O poeta é um fingidor (ou o Labirinto do Ser)

Fernando Pessoa é um dos maiores poetas portugueses do séc. XX. Escreveu como se factos, estados de espírito ou imagens fossem realidades diferentes, consoante o heterónimo que os tivesse experimentado. Um rio, uma rua, um café, um rebanho suscitavam conjecturas diferentes. Os rios de Ricardo Reis não deveriam ser idênticos aos de Pessoa (ortónimo) ou, para este, os rios e a Natureza em geral eram simples ambientes bucólicos, para que não estava desperto. Aparentemente, não é um, mas vários poetas.

As emoções descritas eram diferentes. Álvaro de Campos, mesmo Engenheiro, talvez fosse a personagem mais próxima do Fernando Pessoa, empregado comercial, discreto, a beber uns copos no Abel Pereira da Fonseca. Ricardo Reis, regressado do Brasil para onde se exilara com a implantação da República, era resignado e contemplativo, mas mais próximo de Alberto Caeiro, que o Poeta considerava quase como “pai” da sua heteronímia. Através desta multiplicidade, Fernando Pessoa desceu às contradições, aos paradoxos, aos jogos de espelhos da mente humana. A sua escrita é genialmente multidimensional.

As muitas abordagens que têm sido feitas à personalidade de Fernando Pessoa – literárias, sociológicas, psiquiátricas, etc., ficam aquém daquilo que ele escreveu de si próprio. Ninguém, melhor do que ele, se analisou (e mistificou), acreditando e preparando a glória futura. Por ela, secundarizou o reconhecimento público na sua época (embora o não tenha recusado). Em vida apenas publicou um livro, a “Mensagem”, embora os seus poemas mais importantes tivessem tido divulgação em várias revistas: Orpheu (de que foi um dos fundadores), etc.

O grande poeta – o Super-Camões sebastiânico, redentor de uma Nação mítica, capaz de refazer o seu destino histórico pela sua voz, pela língua portuguesa, aí estava. Era o seu destino, era ele. As fases de teosofia, ocultismo teriam sido a evolução desse propósito, que, no final da vida, haveria de desmentir.

A preparação teórica de Fernando Pessoa passou pelos poetas ingleses – Milton, Shakespeare, Poe, Byron, Keats…Estudou Filosofia (Nietzche, foi uma referência constante). O facto de ter feito o equivalente ao Liceu em Durban, deu-lhe grande domínio no Inglês, cuja escrita chegou a ser premiada. Os seus Poemas Ingleses, alguns deles com um cariz mais erótico que não se encontra no resto da obra, são, pois, consequência desse conhecimento….

Provavelmente, Fernando Pessoa sofreria de Perturbação Esquizóide da Personalidade, associada a traços de megalomania e de ideação delirante (aos psiquiatras e psicólogos, um diagnóstico). Mas, quem escreveu como Ricardo Reis “deixar correr o rio…sem desassossegos grandes”, ou como Álvaro de Campos  “olha que as religiões todas não ensinam mais do que a confeitaria” ou Alberto Caeiro “o único poeta da Natureza” ou como ele próprio “o poeta é um fingidor”, para além de interesse clínico, que importância têm as “etiquetas”?! A metafísica é uma consequência de estar mal disposto, como ele escreveu, pelo punho de Álvaro de Campos.

FM

 

 

Agonizava, e no meio da sua agonia, repuxando a dobra do lençol, teve, de súbito, uma pausa de estranha quietação. Abriu os olhos, olhou em roda, e apercebendo-se que não via, serenamente, como quem não esquece que os míopes, para ver, precisam de óculos, pediu que lhe trouxessem os seus: “Dá-me os óculos!”, murmurou, semicerrando os olhos enevoados. (João Gaspar Simões). Depois terá evocado os seus heterónimos, acabando por escrever: “I know not what tomorrow will bring” (“Eu não sei o que o amanhã trará”). A sua última frase.

Foi neste Hospital, São Luiz dos Franceses, à rua Luz Soriano, que, a 30 de Novembro de 1935, o poeta morreu aos 47 anos de idade de cirrose hepática (há quem afirme ter-se tratado de uma pancreatite aguda). Curiosamente, no mesmo quarto, onde cerca de 40 anos depois, morreria Almada Negreiros, um dos seus companheiros de tertúlias literárias.

Os antepassados de Fernando Pessoa (FP) foram figuras importantes na época: o avô paterno, General, combatente das campanhas liberais e o mateno, Director-Geral do Ministério do Reino. Na sua ascendência misturavam-se judeus e fidalgos. Contudo, o pai era um obscuro funcionário do Ministério da Justiça, actividade que associava à de crítico musical no Diário de Notícias. Era um homem frágil, que morreu de tuberculose, tinha FP cinco anos. A mãe voltou a casar pouco tempo depois, já após a morte duma irmã mais nova.

Cottage em Durban, onde a “nova” família residiu. O padrasto era Cônsul de Portugal. Lá, FP fez a High School e chegou a ganhar o prémio de melhor composição de Língua Inglesa entre mais de 1000 concorrentes. Porém, o seu objectivo de obter uma Bolsa para estudar em Oxford ou Cambridge não foi atingido. São dessa altura os seus primeiros poemas ingleses.

Em Durban nasceram mais irmãos. Terá o 2º casamento tido uma influência funesta na personalidade de FP? E o nascimento dos irmãos? Esta é uma questão que sempre foi evocada por todos os que tentaram fazer uma abordagem psicológica à obra do poeta. Como lembra Joana Amaral Dias, em apenas 3 anos FP perdeu o pai e o irmão, mudou de casa, de país, de “pai”, de irmão, de família, de cultura e de língua…

Quando finalmente regressou a Portugal aos 17 anos, falava melhor o Inglês que a língua materna. Cá inscreveu-se na Faculdade de Letras, mas não chegou a concluir o 1º ano.

Estátua da autoria de Lagoa Henriques, defronte da Brasileira do Chiado. Criou-se a ideia que FP seria um solitário, sem amigos, pobre, triste, ignorado, o que não corresponde inteiramente à verdade. Quanto à vida sentimental, a única relação que se lhe conheceu foi Ofélia, com quem trocou abundante correspondência, mas vida sexual activa parece nunca ter tido. Há quem admita, através dos seus escritos ter tido uma inclinação homossexual não concretizada.

No Martinho da Arcada, numa das suas tertúlias. Pessoa é o primeiro da direita. FP não era um solitário, embora não fosse extrovertido. Convivia, frequentava cafés, dava passeios, visitava amigos. Mantinha relações com as tias, com uma avó (que teria enlouquecido), com o padrasto. Teve relações de amizade com Sá-Carneiro, António Botto, Almada. Trocou correspondência com escritores da Presença como Régio, Casais Monteiro, Torga, Gaspar Simões.

Mário de Sá-Carneiro, com quem FP trocou importante correspondência até ao suicídio daquele em Paris.

FP teve sempre grande cuidado na construção da sua imagem. As cartas que escreveu, muitas delas não tinham um único destinatário, dirigiam-se a todos os que o viessem a ler. Era ao futuro, ao reconhecimento da importância da sua obra, ele o grande poeta – o Super-Camões. Só assim se entende a meticulosidade da explicação dos heterónimos a Casal Monteiro ou a arrumação de todo o seu espólio literário pelos diferentes heterónimos feita por ele próprio ou as cartas que escrevia e reescrevia (ficando com uma cópia), não tanto para aguardar resposta, mas para que elas viessem também a fazer parte da sua obra (como salientou J. Amaral Dias).

Independentemente da sua actividade literária (onde colaborou em diversas revistas) e do tempo que consumia na sua condição de leitor compulsivo, FP teve de deitar mão à sua formação de inglês para garantir a sobrevivência económica. Assim, como empregado de comércio, foi correspondente estrangeiro; dactilografo, redactor e tradutor de cartas. Com o dinheiro de uma herança fundou uma Tipopografia-Editora em Portalegre (Íbis) que seria um desastre financeiro, como sucedeu com outras iniciativas empresariais a que meteu ombros.

Fernando Pessoa (“ele mesmo”) escreveu poesia com traços épicos, trágicos, cujo paradigma deverá ser a Mensagem. Entendia que essa busca de alguém salvador, um Dom Sebastião, perdido em Alcácer-Quibir, devolveria à Pátria um Super-Camões (ele, Pessoa). Porém o seu nacionalismo, dizia, não era reaccionário. Mantinha uma certa ambivalência em relação às ditaduras. Admirou Sidónio Pais, talvez pelo seu consulado ter sido breve, mas não se identificou com o emergente Estado Novo de Salazar (retrato de João Luis Roth).

A origem dos meus heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histeroneurasténico. Tendo para esta segunda hipótese, porque há em mim fenómenos de abulia que a histeria, propriamente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterónimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenómenos – felizmente para mim e para os outros – mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com os outros; fazem explosão para dentro e vivo-os eu a sós comigo. Se eu fosse mulher – na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas – cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem – e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia…” (carta a A. C. Monteiro)

Desde criança, tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos.) Desde que me conheço como sendo aquilo a que chamo eu, me lembro de precisar mentalmente, em figura, movimentos, carácter e história, várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como as coisas daquilo a que chamamos, porventura abusivamente, a vida real. Esta tendência, que me vem desde que me lembro de ser um eu, tem-me acompanhado sempre, mudando um pouco o tipo de música com que me encanta, mas não alterando nunca a sua maneira de encantar.” (excerto de carta a A.C .Monteiro).

Quem sonhou todas estas ficções foi o passeante da Rua dos Douradores, um homem triste por não existir como se sonhava, irmão gémeo por dentro de Luís da Baviera, prisioneiro de idênticos fantasmas. Enquanto se inventava poeta e nos sonhava mais angustiados do que somos, mais perdidos do que ele se sentia, mais tristes do que ele era, ia escrevendo como quem transcreve o sonho que o está sonhando, o livro do seu Desassossego. Não há na nossa literatura prosa mais luminosamente Suicidária’. Aí se despe da sua própria ficção, oferecendo-se sem resguardas como órfão de tudo, excluído voluntário dos outros e da vida, sonhador de todos os sonhos, sobretudo dos improváveis (Eduardo Lourenço).

Para Almada Negreiros o Modernismo era “o encontro entre as letras e a pintura” (cit. de Bernardo Pinto de Almeida). Entre os pintores mais relevantes deste movimento encontra-se Santa Rita Pintor, de quem existem muito poucas obras, pois pediu ao irmão que queimasse tudo após a sua morte, que foi precoce (1889-1918). A estada de Santa Rita em Paris foi determinante, trazendo para Portugal as influências de novas estéticas, presentes no Orpheu 2. Com Almada, funda o Comité Futurista de Lisboa, que pouco produz. Assim, deve-se a FP a maior produção da corrente futurista, até na atitude provocatória e repúdio dos cânones vigentes, que a espaços causou. Na revista “Portugal Futurista” publicou “Mandato de despejo aos Mandarins da Europa” ou o “Ultimatum”.

Amadeo de Souza-Cardoso é dos pintores portugueses mais importantes do séc. XX. Como Santa Rita viveu em Paris, fazendo uma evolução que passou pelo impressionismo, expressionismo, cubismo…Futurista, como também Almada, embora procurando escapar a classificações. Com o início da I Guerra regressou a Lisboa, fazendo várias exposições. Morreu em 1918, aos 31 anos.

Pessoa por Almada Negreiros

Amadeo foi amigo dos Delaunay em Paris (os quais posteriormente viveriam em Portugal), como de Modigliani, Apollinaire e Bracque. Esteve representado no Salon des Independants, ao lado de Bracque e Picasso. Almada, em 1917, chamou-lhe: “a primeira Descoberta de Portugal na Europa no século xx”. A espantosa força conceptual e formal da maioria das suas obras colocam-no, sem esforço de concessão, a par dos mais importantes artistas do seu tempo, de Kupcka a Léger, de Delaunay a Picabia, de Braque e Dérain. O 3º número de Orpheu ser-lhe-ia dedicado, mas a revista não passou do 2º número. “Amadeo é um paradigma do isolamento da solidão do criador mas em situação paroxística, porque ao mesmo tempo interior e exterior” (Bernardo Pinto de Almeida).

Orpheu foi a Revista do Modernismo português, da qual apenas se publicaram dois números, o 2º (1915) dirigido por FP e Sá-Carneiro e na qual se acolheram importante número de poetas (como Alfredo Guisado, Almada, Raul Leal e António Ferro). O primeiro número esgotou e o 2º vendeu 600 exemplares. Evidentemente, sendo uma linha de ruptura com o marasmo intelectual, escandalizou a imprensa da época. “os bardos do Orpheu são doidos com juízo”, “os engraçadinhos” da Brasileira e do Martinho.

Este edifício, situado na Rua Coelho da Rocha nº 16, em Campo de Ourique, foi reabilitado pela Câmara Municipal de Lisboa, por ter sido o local onde, no 1º andar, viveu os seus últimos anos. Neste prédio, que alberga parte do espólio do poeta, realizam-se regularmente colóquios, conferências, sessões de leitura de poesia, encontros de escritores, etc. A decoração, o jardim, as salas de exposição são de grande bom gosto e criam um ambiente intimista de acordo com a(s) personalidade(s) do poeta.

“Em pleno delitro” foi a legenda que FP escreveu na fotografia que enviou à sua namorada Ofélia, imagem que é hoje um ícone pessoano.

FP sempre demonstrou interesse pela teosofia, esoterismo, espiritismo, misticismo e por sociedades secretas como Maçonaria e Rosacruz. Dedicou-se também à astrologia, tendo traçado os horóscopos aos seus próprios heterónimos…

A revista Presença (1927-1940) foi fundada por Branquinho da Fonseca e José Régio, e nela colaboraram dos mais importantes escritores e pintores portugueses, como Miguel Torga, Vitorino Nemésio, Adolfo Casais Monteiro, FP, Almada Negreiros, Mário Sá-Carneiro ou João Gaspar Simões. No estilo, na grafia e nos conteúdos, visou uma literatura oposta ao academismo tradicional, da sobreposição do individual ao colectivo, do psicológico ao social. Para o seu desaparecimento contribuíram divergências de Régio com Torga, e depois com outros colaboradores. Elegeu como “mestres” os artistas da Orpheu, Após a morte de FP, consagrou-lhe os nºs 47 e 48, reconhecendo “uma das mais ricas e originais individualidades da literatura portugesa”.

“O mostrengo” (Fernando Pessoa)

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A obra de Pessoa é uma sinfonia de uma só nota destinada a cobrir o outro lado do sonho que é para ele a Morte. Por isso, a mais do que a ninguém foi Luís da Baviera que se assimilou Pessoa, como ele, rei da nossa própria Baviera do sonho. O Livro do Desassossego desarticula todas as ficções que o separaram em vão do único amor que o habitou, herói de Wagner sem legenda, o da própria Morte. É à luz, agora soberana, do Livro do Desassossego que todo o texto — falsamente plural — de Fernando Pessoa deve ser relido. Aí está o retábulo da sua vera e incruenta paixão. É um retábulo simbolista pouco conforme ao mito-Pessoa de um vanguardismo estridente e todo exterior, mas talvez esse mito seja mais do nosso engano que da sua verdade. Toda a sua vida foi simbolista. Nem há na literatura do Ocidente mais completa expressão do Simbolismo. O Modernismo foi a sua e nossa ficção. Devolvamo-lo, para terminar, à sua verdade-ficção, à sua dolorosa realidade de amante da Morte, de herói da impossibilidade de amar como o seu duplo e não menos wagneriano Luís Segundo, Rei da Baviera: ,,Teu amor pelas cousas sonhadas era o teu desprezo pelas coisas vividas. Rei-Virgem que desprezaste o amor, Rei-Sombra que desdenhaste a luz, Rei-Sonho que não quiseste a vida! Entre o estrépito surdo de címbalos e atabales, a Sombra te proclama Imperador!» (Eduardo Lourenço).

“The Times”

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Outro heterónimo de Pessoa: Ricardo Reis. Na carta a Adolfo Casais Monteiro escreve: “Ricardo Reis nasceu em 1887 (não me lembro do dia e do mês, mas tenho-os algures), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil.” Sobre as suas características literárias, é um poeta clássico, triste, que aceita com calma lucidez, a relatividade e a fugacidade de todas as coisas; procura a tranquilidade capaz de evitar a perturbação; vive em conformidade com as leis do destino, indiferente à dor e ao desprazer numa verdadeira ilusão da felicidade.”

A figura de Ricardo Reis, cuja morte não ficara definida, foi retomada por José Saramago. Faz dele um liberal que foge para o Brasil, escapando-se ao regime de Salazar, para regressar em 1936, depois de instalada a ditadura de Getúlio Vargas. Durante 9 meses é testemunha do totalitarismo emergente que prenuncia uma catástrofe.

José Saramago situa o final do seu romance na época da Revolta dos Marinheiros, quando a tripulação de vários navios de guerra se rebelou contra o Governo de Salazar, em 1936. Lídia relatara ao Dr. Ricardo Reis a iminência da revolta e o envolvimento do irmão. Vai ao Terreiro do Paço, vê os avisos e os contratorpedeiros: Afonso de Albuquerque, Dão… É abordado pelo Victor (o PIDE da época), que se mostra como que surpreeendido: “Então o senhor doutor veio ver os barcos…”, insinuou. Devia avisar Lídia que talvez a revolta fosse conhecida?

Entre Ricardo Reis e Pessoa, de quem provem, estabelece-se uma relação de cumplicidade e quando no final, Pessoa dele se despede, porque é tempo de morrer, Ricardo Reis afirma: vou consigo.

“Para ser grande, sê inteiro” (Ricardo Reis).

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“Vem sentar-te comigo, Lídia à beira do rio…”

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Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1,30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como sabe, é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inactividade. Álvaro de Campos é alto (1,75 m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Tem o rosto rapado. Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre.

“Tabacaria”

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“Aniversário” (Álvaro de Campos)

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“Quando vier a Primavera” (Alberto Caeiro)

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“O rio que corre na minha aldeia” (Alberto Caeiro)

Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma – só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-avó.…Num dia em que finalmente desistir [de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada] – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio, também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente… Foi o regresso de Fernando Pessoa-Alberto Caeiro a Fernando Pessoa ele só. Ou, melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.

“Se depois de eu morrer” (Alberto Caeiro)

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“Pensar em Deus é desobedecer a Deus” (Alberto Caeiro)

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Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa – não para salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio. Há muitos em quem o desasseio não é uma disposição da vontade, mas um encolher de ombros da inteligência. E há muitos em quem o apagado e o mesmo da vida não é uma forma de a quererem, ou uma natural conformação com o não tê-la querido, mas um apagamento da inteligência de si mesmos, uma ironia automática do conhecimento. Há porcos que repugnam a sua própria porcaria, mas se não afastam dela, por aquele mesmo extremo de um sentimento , pelo qual o apavorado se não afasta do perigo. Há porcos de destino, como eu, que se não afastam da banalidade quotidiana por essa mesma atracção da própria impotência. São aves fascinadas pela ausência de serpente; moscas que pairam nos troncos sem ver nada, até chegarem ao alcance viscoso da língua do camaleão. Assim passeio lentamente a minha inconsciência consciente, no meu tronco de árvore do usual. Assim passei o meu destino que anda, pois eu não ando; o meu tempo que segue, pois eu não sigo.”

O Livro do Desassossego é para nós, hoje, um manual de sobrevivência. (…) É um livro de sonhos e, completamente, uma apologia do sonhador. Em toda a sua grande diversidade e fragmentação existe, ainda assim, um refrão constante: mais vale viver na imaginação do que no mundo real. O génio do Livro reside, em parte, no que tem de fragmentário, de hesitante e de (recorrendo agora ao léxico de Pessoa) ‘intervalar’. É um livro que não o é, e, como tal, reflecte perfeitamente a alma de quem o escreveu. Pessoa, um pós-modernista avant la lettre, deixou-nos o livro, ou anti-livro, mais emblemático do final deste século”. (Richard Zenith, investigador pessoano, responsável pela organização da mais completa edição do Livro do Desassossego de Bernardo Soares).

Tudo se passa no Livro do Desassossego, como se FP retirasse toda a ficção às suas ficções, eliminando nelas o que é imaginariamente positivo (contentamento puro de Caeiro, indiferença ostensiva de Reis, exaltação tumultuosa e precária da Campos) para converter apenas o inverso da experiência que uns e outros, miticamente encarnam, em suma, a mesma vida, mas nua (Eduardo Lourenço).

 

Ah, compreendo! O patrão Vasques é a Vida. A Vida, monótona e necessária, mandante e desconhecida. Este homem banal representa a banalidade da Vida. Ele é tudo para mim, por fora, porque a Vida é tudo para mim por fora. E, se o escritório da Rua dos Douradores representa para mim a vida, este meu segundo andar, onde moro, na mesma Rua dos Douradores, representa para mim a Arte. Sim, a Arte, que mora na mesma rua que a Vida, porém num lugar diferente, a Arte que alivia da vida sem aliviar de viver, que é tão monótona como a mesma vida, mas só em lugar diferente. Sim, esta Rua dos Douradores compreende para mim todo o sentido das coisas, a solução de todos os enigmas, salvo o existirem enigmas, que é o que não pode ter solução.”


Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso – em suma, é a nós mesmos – que amamos. Isto é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa. O onanista é objecto, mas, em exacta verdade, o onanista é a perfeita expressão lógica do amoroso. É o único que não disfarça nem se engana. As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha complexidade. No próprio ato em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois «amo-te» ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer dizer uma ideia diferente, uma vida diferente, até, porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstracta de impressões que constitui a actividade da alma. É de compreender que sobretudo nos cansamos. Viver é não pensar.


«Cada pessoa é apenas o sonho de si-próprio. Eu nem isso sou.» (Bernardo Soares).



“Vem noite antiquíssima e idêntica…” (Álvaro de Campos)

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Caricatura de Pessoa por Almada Negreiros, feita no dia do seu funeral.

 


Consultados: Fernando Pessoa, Rei da nossa Baviera (Eduardo Lourenço), O lugar do Anjo (Eduardo Lourenço); Pessoa revisitado (Eduardo Lourenço), Uma fotobiografia (Maria José de Lencastre), Fernando Pessoa, empregado de escritório (João Rui de Sousa), Maníacos de Qualidade (Joana Amaral Dias), Bibliografia passiva selectiva e temática (José Blanco), Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo português, Fazer pela vida (José Mega Ferreira).
 
Tudo se passa no Livro do Desassossego, como se FP retirasse toda a ficção às suas ficções, eliminando nelas o que é imaginariamente positivo (contentamento puro de Caeiro, indiferença ostensiva de Reis, exaltação tumultuosa e precária da Campos) para converter apenas o inverso da experiênciaque uns e outros, miticamente encarnam, em suma, a mesma vida, mas nua (Eduardo Lourenço)