A época de maior riqueza situa-se no final do séc. XVIII e durante todo o século seguinte. Aristocratas cultos, escritores e músicos, portugueses e estrangeiros, aqui se instalaram, seduzidos pelo ambiente mágico das paisagens, e construíram palácios, jardins, chalets, quintas, naquilo que hoje é considerado Património Cultural da Humanidade. Chamam-lhe Vila Romântica. Realmente, a zona histórica não só pelos seus edifícios como pelas paisagens em que estão inseridos são gatilhos para emoções e sonhos – o imaginário romântico.

Os monumentos foram edificados em estilos diferentes e apresentam em comum a recriação de estilos históricos. Elementos neo-góticos, neo-manuelinos, mas também hindus, maometanos, árabes, deram origem a conjuntos exóticos e diversificados. No Palácio da Regaleira o estilo neo-manuelino evoca a grandeza da Pátria, nomeadamente os Descobrimentos marítimos, mas em numerosos recantos, torreões, escadarias descendo às profundezas e em numerosas criptas estão presentes símbolos do Além, do oculto, do transcendente, mesmo de inspiração cristã. Em Monserrate existem elementos de raiz gótica nas fachadas, portas e janelas, coexistindo com cúpulas, cornijas, minaretes, arcos e azulejos de matrizes orientais.

Talvez o Outono seja a estação rainha em Sintra, não porque dure mais, mas apenas porque representa a despedida do Verão caduco que deixa o chão pejado de folhas e ao mesmo tempo antecipa a desolação do frio. O Outono faz o balanço estival e o anúncio do Inverno. Áparte isso, acrescenta melancolia aos muros e às pessoas. Ao deambular pelos caminhos estreitos, a luz côa-se entre as folhas das árvores e desenha sombras sobre o musgo que certifica a humidade.

As árvores ligam as pessoas aos lugares. Algumas pela sua imponência são consideradas de interesse público, como é o caso dum sobreiro defronte do Palácio da Regaleira ou de um castanheiro com mais de quinhentos anos, próximo do centro da Vila. Mas toda a paisagem de Sintra é feita de vegetação luxuriante. Plátanos, tílias, faias, acácias, carvalhos, cedros, eucaliptos estão espalhados pela região.

Têm sido expeditamente amputados ou mesmo abatidos plátanos no Largo de S. Pedro ou em Colares, supostamente por razões fitossanitárias. O resultado das podas são espantalhos envergonhados, donde até os pássaros desertam, não por pavor, mas apenas porque as árvores, simples cotos grotescos, deixam de ser albergue. É preciso que todas as intervenções tenham a supervisão de especialistas em arboricultura. As árvores como os edifícios são património cultural e artístico.

Nos miradouros a luz e a imperceptível aragem traçam pinceladas de verdes e castanhos, que se modificam a cada momento, telas de Degas ou Monet, impressionismo dos nossos olhos, nas emoções duma tarde em que o sol, de repente, se desvenda.
Seguimos na estrada que vai de Sintra, direitos a Colares. Os plátanos de ambos os lados esboçam um túnel dourado. Os carris dos eléctricos, meio cobertos pelas folhas outonais, seguem paralelos ao asfalto.

Mesmo no Verão, o sol nem sempre dissipa o nevoeiro. As águas são frias. Na Praia das Maçãs há famílias estacionadas sob toldos coloridos, que o banheiro aluga à época. Nos restaurantes os lavagantes de pinças em riste capitaneiam esquadrões de sapateiras, ostras, navalheiras; no interior, as lagostas aguardam a transferência do aquário para o tacho.

No café da Várzea de Colares lê-se o jornal, cavaqueia-se, há travesseiros e queijadas. Ao lado passa um riacho, nascido no Lourel, a caminho da foz próxima e baptizado Rio das Maçãs. Da margem atiram comida a um bando de patos, talvez na expectativa duma improvável metamorfose em cisnes. Mas, eis que Lohengrin voga no Rio das Maçãs! Os castelos da Baviera estão próximos.

FM

 

 

Sintra e o seu Palácio da Vila, numa aguarela de Roque Gameiro. O Palácio com as suas duas chaminés é o ex-libris da Vila.

“Já a vista, pouco e pouco, se desterra /Daqueles pátrios montes, que ficavam; /Ficava o caro Tejo e a fresca serra de Sintra, /e nela os olhos se alongavam /Ficava-nos também na amada terra /O coração, que as mágoas lá deixavam; /E, já despois que toda se escondeu, /Não vimos mais, enfim, que mar e céu.” Camões/Lusíadas (Canto V)

Vista da Peninha. Num dia de boa visibilidade observa-se desde o Cabo Espichel até às Berlengas. É uma vista obtida de um palacete construído no início do séc. passado, próximo de uma ermida, por sua vez eregida sobre as ruínas de S. Saturnino.

Sintra é uma vila que apesar da sua extensão e demografia, se tem recusado à categoria de cidade. É sede de um município que ocupa uma área de 317 km² com 445 872 habitantes (2008), subdividido em 20 freguesias.

Entre elas incui-se o Centro Histórico daquilo que é considerado a vila romântica. Palácios, castelos, quintas, jardins, chalets, fazem parte do Centro Histórico, classificado em 1995 pela UNESCO como Património da Humanidade na categoria de Paisagem Cultural

Deste Centro Histórico fazem parte a designada Vila Velha, a Quinta da Regaleira, o Palácio Nacional de Sintra, o Palácio Nacional da Pena e o Palácio de Seteais

A Vila Velha foi construída numa zona de grande declive, no sopé da Serra, entre o Palácio Nacional e a própria Serra, cujo coração é a praça adjacente ao Palácio, donde irradiam as vias para o restante Centro Histórico. Esplanadas, pastelarias, antiquários envolvem a Praça. Pequenos autocarros conduzem os visitantes aos locais turísticos.

Os edifícios obedecem à mesma volumetria, o que dá à zona um aspecto harmonioso. Apesar dos cartazes de publicidade e toldos que nada têm a ver com o estilo arquitectónico dos imóveis, o conjunto é equilibrado.

À medida que nos afastamos da praça e caminhamos em direção à periferia, vão surgindo habitações mais espaçosas, resguardadas por muros cobertos de musgo e fetos e algum arvoredo.

“Sintra é um aquário, Joana, o fundo do mar povoado de casas antigas imersas na ondulação do nevoeiro, em que peixes côr-de-rosa e azuis flutuam por entre as cómodas, os retratos, o perfil geométrico dos armários, balindo suavemente como um rebanho de ovelhas, fusiformas, de longas pestanas trémulas e atentas…

…A luz não vem do sol mas das árvores, oblíqua e imóvel, uma claridade que se diria nascer dos nossos próprios ossos, dos nossos próprios dentes, dos nossos cabelos, dos nossos gestos, das palavras que dizemos, e se espelha em círculos concêntricos no ar, rodopiando e vibrando, à maneira de uma folha enorme” Antonio Lobo Antunes/ Conhecimento do inferno

Casa do Cipreste, da autoria de Raul Lino (1879-1974). Referência incontornável da arquitectura portuguesa, projectou vários edifícios notáveis em Sintra. A influência que a paisagem exerceu na sua obra, bem como a importância do seu estilo, nem uma nem outra podem ser omitidas. Defendia que a arte e a arquitectura são um produto do homem e para os homens, com história, genealogia, características e funcionalidades próprias do espaço e do tempo em que se inserem e da comunidade para que são produzidas. Deixou importante produção teórica

“A paisagem de Sintra, quer pela sua estrutura, quer pelo seu significado, representa claramente o arquétipo da paisagem romântica. É um lugar onde se sentem intensamente as forças naturais, aparecendo como um terreno descontínuo, de relevo muito variado, onde o céu nunca se vê num hemisfério total, com grandes variações de luz e sombra e uma vegetação que funciona como diferentes filtros do olhar.”…

…”Ao mesmo tempo Sintra, está recheada de monumentos históricos, dados arqueológicos e ruínas. Tudo isto lhe confere uma aura de maravilhoso encantamento e de mistério que vai expressivamente ao encontro do que de mais íntimo e e constante caracterizava o espírito do arquitecto (Raúl Lino)” Irene Ribeiro

As ruas são estreitas e quase sem bermas. A atmosfera é húmida, adensada pelas sombras das árvores, pelas neblinas frequentes. Os contrastes verdes e castanhos constituem cenários mágicos

Porém, quando nos afastamos da Vila Velha, deparamos com edifícios degradados a requererem urgente reabilitação. Não se fala de ruínas, mas de edifícios deixados ao abandono, seja por incúria dos proprietários ou entraves judiciais.

Palácio da Vila: vista da entrada principal.

O Palácio da Vila começou a ser construído no século XV, com traça de autor desconhecido. Apresenta características de arquitectura medieval, gótica, manuelina, renascentista e romântica. É composto por um conjunto de corpos aparentemente separados, mas que fazem parte de um todo articulado entre si, através de corredores, escadas, pátios e galerias.

Até ao final da monarquia foi utilizado pela Família Real

Janela manuelina. A D. Manuel I se devem obras importantes no Palácio da Vila

Sala dos Brasões no Palácio Nacional de Sintra

Torre da Câmara Municipal. Este é outro edifício emblemático.

Na Estefânia de Sintra

O Palácio da Pena foi construído no Séc. XIX, cerca de 30 anos antes do célebre Castelo de Neuschwanstein, este edificado por Ludwig da Baviera e inspirado na obra de Wagner. O Palácio português é considerado o 1º Palácio Romântico da Europa e uma das sete maravilhas de Portugal

O Palácio não foi construído de raiz. No Terramoto de 1755, um velho mosteiro erigido no tempo de D. Manuel que aí existia, caiu em ruínas, à excepção da Capela. D. Fernando de Saxe Coburgo-Gota, casado com a Rainha Maria II., era um homem culto e erudito, apaixonado pela paisagem da serra de Sintra, e em 1838 mandou realizar obras de reconstrução do mosteiro.

Dois anos depois, D. Fernando decidiu ampliar o Convento, de modo a transformá-lo em castelo, que pudesse albergar a família real. O projeto foi encomendado a Guilherme von Eschwege, mineralogista prussiano e amador de arquitetura. Homem viajado fizera viagens de estudo em Inglaterra e França, Argélia e Espanha (Córdova, Sevilha e Granada). Não é, pois de estranhar, a profusão de elementos decorativos de inspiração árabe.

Mas, o próprio Rei interveio diretamente no projeto, introduzindo arcos ogivais e torres de inspiração medieval. Na fachada norte foi incluída uma imitação do Capítulo do Convento de Cristo em Tomar, desenhada por ele-próprio.

Janela do Tritão, que encabeça o pórtico do mesmo nome. Tritão: meio-peixe, meio-homem, saindo de uma concha com a cabeça coberta por cabelos que se transformam num tronco de videira. Foi desenhado por D. Fernando como um «Pórtico allegórico da creação do mundo»

D. Fernando II sempre se interessou mais pelas manifestações artísticas do que pela política, o que lhe valeu o cognome de Rei-Artista. Por diversas ocasiões foi regente do reino, nos impedimentos da Rainha. Casou, após a morte de D.Maria II, com uma cantora de ópera e mãe solteira, a quem deixou como herança o Palácio da Pena.

Depois da morte de D. Fernando verificou-se uma disputa pela posse do palácio – que se fora propriedade do monarca,tinha sido considerado monumento nacional. Passado a património do Estado tornou-se local de veraneio da família real, até ao fim da Monarquia.

Foi também D. Fernando quem mandou plantar o parque que circunda o castelo. Carvalhos, pinheiros mansos, ciprestes, acácias e muitas outras espécies avivam-lhe o caráter romântico. Palácio e parque constituem um todo magnífico no cume da serra. Terá sido dos seus aposentos que a rainha D. Amélia, viúva de D. Carlos, assistiu aos desenvolvimentos militares em Lisboa, que conduziram à proclamação da República

O Palácio patenteia grande profusão de estilos que recriam gótico, manuelino, islâmico e outras influencias orientais. Esta diversidade estilística tem a ver com a mentalidade da época de fascínio pelo exotismo.

“Eu creio que Sintra pertence áquela classe de valores míticos de primeira grandeza do nosso firmamento espiritual, cujo culto é fervorosamente exercido por uma pequeníssima confraria de apaixonados…” (Raúl Lino)

Este hotel de “fachada banal” como o definiu Eça, é um local que acolheu outros nomes grandes da literatura, como Alexandre Herculano, Camilo Castelo-Branco, Ramalho Ortigão, além de estrangeiros como Lord Byron. Procurariam aqui, na proximidade das sombras, do silêncio, dos cenários deslumbrantes, as condições para que a escrita melhor fluísse.

“Sempre gostara muito de Sintra! Logo ao entrar, os arvoredos escuros e murmurosos do Ramalhão lhe davam uma melancolia feliz!” Eça de Queiroz / Primo Basílio

“Chegaram às primeiras casas de Sintra, havia lá verduras na estrada, e batia-lhes no rosto o primeiro sopro forte e fresco da Serra./ E a passo o break foi penetrando sob as árvores do Ramalhão. Com a paz das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco uma lenta e embaladora sussurração de ramagens, e como o difuso e vago murmúrio de águas correntes…

…Os muros estavam cobertos de heras e musgos: através da folhagem faiscavam longas flechas de sol. Um ar subtil e aveludado circulava rescendendo às verduras novas; aqui e além, nos ramos mais sombrios, pássaros chilreavam de leve; e naquele simples bocado de estrada, todo salpicado de manchas do sol, sentia-se já sem ver, a religiosa solenidade dos espessos arvoredos, a frescura distante das nascentes vivas, a tristeza que cai das penedias e o repouso fidalgo das quintas de verão” Eça de Queiroz /Os Maias

Palácio de Seteais. Começou a ser construído como casa de habitação no final do Séc. XVIII, por iniciativa de Daniel Gildemeester, cônsul da Holanda em Portugal, nuns terrenos de «ginjais e serrados» que possuiam uma vista paradisíaca. Na época apenas foi edificada a ala esquerda e algumas dependências anexas, do que é hoje o Palácio de Seteais.

Em 1800, a Quinta de Seteais foi adquirida pelo Marquês de Marialva, o qual acrescentou uma nova ala de aposentos e uniu os dois corpos por um magnífico arco triunfal. Este evoca a visita de D. João VI, então Príncipe Regente, e de D Carlota Joaquina. É um edifício imponente em estilo neo-clássico

Pormenor do Jardim de buxo do Palácio

Das lendas associadas a Seteais duas delas remontam ao tempo de Afonso Henriques, à conquista de Lisboa aos mouros e à rendição de Sintra. A palavra Seteais resultaria dos sete gemidos de uma bela princesa moura, sobre a qual pendia a maldição de morrer no dia em que deixasse escapar os fatídicos sete ais. As outras personagens são um cavaleiro cristão D. Mendo e a velha ama da princesa. As circunstancias são diferentes, mas em ambas, na ausência do cavaleiro, os mouros que voltavam (ou o antigo noivo da princesa, a qual se apaixonara pelo cavaleiro cristão) já quando a princesa suspirara várias vezes, perante a adaga que lhe assomava ao pescoço, expirou, ao soltar o sétimo ai.

Outra lenda, relatada por Camilo Castelo-Branco, tem a ver com o armistício assinado por Junot, depois da 1ª invasão e das batalhas de Roliça e Vimeiro, perdidas pelos franceses. Segundo uns, a chamada Convenção de Sintra teria sido firmada em Queluz, mas outros indicam o Palácio do Marquês de Marialva, no edifício que nos ocupa.

Dadas as características do terreno, as vozes ecoavam repetidamente e, depois da assinatura, o vozear dos oficiais em Hurras ou ais, originara os sete…ais. (Mas, a quem pertenceriam os ais? Possivelmente aos portugueses, impedidos de participar na negociação entre os plenipotenciários ingleses e franceses, que permitiu a estes últimos, depois de militarmente derrotados pelas forças anglo-lusas, regressar a França com um enorme espólio de bens e obras valiosas roubadas, sob a protecção e transporte das forças inglesas!… A Convenção legalizou o saque praticado pelos invasores.) 

O Castelo dos Mouros foi erguido sobre um maciço rochoso num dos cumes da serra. Do alto das suas muralhas desfruta-se uma vista privilegiada com o Oceano Atlântico em fundo. A sua fundação deverá ter ocorrido no Séc IX, durante a ocupação muçulmana da Península Ibérica. Julga-se não ter sido palco de qualquer batalha, pois tanto cristãos como muçulmanos se rendiam, logo que Lisboa era conquistada

O destino de Sintra esteve, pois, sempre associado ao de Lisboa. Após várias vicissitudes, o castelo foi tomado pelas forças de D. Afonso Henriques em 1147. O rei mandou proceder a reparações nas suas defesas e dotou-a de um templo, a Igreja de São Pedro de Penaferrim. Idênticas preocupações militares tiveram os seus sucessores, muito embora o Palácio Nacional de Sintra, passasse a desempenhar papel preponderante, relegando o castelo para lugar subalterno.

Este entrou, assim, em decadência, principalmente após a expulsão dos judeus do país, então seus únicos habitantes, ficando o castelo desabitado. A queda de um raio causou-lhe danos à Torre de Menagem (1636), os quais se agravaram como consequência do terramoto de 1755.

As ruínas do Convento dos Capuchos, originalmente chamado Convento da Santa Cruz, são outro ponto de interesse histórico na serra de Sintra. O convento foi fundado por D. Álvaro de Castro, filho do vice-rei da Índia D. João de Castro, no ano de 1560, que tê-lo-á mandado construir para satisfazer um voto de seu pai, que não viveu o suficiente para o cumprir.

Foi habitado por frades franciscanos. Ocupa uma área reduzida e os seus habitantes viviam em ambiente de grande desapego e pobreza. Conta-se que D.Filipe I de Portugal ao visitar o convento, em 1581, terá comentado : “De todos os meus reinos, há dois lugares que muito estimo, o Escorial por tão rico e o Convento de Santa Cruz por tão pobre”. A abolição das Ordens Monásticas, determinada pela vitória dos liberais, obrigou os franciscanos a abandonar o convento. Este encontra-se hoje em avançado estado de degradação

“Praia das Maçãs 21.Setembro.1981. – A Regina e eu fomos depois do almoço à Praia das Maçãs tomar o café e olhar o mar. Praia quase deserta A armação de algumas barracas agrupadas a um lado. Os panos listrados de azul já arrumados. Um ou outro banhista ainda despido por exemplarismo ou falta de resignação. O mar com uma cor já fria de inverno e muito batido de espuma da ondulação. Sentamo-nos na esplanada do café, ao sol!” Vergílio Ferreira

“A Praia das Maçãs , a seguir, ao Banzão, é um aglomerado de vivendas leprosas empoleiradas sobre o mar furibundo, raivoso de dor de dentes e de azia, a bater em vão contra a muralha como uma porta para sempre fechada…

…Conhecem-se os lojistas pelas alcunhas e os veraneantes pelos roupões que ano após ano se desbotam do mesmo modo que os olhos envelhecem, e adejam de café em café, no nevooeiro perpétuo, numa leveza transida de aparições.” Antonio Lobo Antunes/ Conhecimento do Inferno…

O eléctrico de Colares à Praia das Maças. As folhas testemunham o Outono

Os vinhos de Colares correm risco de desaparecer. A grande pressão imobiliária reduz as zonas de cultivo. Os solos são de areia e a casta plantada –Ramisco precisa de terreno argiloso, que se encontra a alguns metros de profundidade. É preciso escavar e, por outro lado, proteger as vinhas do vento atlântico. É um vinho que dá muito trabalho, é caro e de baixa produtividade

“Depois de Colares os adeuses tornavam-se impossíveis por culpa do nevoeiro: percebiam-se a custo telhados de chalés e cumes vagos de pinheiros uma bruma desfocada, o mar invisível chiava um mecanismo ferrugento de berço, alcançávamos ao anoitecer uma vivenda desconhecida e húmida, cercada de arbustos horrivelmente tristes que as ondas se esqueceram de levar, adormecíamos em cobertores molhados”…

“…a ronca do farol a baralhar-nos os sonhos, e no dia seguinte, às nove da madrugada, a nossa mãe, em roupão, vinha ao convés do jardim observar o nevoeiro com um sobrolho de almirante garantia: -levanta à uma.” António Lobo Antunes /Crónicas

Cabo da Roca “aqui onde a terra se acaba e o mar começa” (Camões) 1.Julho.1979 – Hoje acordámos sob um grande nevoeiro. É raro um nevoeiro cá em cima. Os pinheiros da mata apagam-se dentro da neblina, ouve-se ao longe, no Cabo da Roca, a “ronca” de aviso à navegação. Não há vento, os pinheiros imobilizam-se na névoa como espectros. Silêncio. Nem uma ave se ouve. E irresistivelmente lembro- me de um mundo nos começos da génese, antes de um ser vivo surgir à sua face. E então, mais evidente, assola-me o absurdo de um universo sem razão, sem sequer um ser pensante que o fizesse existir.” Vergílio Ferreira

Oh! Sintra! Oh saudosíssimo retiro/ Onde se esquecem mágoas, onde folga/ De se olvidar no seio à natureza/ Pensamentos que embala adormecido /O sussurro das folhas c´o murmúrio/ Das despenhadas linfas misturado (Almeida Garrett)

O Palácio de Monserrate na sua traça actual foi projectado pelo Arquitecto James Knowles e construído em 1858, por encomenda de um rico comerciante e colecionador de arte britânico (Sir Francis Cook), para residência de Verão. Erguido sobre as ruínas duma mansão neo-gótica edificada por outro comerciante inglês, Gerard de Visme. Também aqui viveu William Beckford que realizou obras no palácio.

Interior do Palácio de Monserrate, presentemente em obras de restauro

Ruínas da Capela do Parque de Monserrate. Mais de duas mil e quinhentas espécies de plantas, provenientes dos cinco continentes encontram-se distribuídas pela área do parque, por entre lagos, pequenas cascatas, ruínas, caminhos sinuosos, recantos que proporcionam cenários deslumbrantes.

Plantas vulgares em Portugal, como medronheiros ou sobreiros, contrastam com yucas e palmeiras evocando o México (existe mesmo um jardim com esse nome) ou redodendros e bambus, próprios do Japão.

O resultado é um espaço exótico, fascinante, próprio da concepção romântica dos jardins.

Alfredo Roque Gameiro, talvez o mais importante aguarelista português, viveu entre 1883 a 1886. Aluno de Bordalo Pinheiro, estudou em Leipzig, ganhou a medalha de ouro da Exposição Universal de 1900, em Paris. No que se refere a Sintra, destaque para paisagens da Praia das Maçãs, Praia Grande, Colares, Quinta de Monserrate, Almoçageme (na figura) e o Palácio da Vila.

As Azenhas do Mar, aguarela de Helena Roque Gameiro (1895-1984), filha de Alfredo

Cinco Artistas em Sintra, é um óleo sobre tela da autoria de João Cristino da Silva, realizado propositadamente para a Exposição Universal de 1855. Foi comprada pelo Rei D. Fernando II e actualmente faz parte do espólio do Museu do Chiado. No quadro o pintor representava-se a si próprio e a amigos, os pintores José Rodrigues, Francisco Metrass e Tomás da Anunciação e o escultor Victor Bastos, que com ele se batiam pela introdução de novas práticas no ensino da Academia de Belas-Artes

Azenhas do Mar 3.Setembro.1982 – Mas de toda a nossa tarde na casa das Azenhas sobre o mar, foi o mar que uma vez mais me deslumbrou de fascinação. Havia sol, as águas alargavam-se até a um horizonte de neblina, as ondas quebravam num rolar manso e dormente sobre a breve areia da praia. Cerro os olhos ainda agora, ao cintilar da planura, ao largo rumor marinho, todo aberto ao seu aceno de infinitude” Vergílio Ferreira

A Quinta da Regaleira é um lugar mágico. Nela coexistem edifícios de diversos estilos, nomeadamente gótico, manuelino e renascença. Entre eles, particular destaque para o Palácio. O conjunto aparece plantado no meio de vegetação luxuriante.

O Palácio foi mandado construir no início do Séc. XX por António Augusto Carvalho Monteiro, homem rico e culto que procurou naquele espaço glorificar a história de Portugal e, simultaneamente, criar um ambiente esotérico. Os edifícios são de autoria do arquitecto-cenógrafo italiano Luigi Manini.

O resultado foi este cenário deslumbrante de mistério, exotismo e serenidade, propícios a uma certa espiritualidade. A diversidade da quinta da Regaleira é enriquecida com vastíssima iconografia referente aos reis portugueses nos frisos, como também com o imaginário maçónico, no teto pintado da Sala das Virtudes, onde se encontram as personificações da Força, da Beleza e da Sabedoria.

Muitos símbolos evocam o divino, o transcendente e o invisível. A passagem da dimensão terrena à divina por meio de rituais de carácter mágico, nos quais o neófito é iniciado e aceita a filiação no grupo de companheiros.

O poço. Acredita-se que a Regaleira tivesse sido sede de rituais de iniciação maçónica. O Palácio está ligado por várias galerias ou túneis a outros pontos da quinta. O acesso ao fundo do poço é feito por uma escadaria em espiral, sustentada por colunas esculpidas. A escadaria é constituída por nove patamares separados por lanços de 15 degraus cada um.

Mas não são só os símbolos maçónicos que estão patentes na Regaleira. A cruz templária no fundo do poço iniciático, a cruz da Ordem de Cristo bem como todas as outras cruzes dispostas na Capela, testemunham a influência do espírito do templarismo.

Há ainda, na Regaleira referências à Ordem Rosa-Cruz (movimento que propunha reformas sociais e religiosas e exaltava a humildade, a justiça, a verdade e a castidade, utilizando os símbolos conjuntos da rosa e da cruz)

Também a mitologia grega está representada, como é o caso de A gruta de Leda, (a Rainha de Esparta, esposa de Tíndaro foi seduzida por Zeus que se transformara em cisne…)

“Sintra é em tudo excepcional – no clima, na paisagem, na História, nos monumentos. Portanto, a ambiência daquelas serras, daqueles vales é muito particular; a luz é doce, cor de cidra, cintilante de suaves gorgeios de claridade, desde que o Sol se levanta até ao desmaiar das ave-marias; a finura da sua atmosfera, nascida – como Afrodite . das ondas do mar, côa-se pelos bosques de ericácias e sai perfumada com aromas de mato que floresce nas encostas, sabe a murtinhos e ao medroso capitoso…”

“…E os frequentes nevoeiros, tão caluniados e detestados, são como dobras de renda branca a roçar pelo colo dos montes, a enredar-se nas fidalgas cameleiras de jardins decadentes” (Raúl Lino)

“Sintra é o mais belo adeus da Europa quando enfim encontra o mar. Camões o soube quando os seus navegadores a fixaram como a última memória da terra, antes de não verem mais que “mar e céu”. E no entanto, ou por isso, o espaço que ela nos abre não é o da infinitude mas o do que a limita a um envolvimento de repouso. Alguém a trouxe de um paraíso perdido ou de uma ilha dos amores para uma serenidade de amar. Ela é assim o refúgio de nós próprios e de todo o excesso que nos agride ou ameaça” Vergílio Ferreira

Recomendados:

http://www.cm-sintra.pt

http://pt.wikipedia.org/wiki/Sintra

http://www.apha.pt/boletim/boletim3/pdf/IreneRibeiro.pdf

http://riodasmacas.blogspot.com/2010/01/arvores-de-sintra_18.html