Miguel Torga: o poeta visita o médico

Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente Miguel Torga, após a transmissão de uma série televisiva sobre a sua obra (“Eu, Miguel Torga”), a que emprestei a voz. O encontro promovido pelo realizador João Roque, realizou-se em casa do Dr. António Arnaut, amigo de ambos, e para  a qual fui convidado a almoçar. Desse encontro conservo uma lembrança viva e sobre ele escrevi há anos numa Revista científica. O texto, dirigido a um público específico, conserva toda a actualidade, pelo que o trancrevo:
Foi numa tarde chuvosa de Primavera, com o poeta à cabeceira da mesa discorrendo sobre o destino do Homem, Portugal, os médicos, a sua recusa de capelinhas e grupos literários. Havia em todos os presentes fascínio por aquele homem justo, antítese da hipocrisia e pretensiosismo do meio em que nos movimentamos. E, eis, que, de súbito, nas suas costas recortadas sobre o Mondego, magicamente se abre um arco-iris

Miguel Torga é o pseudónimo literário do médico otorrinolaringologista Adolfo Rocha e essa coincidência terá sido determinante para o encontro.

Voluntariamente exilado em si próprio, longe das associações corporativas (literárias e médicas) e de partidos políticos, recusando-se a quaisquer compromissos com a mediocridade, Torga confessa-se marginal, insusceptível de ser metido nas baias da “normalização”. Verdadeira consciência nacional, faz da liberdade e da esperança as linhas de força do seu humanismo.

A sua obra estende-se pela ficção, teatro, poesia e narrativa autobiográfica e é, principalmente, nos volumes do Diário e da Criação do Mundo que se encontram reflexões sobre o quotidiano dos médicos e sobre “certas misérias morais da classe” e relatos das angústias, calúnias, invejas e velhacarias que sofrem muitos dos que se entregam à clínica.

Entre essas narrativas e observações é possível encontrar referências à sua actividade otorrinolaringológica, o que para nós possui significado particular, porquanto elas exprimem. em linguagem de alto nível, vivências nossas familiares. A recolha que efectuámos aí fica.”

Aqui fica, agora, parte dessa recolha, feita com a ajuda do próprio Miguel Torga. É o retrato do olhar do poeta a acrescentar uma dimensão autobiográfica ao quotidiano do Dr. Adolfo Rocha.

F. Vaz Garcia

 

 

Miguel Torga (pseudónimo de Adolfo Correia Rocha), médico otorrinolaringologista, nasceu em S. Martinho de Anta (12.08.907) e morreu em Coimbra (17.01.995).

Escola primária em S. Martinho de Anta

Concelho de Sabrosa. Após breve passagem pelo seminário de Lamego, emigra para o Brasil, em 1920. Trabalha na fazenda do tio: é a dureza da “capinagem” do café. Faz de tudo um pouco (desde vaqueiro a caçador de cobras…). Mas, o tio apercebe-se das suas qualidades. Paga-lhe ingresso e estudos no liceu de Leopoldina, onde os professores igualmente registam as suas aptidões.

Serra do Marão. Em 1925 regressa a Portugal e matricula-se na Universidade de Coimbra, onde conclui a licenciatura em Medicina em 1933. Antes de iniciar a sua formação como otorrinolaringologista, trabalhou como médico municipal numa pequena aldeia (Sendim) e, mais tarde, nos arredores de Leiria, até se radicar em Coimbra.

“Dispus-me, finalmente, a meter o corpo aos varais. Comecei a praticar no consultório dum colega oto-rino-laringologista. Muito embora a clínica geral – o doente visto na sua totalidade física e psíquica – estivesse mais de acordo com a minha vocação profissional, eram inegáveis as vantagens da especialização. Poderia fixar-me na cidade, ficaria com mais tempo livre para escrever, e pouparia a saúde, que fora sempre precária e via agora sériamente comprometida. Mas a aprendizagem que iniciava exigia um grande esforço. Depois de espreitar narizes, ouvidos e gargantas o dia inteiro, tinha ainda de rever parte da anatomia, avivar matérias esquecidas, estudar técnicas e teorias. Prometera a mim mesmo preparar-me o melhor possível. Herdara de meu Pai o sentimento de fazer bem feitas todas as coisas em que me metesse. De maneira que trabalhava a valer. Repelia as tentações do sono às horas dele, e abria mastóides na morgue, em vez de atender as musas…”

S. Martinho de Anta “…Ia descobrindo, de resto, algumas novidades apaixonantes naquele pequeno território médico. 0 drama murado da surdez, por exemplo – um dos pesados tributos que o homem desta civilização de ruídos traumatizantes teria de pagar ao futuro. Até ali, era a cegueira que eu julgava a suprema clausura humana, longe de supor que havia ainda outra pior: a perda da audição. Só agora avaliava em toda a medida a solidão de uma criatura sem diálogo possível. E via subitamente a outra luz certas particularidades do comportamento de meu tio, que nunca conseguira compreender. 0 atacamento que dava às baboseiras com que minha tia o azoeirava dia e noite, tinha, afinal, uma explicação simples. Cada vez mais duro de ouvido, encontrava nela a única interlocutora que ajudava a iludir o terror do emparedamento progressivo em que se via. Mas a entrega quotidiana ao espéculo e ao diapasão, por mais porfiada e consciente que fosse, não conseguia trazer-me a pacificação…”

S. Martinho de Anta “…0 sentimento de vazio, que a supressão de Trajecto me deixara, alastrava dentro de mim como unia gangrena. Abri o coração ao Alvarenga. – Queres tu ir até lá fora, arejar? – perguntou-me à queima¬roupa. Como? – De automóvel. -Estás a brincar… – Palavra. Se te interessa, tenho aí um amigo que te leva. – 0 poema de Mallarmé começou a cantar-me na memória: La chair est triste, hélas! et j’ai lu tous les livres. Fuir! là-bas fuir!”

Foi bonito /O meu sonho de amor. /Floriram em redor /Todos os campos em pousio. /Um sol de Abril brilhou em pleno estio, /Lavado e promissor. /Só que não houve frutos /Dessa primavera. /A vida disse que era /Tarde demais. /E que as paixões tardias /São ironias /Dos deuses desleais.

Oiça o poema

“Abrira a tenda num sítio mau. Apesar de ter corrido por todo o lado, não consegui arranjar coisa melhor dentro do apertado orçamento de que dispunha. Um primeiro andar modesto, num cotovelo sombrio e sem movimento. Mas como a mobília que mandara fazer a um merceneiro remendão e o equipamento estritamente indispensável, adquirido com as magras economias de Sendim, destoariam noutro cenário, ficou tudo em harmonia. E ali passava parte das manhãs e das tardes, sonolento, a atender os raros doentes que a notícia da minha chegada num jornal da terra ia trazendo, a ler e a escrever nos longos intervalos das consultas, enquanto os quartos caíam monotonamente da torre da Sé e a senhora Glória fazia renda ou ponteava na sala de espera…

…Aparecera-me logo no primeiro dia, esquelética, desdentada, vestida de preto, a farejar o emprego num desespero esfaimado. A pensar numa rapariga airosa, que ajudasse a alegrar o consultório e a dispor bem a freguesia, disse-lhe que não, que já estava comprometido. Mas tanto pediu e chorou, a falar na viuvez e em quatro filhos pequenos para criar, que fraquejei. Sem saber nada de enfermagem, desajeitada, nos momentos de aflição, em vez de auxiliar, estorvava. Incapacitado, dava-lhe um berro. Pior. Ficava atarantada, e então é que era escusado. Aquela ignorância da arte tinha, contudo, uma vantagem, pelo menos de início: testemunhava os meus erros e insucesso sem entender. 0 que não aconteceu com o finório dum parolo dos Marrazes, que ia dando comigo em pantanas antes mesmo de eu assentar pé….

…Quase cego, devido a compressão inflamatória do nervo óptico, só havia uma solução: trepanar-lhe o seio esfenoidal infectado. Correu tudo bem, a visão normalizou-se e, na altura do pagamento, quando me viu a gaguejar, sem compreender a verdadeira natureza do meu embaraço. — a relutância com que sempre cobrei os honorários —, tentou ajudar-me: — Diga lá, porque eu sei que a operação foi difícil e agora tenho de gemer… — Realmente foi… — A avaliar pelo medo com que o senhor trabalhava… — Medo?! — atalhei, a sentir-me perdido. — Medo, pois! Nunca vi uma pessoa tremer tanto. — ó criatura de Deus, se tremesse, dava cabo de si! Bastava uma pancada em falso, um pequeno desvio do ferro… — As mãos estariam firmes… Não pude ver, porque tinha cara tapada… Mas as pernas pareciam castanholas a bater nas minhas… — Foi impressão sua… Talvez à anestesia…

…Ainda inseguro no terreno da agressividade operária, tremera, efectivamente, a abrir e a curetar a pequena cavidade separada da caixa craniana por uma fina lâmina óssea. A clínica geral, onde assentara praça, embora cheia de escolhos também, era outro mundo. 0 paciente escancarava as portas da intimidade e o médico entrava por ali dentro como um convidado, sem nunca haver verdadeiro conflito entre os dois. Na cirurgia, não. Depois do primeiro golpe consentido, a vítima deixava de ter vontade, de ser ela. Reduzida a mero objecto de conquista, só retomava a independência quando o operador, saciado, depunha o bisturi. Durante os anos de especialização, a responsabilidade dessa fúria ofensiva pertencera ao mestre, a comandar, imperativo, as lançadas…

…Mas agora era eu próprio que tinha de assumir o acto feroz. E ficava inibido perante a perspectiva da violência em si, e ainda mortificado pela ideia de poder, por qualquer erro de técnica, transformar de repente um corpo intacto e indefeso numa fonte aberta, acrescentando um mal maior, e até irremediável, ao que prometera curar. A verdade, porém é que os doentes, quando procuravam um médico, não queriam encontrar um homem, mas um taumaturgo. Inquietações, dúvidas, terrores, traziam-nos eles. E de nenhum modo entendiam que o semi-deus se desmentisse. Condenavam-no tanto por uma incerteza confessada como por uma certeza inconfirmada. Se dizia morre, tinha de morrer; se dizia vive tinha de viver. A esperança tem uma vertente irracional. Incapaz de distinguir a clarividência clínica da vivência bruxa, o inferno vincula o médico indelevelmente à fama do primeiro êxito ou do primeiro fracasso. …

Rio Douro …Ai de mim, se o resultado da operação tivesse sido nulo ou precário e o Bernardino exibisse publicamente a cegueira como um cartaz vivo da minha incompetência!” In “A Criação do Mundo”, IV

Homenagem pela Fundação Calouste Gulbenkian, em 1980, após ter sido galardoado com o Prémio Morgado de Mateus, ex-aequo com o escritor brasileiro Carlos Drummond de Andrade.

“Dei-te os dias, as horas e os minutos /Destes anos de vida que passaram; /Nos meus versos ficaram /Imagens que são máscaras anónimas /Do teu rosto proibido; /A fome insatisfeita que senti /Era de ti, Fome do instinto que não foi ouvido. //Agora retrocedo, leio os versos, /Conto as desilusões no rol do coração, /Recordo o pesadelo dos desejos, /Olho o deserto humano desolado, /E pergunto porquê, por que razão /Nas dunas do teu peito o vento passa /Sem tropeçar na graça /Do mais leve sinal da minha mão…”

Oiça o poema

“Sim esforço-me por escrever bem. Inimigo figadal do esteticismo vazio e do purismo caturra, tento, contudo, ser correcto, no que digo, e dizer da melhor maneira. Nem chego a compreender os sibilinos alfabetos que me censuram um propósito tão elementar. Se na vida profissional procurei sempre ser honesto e capaz, porque não hei-de fazer o mesmo como escritor? Ora um escritor honesto e capaz deve escrever bem. Por isso, pego na pena com o escrúpulo com que pego no bisturi. 0 canhestro manuseamento deste pode matar o doente; a má utilização daquela pode preverter o gosto e torcer a consciência do leitor. Ambos, portanto, exigem igual precisão e honradez. Não é uma boa prosa que ambiciono, mas sim uma claridade gráfica. Gostaria de restituir às palavras a alma que lhes roubaram, e que a língua tivesse nas minhas mãos, além da graça possível, uma dignidade insofismável. Que não agredisse a sensibilidade alheia, e me testemunhasse e responsabilizasse.

“…Que cada frase, em vez dum habilidoso disfarce, fosse uma sedução e um acto. Uma sedução sem condescendências, e um acto sem subterfúgios. Para tanto, limpo-a escrupulosamente de todas as impurezas e ambiguidades, na porfiada esperança de que a sua claridade se veja e se entenda ao mesmo tempo. E a vejam e a entendam, sobretudo, os que não são profissionais da leitura. De onde resulta que, muito mais do que o juízo da crítica encartada, me interesse principalmente a opinião do leitor comum e da polícia. Ele, na sua desprevenida entrega a uma solicitação atraente e leal, e ela, na sua profissional desconfiança da verdade, é que me dizem se vou por bom caminho, ou não. Uma obra desapaixonadamente lida e estimada, e repressivamente apreendida, dá muitas garantias de ter ao mesmo tempo encanto e autenticidade. E só esse encanto e autenticidade, em meu entender, valem a pena — e as penas — que custam.” Coimbra, 17 de Fevereiro de 1958

Orfeu rebelde, canto como sou:/Canto como um possesso/Que na casca do tempo, a canivete,/Gravasse a fúria de cada momento;/Canto, a ver se o meu canto compromete/A eternidade do meu sofrimento.//Outros, felizes, sejam os rouxinóis…/Eu ergo a voz assim, num desafio:/Que o céu e a terra, pedras conjugadas/Do moinho cruel que me tritura,/Saibam que há gritos como há nortadas,/Violências famintas de ternura.//Bicho instintivo que adivinha a morte No corpo dum poeta que a recusa,/Canto como quem usa/Os versos em legítima defesa./Canto, sem perguntar à Musa/ Se o canto é de terror ou de beleza.

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“O homem ainda está muito longe da sabedoria. Pergunta-se, até, se em alguns domínios já não teria estado mais perto. No da Medicina, por exemplo. Tudo quanto os mestres e os manuais ensinam a ver da realidade a um Esculápio de agora, não passa duma pobre aparência. Andei durante anos a aprender a observar e a tratar doentes. E apenas aprendi a observá-los e a tratá-los por fora. Havia ferida – desinfecção e penso; havia nervoso – calmantes; havia sezão – quinino. Ora a coisa fia mais fino, como verifico neste preciso momento pela milionésima vez. Atendo doentes no consultório. Sai um, entra outro, soma e segue. Caras conhecidas e desconhecidas, simpáticas e antipáticas, velhas e novas. Inquiridor atento, vou interrogando, examinando, convidando, concluindo. Transito de sintoma em sintoma, de sofrimento em sofrimento, de vida em vida…

..Prometo curas, melhoras, prevejo mortes, junto palavras de esperança a todas as receitas. E, embora a sentir-me eficiente, sinto-me frustrado. Tenho plena consciência de que nado em seco à beira dum grande oceano. Vejo perfeitamente que aplico regras lógicas a um jogo ilógico, que era do outro lado que eu devia estar, no centro do mundo desordenado, ou que assim me parece, da efermidade. Mas aí não há lugar para a minha razão ordenada, que aborda metódicamente o que não tem método, que já sabe antes de saber. Respondo a perguntas de dramática incerteza com evidências estabelecidas, argumento objectivamente contra a subjectividade, cubro de afirmações peremptórias as clareiras de dúvida que pequenos descuidos da lógica vão abrindo no diálogo. E salva-me a própria cegueira dos pacientes, que na ânsia de cura tomam a nuvem por Juno. Almas em pânico que bateram à porta dum feiticeiro com tabuleta, ouvem-no de boa fé, na pia crença de que tudo o que diz o soletra no fundo do poço onde se encontram mergulhadas…

…Nem de longe suspeitam que a reza é fingida e feita à tona da angústia, e me rio dela quando outros, que leram pela mesma cartilha, a engrolam por minha própria intenção” Coimbra, 14 de Outubro de 1963

Douro “Tantas formas revestes, e nenhuma /Me satisfaz! /Vens às vezes no amor, e quase te acredito. /Mas todo o amor é um grito /Desesperado /Que apenas ouve o eco… /Peco Por absurdo humano: /Quero não sei que cálice profano /Cheio de um vinho herético e sagrado.”

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“A pergunta é sempre a mesma, mas o tamanho da resposta varia consoante a disponibilidade e a pachorra. — A medicina dá muitos escritores! Por que será? Pacientemente, dobro a receita, tiro os óculos, levanto-me e começo o sermão, que hoje me saiu um pouco sincopado: — Não é ela que os dá. Limita-se, simplesmente, a preservar esse dom aos que nasceram com ele, o que já não é pouco. Ao invés doutras profissões, que estrangulam no indivíduo o espírito de aceitação e compreensão do semelhante, esta faz o contrário. 0 médico, como tal, nem pode fechar as portas da alma, nem apagar a luz do entendimento. É todo o humano que o solicita a todas as horas: o que sofre, o que simula, o que teme e o que desvaria…

…E só a graça de uma certa dimensão afectiva e mental permite corresponder eficientemente a tantos e tão diversos apelos. Ora, essa dimensão está implícita na condição do artista, o mais receptivo e perceptivo dos mortais. Por isso, quando o acaso sobrepõe a uma vocação criadora uma condenação clínica, não há dramas sangrentos. A caneta que escreve e a que prescreve revesam-se harmoniosamente na mesma mão.” Coimbra, 20 Janeiro de 1961

Serra do Marão “Há muito tempo já que não escrevo um poema /De amor. /E é o que eu sei fazer com mais delicadeza! /A nossa natureza /Lusitana /Tem essa humana /Graça /Feiticeira /De tornar de cristal /A mais sentimental /E baça /Bebedeira. //Mas ou seja que vou envelhecendo /E ninguém me deseje apaixonado, //Ou que a antiga paixão /Me mantenha calado /O coração Num íntimo pudor, /— Há muito tempo já que não escrevo um poema /De amor. “

Oiça o poema

“Uma pequena cidade mesquinha, bibilhoteira, doméstica, onde todos os passos tinham não sei que falsa direcção, a importância das pessoas se avaliava pela inclinação das vénias recebidas, e o ar parecia mais rarefeito aos domingos. Uma aldeia grande, com os adultérios catalogados, as falências previstas, os sucessos e insucessos clínicos conhecidos e comentados na barbearia. — 0 capitão está melhor? — Continua mal… — Mas salva-se? —Vamos a ver… Faço tudo por isso… Agora certeza, certeza… Defendia-me. Desta vez as circunstâncias eram de tal ordem, que de maneira nenhuma podia dar um passo em falso. Seria a desclassificação profissional pura e simples. A posição social do doente – comandante da Polícia – chamara a atenção geral sobre o médico assistente, sobretudo a dos colegas, a vislumbrar pela primeira vez um desaire espectacular e mortal. Chegava a perguntar a mim mesmo se aquele sádico contentamento que sentiam ao ver-me em apuros não seria uma forma de justificação dos próprios reveses…

…0 certo é que, abanado insidiosamente por eles, o meu prestígio aluía à medida que a cara do militar inchava. A semana inteira sem conseguir arredar do pensamento aquela imagem exasperante: uma máscara nojenta e pegajosa de colargol, cega e disforme, onde a barba parecia um restolho estrumado a crescer, e cada traço perdera a nitidez do desenho e se degradava no atropelo da inflamação. 0 sujeito apavorado, a tentar em vão fitar-me com os olhos soterrados pelas pápebras entumecidas, assado de febre, a família aterrorizada também, e eu a tentar sossegá-los, mais aflito ainda. No que dava a porcaria de um furúnculo da asa do nariz! Nunca me resignaria na profissão ao absurdo constante de semelhantes situações catastróficas, em que a teimosia de um micróbio ou a rebeldia de uma célula desafiavam caprichosamente todas as forças mobilizadas do engenho humano. — Dizem que parece um bicho! Como elas se arranjam! Uma coisa de nada… —…

…-Nisso é que as pessoas se enganam. o que julgam ser essa coisa de nada, pode transformar-se num caso gravíssimo… — Ah, sim? — Pois. Foi precisamente o que aconteceu agora. — Falam numa espinha carnal… — Sim, mas a espinha complicou-se… E agora, realmente. 0 raio do estafilococo, quando lhe dava para asnear, nem o maior sábio da Grécia. Felizmente que com a miraculosa sulfamida, o último prodígio terapêutico de que me socorri também, a infecção começava a ceder, e tudo indicava que podia intimamente confiar no triunfo. Apesar do edema ainda generalizado, realmente de meter medo, o perigo da septicémia diminuía. Mas, à cautela mantinha o prognóstico carregado. Se a roda desandasse por qualquer motivo imprevisto, o trambolhão estaria pelo menos almofadado. In “A Criação do Mundo”, IV

Trás-os-Montes “Avivo no teu rosto o rosto que me deste, /E torno mais real o rosto que te dou. /Mostro aos olhos que não te desfigura /Quem te desfigurou. /Criatura da tua criatura, /Serás sempre o que sou. //E eu sou a liberdade dum perfil /Desenhado no mar. /Ondulo e permaneço/Cavo, remo, imagino, /E descubro na bruma o meu destino /Que de antemão conheço: //Teimoso aventureiro da ilusão, /Surdo às razões do tempo e da fortuna, /Achar sem nunca achar o que procuro, /Exilado /Na gávea do futuro, /Mais alta ainda do que no passado. “

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“Acabei de operar, estou a fumar um cigarro e a pensar nas freiras que cirandam à minha volta. Bondosas, prestáveis, pacientes, injectam, fazem curativos, despejam, limpam. Mas sente-se que, embora presentes e funcionais, pairam acima da realidade. Que actuam fora do jogo da vida. Parece, até que nos olham com certa dose de comiseração por tanta freima que pomos nos actos temporais. Que força interior escuda estas mulheres? Que voz imperativa as chamou, que tudo largaram para a ouvir, desfazendo laços afectivos, calcando instintos, desprezando bens e honrarias? De onde lhes vem a paz que trazem estampada no rosto, e que nenhum vendaval perturba? Sei o que me responderiam se as interrogasse. Mas não quero ouvir palavras que na boca delas soariam a evidência, e nos meus ouvidos ressoariam a mistério. Deus, fé, vocação…

…Com três substantivos destes no processo, de que ilações cavilosas não seria capaz o demónio chicaneiro que mora dentro de mim! Presunção, simpleza… Só isso! E o pior é que o problema ficava na mesma. Era cobrir apenas com outros substantivos, mais pedantes ainda, a minha perplexidade. Santas irmãs! Mal imaginam, tão brancas de corpo e alma, o bem e o mal que me fazem. 0 bem de serem como são, e o mal de não poder entendê-las”. Hospital de Arganil, 1 de Dezembro de 1966.

“Toda a manhã a cortar amígdalas, longe de supor que no fim da carnificina sentiria esta necessidade, a que vou dar razão, de escrever qualquer coisa sobre a agressividade operatória. Contar da sanha insólita que se apodera do cirurgião contra o desgraçado paciente que tenta de qualquer modo resistir ao ataque de que é vítima. Iniciado na boa consciência de quem presta um serviço ao semelhante, o acto cirúrgico, às tantas, descamba insensivelmente em não sei que sádica crispação ofensiva, que já pouco tem a ver com a solicitude fraterna do começo. De certa altura em diante, o magarefe procura romper caminho de qualquer maneira. Tudo se passa como se o mecanismo de reorientação agressiva se desarranjasse dentro dele, e a sua natureza instintiva recalcada viesse subitamente à tona em toda a plenitude animal. E acontece muitas vezes que, quando o operador despe a bata, adivinha nos olhos do operado não o reconhecimento dorido pelos serviços q recebeu, mas a raiva impotente contra o bandido q lhe saiu à estrada”

Residência de Miguel Torga/Adolfo Rocha, agora transformada em Casa-Museu. Lá podem encontrar-se livros da biblioteca do poeta, incluindo algumas primeiras edições de obras de sua autoria, outras publicadas antes da sua morte ou a título póstumo. Também objectos pessoais, como a máquina de escrever, uma caneta, um estetoscópio, correspondência diversa, objectos de identificação pessoal e o espólio fotográfico e fonográfico.

Os autores agradecem a colaboração de Nacional Filmes Lda.