Florbela, contradições e enigmas

00A mãe biológica de Florbela foi uma espécie de barriga de aluguer para uma criança que o pai desejava (mas que só reconheceria 19 anos depois de morta, quando o seu talento era reconhecido e as obras iam sendo publicadas) e que, no entanto, educou e apoiou durante toda a vida. A mãe biológica (Antonia Lobo, de seu nome), empregada doméstica, teve ainda mais um filho da mesma relação, que sempre estaria muito ligado a Florbela. Quer isto dizer que o pai manteve uma relação extraconjugal durante bastante tempo, a qual era na época socialmente aceite, por a esposa ser estéril. Foi, pois, mais que barriga de aluguer, mas da mãe biológica há raros escritos que testemunhem proximidade afetiva. E foi a esposa do pai, sua madrinha de batismo, que desempenhou o papel de mãe adotiva e a quem a jovem dispensava, a ela sim, afecto genuíno.

Foi no meio desta família que Florbela cresceu. Do pai adotou precocemente o apelido Espanca, embora a sua condição de filha de pai incógnito, o não concedesse. Da sua vida amorosa registam-se três casamentos, dois divórcios e vários outros casos que traduzem o seu espírito apaixonado, excessivo, romântico, instável, contraditório, em busca de mais além, do sonho, do que não existe e, em cada desilusão, sempre pronta a recomeçar, como Sísifo, condenado a carregar uma pedra até ao cume de uma montanha e lá chegado a pedra rolar montanha abaixo até ao sopé e ele retomar a tarefa indefinidamente.

Como se casou Florbela com um oficial da GNR ou com um médico, a quem não se reconheciam inclinações artísticas? Aliás, parece ter havido diversos episódios sentimentais com outros médicos que a trataram, mesmo na vigência dos matrimónios. Porquê a atração por pessoas tão diferentes de si? Há quem admita ainda uma relação incestuosa com o irmão ou lésbica com uma amiga, mas provavelmente tratar-se-ia apenas de maledicência resultante da forma emotiva como exprimia os seus sentimentos.

Egocêntrica, coquete, sedutora, independente, embora melancólica e apaixonada, estaria sempre avançada em relação aos preconceitos e mesquinhez das cidades onde viveu – Vila Viçosa, Évora, Lisboa, Porto, Matosinhos. A própria família a censurava. Foi das poucas alunas não só do Liceu de Évora como da Faculdade de Direito de Lisboa, que frequentou durante três anos. Escandalizava a sociedade urbana defensora dos “bons costumes” pelo atrevimento de fumar em público, beber e pela sua vida boémia. Porém, para sobreviver, nomeadamente durante o primeiro casamento em que experimentou dificuldades financeiras, deu explicações, fez traduções de romances franceses e colaborou em jornais e revistas de índole diversa.

Os seus primeiros versos foram escritos logo na infância, mas em vida apenas viu publicados duas obras de poesia, Livro de Mágoas e Livro de Sóror Saudade. Postumamente surgiram os contos, a correspondência e o fundamental Charneca em flor, para o qual em vida não obteve editor. Mas foram os sonetos que a tornaram famosa.

Vários episódios traumatizantes tê-la-ão marcado profundamente. Um, foram dois abortos involuntários, o outro, a morte do irmão, Apeles Espanca, mais novo que ela três anos, num acidente no avião que tripulava. A sua faceta frágil, sofrida e o desejo da morte são aqui manifestos. Mas, para além da sua sensibilidade, tinha a coragem de se afirmar contra o espírito tradicional que atribuía (e atribui) um papel secundário à mulher. Além de escrever – e por vezes com veemência, de modo a subentender a liberdade sexual, a sensualidade e erotismo latente de alguns dos seus poemas, fizeram dela uma defensora da emancipação da mulher e precursora do movimento feminista em Portugal, para escândalo de muita gente.

Coexistiam, pois, em Florbela, várias vertentes, porventura antagónicas. Por um lado a fragilidade, carência afetiva, melancolia, por outro, uma faceta provocante, irreverente. Mulher reiteradamente apaixonada, de paixões eternas enquanto duravam (como diria Vinicius) que viria a antecipar-se ao que seria a afirmação da plena liberdade sexual da mulher, como teorizada e posta em prática por Simone de Beauvoir, por exemplo.

Florbela assistiu à queda da monarquia, às revoluções quase diárias da I República, curtas ditaduras, repressão, enfim ao ambiente politicamente febril do princípio do séc. XX português que culminaria com o 28 de Maio de 1926, que traria depois Salazar ao poder. Porém a sua obra não reflete aquela realidade política nem social. A pobreza alheia, a exploração, abandono, solidão de muitos que vê à sua volta, tão-pouco são preocupações manifestas. Também o movimento modernista que despontava em Portugal e teve os seus expoentes maiores no Orpheu de Fernando Pessoa, Sá-Carneiro e Almada Negreiros, não influenciou a escrita de Florbela. O rompimento com o passadismo literário, a construção de versos livres, sem rima, com estrofes e ritmo não espartilhados, não deixaram marca na poesia de Florbela. Esta olha para dentro de si, para aqueles por quem se apaixona, fala de afetos mas também do desejo, fala da tristeza. É sempre um percurso íntimo, é Antonio Nobre quem talvez mais a influencie. Deseja a morte, percebe-se que a prepara, faz duas tentativas de suicídio. E romanticamente escolhe uma data simbólica, um duplo aniversário, o seu e do seu primeiro casamento, para a consumar: dia 8 de Dezembro de 1930. Tinha 36 anos.

Considera-se Florbela uma poetisa do Alentejo, entendendo-se que a planura extensa e triste, os montes aqui e ali, os pequenos rebanhos dispersos, as árvores de pequeno porte e a luminosidade intensa, possam contribuir para a reflexão e para o que transparece em muita da sua poesia – tristeza, solidão, silêncio. E, no entanto, tirando a infância e adolescência, encontramo-la em muitas outras regiões do país. E nas cidades tornou-se notada pelas suas toilettes, pelo cosmopolitismo de que fazia gala e mesmo por um certo pretensiosismo.

Os casamentos, os divórcios, os amantes causaram escândalo. Esta amálgama de posturas – uma interior triste, carente, sôfrega e outra provocante, vaidosa, exibicionista, suscitaram fascínio pelos seus biógrafos. Agustina Bessa-Luis conseguiu gradualmente uma proximidade íntima com a sua obra, mas não foi de meias palavras: “É uma infame essa Florbela. Uma pegazinha, uma cabotina, uma batoteira no jogo dos corações solitários. Imita as divas do cinema, mas nela transparece sempre a bastarda com poses de leitora num parque. Sangue de criada e de remendão, doida por esconder a campónia atrás das mãos esguias, finas como hastes quietas”.

O artista é fruto do ambiente que vive, da riqueza das suas experiências? Não, necessariamente. Como Florbela, Fernando Pessoa quase passou literariamente despercebido em vida. E os contrastes entre a sua vida profissional monótona de empregado de escritório e o fantástico espólio que legou, não permitem comparação com o meio social em que Florbela viveu, nomeadamente em Lisboa e Porto.

A vida e obra de Florbela têm sido analisadas sob pontos de vista diferentes. Para além do literário é o psicológico. Numerosos ensaios foram publicados sobre a personalidade de Florbela. Filha ilegítima dum pai que não a reconheceu como tal em vida; ela própria, mãe falhada sofrendo os traumas de dois abortos involuntários; a morte de um irmão que, mais do que tudo, era um cúmplice – sua imagem de espelho da conjugalidade paralela do pai Espanca; três casamentos fracassados, vários affaires, mesmo na vigência dos casamentos; períodos da Belle Époque à portuguesa; obra literária escassamente reconhecida…

Hoje alguns poemas de Florbela fazem parte do património da cultura portuguesa, lidos, cantados, declamados. Exprimirão essa catacterística tão subtil que muitos classificam de espírito feminino? Quantos enigmas da sua personalidade estarão por desvendar?  

FM

 

Imagem1“Eu quero amar, amar perdidamente!/ Amar só por amar: Aqui… além…/ Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente/ Amar! Amar! E não amar ninguém!// Recordar? Esquecer? Indiferente!…/Prender ou desprender? É mal? É bem?/ Quem disser que se pode amar alguém/ Durante a vida inteira é porque mente!// Há uma Primavera em cada vida:/ É preciso cantá-la assim florida,/ Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!//E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada/ Que seja a minha noite uma alvorada,/ Que me saiba perder… pra me encontrar…”   Imagem2Foi próximo do Palácio de Vila Viçosa que Florbela nasceu, na que hoje se chama Rua Bento de Jesus Caraça, e na vila a criança se manteve entre 1899 e 1908, onde frequentou a escola primária.

Imagem3Fotografia do edifício onde nasceu Florbela em 1894.

Imagem4Nos anos 40, o edifício foi demolido. Este é um Memorial que o evoca.

Imagem5Até que ponto a opulência do Palácio, a proximidade com os reis que aqui passavam largas temporadas viriam a influenciá-la no requinte e até snobismo e vaidade que evidenciaria nos círculos boémios e literários que frequentou, nomeadamente durante a sua vida em Lisboa? Porém, na sua obra não se encontra referência ao regicídio, nem de ter sido daqui que partiu D. Carlos em 1 de Fevereiro, tinha ela 13 anos, para a sua última ida a Lisboa. Significativo foi também o facto de se encontrar em Lisboa, hospedada no Hotel Franckfort no Rossio, hoje desaparecido, quando ocorreu o 5 de Outubro que derrubou a monarquia. Talvez que o facto de seu pai ser republicano convicto, a tivesse influenciado.

Imagem6Com o pai e o irmão Apeles, mais novo que ela três anos. O pai era um homem eclético: passou de sapateiro a antiquário e negociante em cabedais, abriu uma casa de fotografia, foi pioneiro do animatógrafo; e atribuía-se-lhe talento  para o desenho e pintura. Como do seu casamento  não podiam resultar filhos, com a condescência da esposa, procurou uma mulher de condição humilde (criada de servir) para conseguir descendência. Essa mulher era muito bonita e quando a criança nasceu (Florbela, de seu nome) foi levada para casa do pai, onde a mãe só entrava para amamentar. A “madrasta” – a quem chamava madrinha, tê-la-á tratado como se filha biológica se tratasse.

Imagem7Mas o pai, que tinha fama de conquistador, tomara o gosto pela mãe de Florbela e, como desejasse um filho varão, ainda nasceu mais uma criança, Apeles de seu nome. Depois, a mãe de ambos deixou Vila Viçosa, após ter-se envolvido em nova relação.

Imagem8“Eu sou a que no mundo anda perdida/ Eu sou a que na vida não tem norte/ Sou a irmã do Sonho, e desta sorte/ Sou a crucificada… a dolorida…// Sombra de névoa ténue e esvaecida,/ E que o destino, amargo, triste e forte,/ Impele brutalmente para a morte!/ Alma de luto sempre incompreendida!// Sou aquela que passa e ninguém vê/ Sou a que chamam triste sem o ser…/ Sou a que chora sem saber porquê…// Sou talvez a visão que Alguém sonhou…/ Alguém que veio ao mundo pra me ver/ E que nunca na vida me encontrou!”

Imagem9Em 1908 – ano em que a mãe biológica  morreu de parto, Florbela e a família foram para Évora, para a jovem prosseguir os seus estudos no Liceu André Gouveia, com o chamado Curso Geral do Liceu, que concluiu em 1912.

Imagem10Florbela no Redondo, em criança (canto inferior esquerdo).

Imagem11Vista atual dos claustros da Universidade de Évora, onde na época funcionava o Liceu. Em 1911, começou a namorar com Alberto Moutinho, mas após uma interrupção ditada por nova paixão que lhe teria deixado marcas profundas, recomeça o namoro e, a 8 de Dezembro de 1913, casou com Alberto Moutinho, parece que para se refazer do fracasso anterior. Tem 19 anos.

Imagem12Com Alberto Moutinho, seu colega do liceu e primeiro marido. Em 1914, o casal mudou-se para o Redondo, onde abre um colégio e lecciona. Numa festa do colégio, Florbela recita em público, pela primeira vez, versos seus. Em 1916, a revista “Modas e bordados” publica um soneto seu e Florbela torna-se amiga da diretora e da subdiretora da revista, Júlia Alves, com quem, iniciou correspondência que se manteve.

Imagem13Em 1917, após regresso a Évora, Florbela completou o Curso Complementar de Letras (atual 11º ano). Apesar de querer seguir essa área, acabou por se inscrever na Faculdade de Direito de Lisboa. Aqui a sua vida iria transformar-se.

Imagem14Na capital, acompanhada pelo marido, leva uma vida boémia. Consegue integrar-se num círculo literário, típico da época. No plano conjugal mostrar-se-á agressiva, embora a poesia a evidencie triste e só. A sua postura oscila entre a intelectual e a convencional.

Imagem15Toulouse-Lautrec. Florbela é uma mulher elegante, culta, insinuante. Mostra a sua vertente atrevida. Fuma em público, choca os preconceitos. Apenas em Lisboa e Porto  se respira, e em núcleos muito limitados, um certo ambiente de “Belle Époque”… O seu talento talvez seja motivo de inveja. Os críticos literários ignoram-na.

Imagem16No casamento com Moutinho ocorre um aborto involuntário que terá deixado sequelas, nomeadamente manifestações de depressão. Fez um período de repouso em Olhão e regressou a Lisboa. No princípio de 1920, conheceu um jovem oficial da GNR, António Guimarães por quem se apaixonou. Começam a viver juntos, o que leva ao divórcio de Florbela. Entretanto, em 1919 fora publicado com a ajuda de Raúl Proença (um dos fundadores da Seara Nova), o seu primeiro livro de sonetos, Livro de Mágoas.

Imagem17Casa-se com Guimarães em 1921. O casal passa a residir no Porto, mas, no ano seguinte, transfere-se para Lisboa, onde o marido é nomeado chefe de gabinete do Ministro do Exército. Florbela, em edição paga pelo pai, publica Livro de Soror Saudade. Mas tanto esta nova obra como o Livro de Mágoas, de um modo geral, apenas suscitam comentários de escárnio ou insinuações. Ou pior: indiferença. Para sobreviver, Florbela dá explicações de português, francês e inglês.

Imagem18As relações do novo casal são tumultuosas. Em 1923 há acusações recíprocas de agressões por parte das duas famílias. No final do ano, António Guimarães inicia o processo de divórcio, mas ela vive já em casa de Mário Lage, um médico que tem vindo a tratá-la. A família de Florbela escandaliza-se e corta relações com ela. No ano seguinte Florbela casa com Mário Lage. Porém, o espólio pessoal de Antonio Guimarães reúne o mais abundante material publicado sobre Florbela, desde 1945 até 1981, ano do falecimento de Guimarães.

Imagem19Mário Lage é médico militar no mesmo Destacamento de Artilharia do Porto e ter-lhe-á proporcionado  conforto e segurança. Em 1922 Lage passou a exercer as funções de subdelegado de saúde de Matosinhos. Talvez tivessem sido os problemas de saúde de Florbela que os teriam aproximado. Casou com ele em Outubro de 1925.

Imagem20É próximo do Porto, em Esmoriz, no concelho de Ovar que vem viver com Mário Lage. Finalmente, em 1926 muda de residência, passando a habitar em Matosinhos, na casa dos sogros.

Imagem21Matosinhos –  Escultura da autoria de Irene Vilar. “Quem nos deu asas para andar de rastos?/ Quem nos deu olhos para ver os astros/ Sem nos dar braços para os alcançar?” FLORBELA ESPANCA

Imagem22É, pois, na região do Porto que passa a viver Florbela.

Imagem23Café Majestic, no Porto

Imagem24Esmoriz (Ovar), onde morou com Lage de 1923 a 1926.

Imagem25Dois anos depois, enquanto traduz romances franceses para a Livraria Civilização no Porto (que publica trabalhos seus) e prepara o livro de contos “O Dominó Preto”, morre o irmão Apeles, o que lhe adensa a tristeza. A relação com o marido desgasta-se progressivamente. É neste período que, possivelmente, se apaixona pelo pianista Luís Maria Cabral, a quem dedica «Chopin» e «Tarde de Música». Quando o caso termina faz uma tentativa de suicídio.

Imagem26Apeles Espanca. Com o irmão sempre manteve uma relação afetiva muito próxima, havendo insinuações de incesto, que nunca se comprovaram. O irmão era oficial da Marinha e decidira fazer o curso de piloto-aviador para entrar na Aviação Naval.

Imagem27Apeles morreu num acidente de aviação, especulando-se se terá deliberadamente atirado o avião sobre o Tejo, junto à Torre de Belém, desesperado com a morte da namorada. O corpo de Apeles nunca foi encontrado. A sua morte teve em Florbela um efeito devastador.

Imagem28

Imagem29A melancolia e a saudade são recorrentes na poesia de Florbela. À medida que o tempo, e as deceções e tragédias se sucedem, os sintomas agravam-se. Surgem pulsões suicidas. A saúde física é frágil. Talvez sofresse de tuberculose pulmonar que não foi diagnosticada. Mas o distúrbio principal é de natureza psicológica. Para alguns, seria uma doente bipolar, com fases de depressão predominantes.

Imagem30Tem ainda um caso com o advogado Ângelo César, no Grande Hotel do Porto

Imagem31Óleo sobre tela (35×25) de Ana Paula Lopes. Aurélia Borges, sua amiga e confidente, diz que “o amor era por parte de Florbela uma procura quase doentia”. Também quando acaba o caso com César, faz uma tentativa de suicídio.

Imagem32Esta foi a última residência de Florbela, em Matosinhos. Nesta casa encontrou uma família que a aceitou e acarinhou. Todos procuraram apoiá-la na sua melancolia e males físicos. E foi aqui também que fez a terceira e última tentativa de suicídio por ingestão de barbitúricos, desta vez bem sucedida. A pulsão pela morte fora mais forte.

Imagem33Campa de Florbela Espanca no cemitério de Vila Viçosa, onde jaz desde 1964

Imagem34Vila Viçosa – Estátua de Florbela Espanca e cine-teatro com o seu nome em fundo

2

Na praia, como por carta, fez confidências a Guido Bottelli, professor de Italiano na Universidade de Coimbra e seu admirador, e que haveria de defender a importância da poesia e traduzi-la para italiano. No entanto, segundo Agustina Bessa-Luis, Bottelli terá praticado omissões e adulterações na publicação das cartas da poetisa e usado de más-intenções a aleivosias contra ela… Mas, eis fragmentos do que, sobre Florbela escreveu Bottelli, em Juvenilia:

Imagem36O que mais a torturava era a incompreensão da gente e a impossibilidade de exprimir a ânsia profunda do seu espírito”. “Portuguesa, bem portuguesa esta heróica alma de Mulher, que considera a vida um combate, e julga nada ser melhor que cair no campo de batalha, por, uma causa sagrada, e ao combatente glorioso oferece o seu amor para viver e para morrer junto com ele!” “Já disse que Florbela Espanca não fez da poesia um jogo de espírito, uma amostra de habilidade em escrever versos ou arranjar rimas, mas cantou chorando, derramou a sua alma no canto. A sua poesia desvairada, ululante, foi o eco sincero da sua alma torturada e crucificada.”

Imagem37Florbela fez uma vida social intensa. As suas toilettes, os chapéus, a vida mundana fizeram escola. Mas no íntimo viveu o conflito entre o seu aparente estatuto cosmopolita, da posição social dos pais de Mário Lage com a sua verdadeira origem de filha ilegítima, nascida na raia alentejana.

Imagem38

Imagem39Charneca em flor, o livro de poesia mais importante de Florbela, editado já depois da sua morte, e do qual apenas reviu as provas das primeiras folhas. Foi Guido Battelli, professor de Italiano na Universidade de Coimbra, com quem manteve correspondencia assídua, que haveria de defender a importancia da poesia de Florbela e promoveu a sua divulgação.

Imagem40Ilustração de GoséMeu amor, meu Amado, vê… repara:/ Pousa os teus lindos olhos de oiro em mim,/ – Dos meus beijos de amor Deus fez-me avara/ Para nunca os contares ate ao fim. // Meus olhos têm tons de pedra rara/ – É só para teu bem que os tenho assim/  – E as minhas mãos são fontes de água clara/ A cantar sobre a sede dum jardim.// Sou triste como a folha ao abandono/ Num parque solitário, pelo Outono,/ Sobre um lago onde vogam nenufares…// Deus fez-me atravessar o teu caminho…/ – Que contas dás a Deus indo sozinho,/ Passando junto a mim, sem me encontrares? –

Imagem41Para aqueles fantasmas que passaram,/ Vagabundos a quem jurei amar,/ Nunca os meus braços lânguidos traçaram/ O vôo dum gesto para os alcançar…// Se as minhas mãos em garra se cravaram/ Sobre um amor em sangue a palpitar…/ Quantas panteras bárbaras mataram/ Só pelo raro gosto de matar!// Minha alma é como a pedra funerária/ Erguida na montanha solitária/ Interrogando a vibração dos céus!/ O amor dum homem? – Terra tão pisada!/ Gota de chuva ao vento baloiçada…/ Um homem? – Quando eu sonho o amor dum deus!…

Imagem42Este querer-te bem sem me quereres,/ Este sofrer por ti constantemente,/ Andar atrás de ti sem tu me veres/ Faria piedade a toda a gente./ Mesmo a beijar-me a tua boca mente…/ Quantos sangrentos beijos de mulheres/ Pousa na minha a tua boca ardente,/ E quanto engano nos seus vãos dizeres!…// Mas que me importa a mim que me não queiras,/ Se esta pena, esta dor, estas canseiras,/ Este mísero pungir, árduo e profundo,// Do teu frio desamor, dos teus desdéns,/ É, na vida, o mais alto dos meus bens?/ É tudo quanto eu tenho neste mundo?

Imagem43Enche  o meu peito, num encanto mago,/ O frémito das coisas dolorosas …/ Sob as urzes queimadas nascem rosas … /Nos meus olhos as lágrimas apago … //Anseio ! Asas abertas ! O que trago/  Em mim ? Eu oiço bocas silenciosas/ Murmurar-me as palavras misteriosas/  Que perturbam meu ser como um afago!// E, nesta febre ansiosa que me invade,/ Dispo a minha mortalha, o meu burel,/ E já não sou, Amor, Soror Saudade …// Olhos a arder em êxtases de amor,/ Boca a saber a sol, a fruto, a mel:/  Sou a charneca rude a abrir em flor!

Imagem44Diluído numa taça de oiro a arder/  Toledo é um rubi. E hoje é só nosso!/  O sol a rir… Vivalma… Não esboço/ Um gesto que me não sinta esvaecer…//As tuas mãos tacteiam-me a tremer…/ Meu corpo de âmbar, harmonioso e moço/ É como um jasmineiro em alvoroço/ Ébrio de sol, de aroma, de prazer!// Cerro um pouco o olhar onde subsiste/ Um romântico apelo vago e mudo,/ – Um grande amor é sempre grave e triste. / Flameja ao longe o esmalte azul do Tejo…/ Uma torre ergue ao céu um grito agudo…/ Tua boca desfolha-me num beijo…

Imagem45Altiva e couraçada de desdém/ Vivo sozinha em meu castelo, a Dor… / Debruço-me às ameias ao sol-pôr / E ponho-me a cismar não sei em quem!// Castelã da Tristeza vês alguém?!… / – E o meu olhar é interrogador… / E rio e choro! É sempre o mesmo horror / E nunca, nunca vi passar ninguém! //- Castelã da Tristeza, porque choras, /Lendo toda de branco um livro de horas, / À sombra rendilhada dos vitrais?…// Castelã da Tristeza, é bem verdade, / Que a tragédia infinita é a Saudade! / Que a tragédia infinita é Nunca Mais!!

Imagem46Amiga… noiva… irmã… o que quiseres!/ Por ti, todos os céus terão estrelas,/ Por teu amor, mendiga, hei-de merecê-las,/Ao beijar a esmola que me deres.// Podes amar até outras mulheres!/ – Hei de compor, sonhar palavras belas,/ Lindos versos de dor só para elas, /Para em lânguidas noites lhes dizeres!// Crucificada em mim, sobre os meus braços,/ Hei de poisar a boca nos teus passos/ Pra não serem pisados por ninguém.// E depois… Ah! depois de dores tamanhas,/ Nascerás outra vez de outras entranhas,/ Nascerás outra vez de uma outra Mãe

Imagem47Eu queria ser o Mar de altivo porte / Que ri e canta, a vastidão imensa! /Eu queria ser a Pedra que não pensa, / A pedra do caminho, rude e forte! //Eu queria ser o Sol, a luz imensa, / O bem do que é humilde e não tem sorte! / Eu queria ser a árvore tosca e densa / Que ri do mundo vão e até a morte! // Mas o Mar também chora de tristeza … / As árvores também, como quem reza, / Abrem, aos Céus, os braços, como um crente! // E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia, / Tem lágrimas de sangue na agonia! / E as Pedras … essas … pisa-as toda a gente! …

Imagem48Filhos são as nossas almas,/ Desabrochadas em flores;/ Filhos, estrelas caídas/ No fundo das nossas dores!// Filhos, aves que chilreiam/ No ninho do nosso amor,/ Mensageiros da felicidade/ Mandados pelo senhor!// Filhos, sonhos adorados,/ Beijas que nascem de risos;/ Sol que aquenta e dá luz/ E se desfaz em sorrisos!// Em todo o peito bendito/ Criado pelo bom Deus,/ Há uma alma de mãe/ Que sofre p´los filhos seus!// Filhos! Na su´alma casta,/ A nossa alma revive…/ Eu sofro pelas saudades/ Dos filhos que nunca tive!…

Imagem49“Eu sou a que no mundo anda perdida/ Eu sou a que na vida não tem norte/ Sou a irmã do Sonho, e desta sorte/ Sou a crucificada… a dolorida… // Sombra de névoa ténue e esvaecida,/ E que o destino, amargo, triste e forte,/ Impele brutalmente para a morte!/ Alma de luto sempre incompreendida!// Sou aquela que passa e ninguém vê/ Sou a que chamam triste sem o ser…/ Sou a que chora sem saber porquê…// Sou talvez a visão que Alguém sonhou…/ Alguém que veio ao mundo pra me ver/ E que nunca na vida me encontrou!”

Imagem50Rasga esses versos que eu te fiz, amor!/ Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,/ Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,/ Que a tempestade os leve aonde for!// Rasga-os na mente, se os souberes de cor,/ Que volte ao nada o nada de um momento!/ Julguei-me grande pelo sentimento,/ E pelo orgulho ainda sou maior!…// Tanto verso já disse o que eu sonhei!/ Tantos penaram já o que eu penei!/ Asas que passam, todo o mundo as sente…// Rasgas os meus versos… Pobre endoidecida!/ Como se um grande amor cá nesta vida/ Não fosse o mesmo amor de toda a gente!…

Imagem51Para aqueles fantasmas que passaram,/ Vagabundos a quem jurei amar,/ Nunca os meus braços lânguidos traçaram/ O vôo dum gesto para os alcançar… // Se as minhas mãos em garra se cravaram/ Sobre um amor em sangue a palpitar… / – Quantas panteras bárbaras mataram/ Só pelo raro gosto de matar!// Minha alma é como a pedra funerária/ Erguida na montanha solitária/ Interrogando a vibração dos céus!// O amor dum homem? – Terra tão pisada!/  Gota de chuva ao vento baloiçada…/ Um homem? – Quando eu sonho o amor dum deus!…

Imagem52Dize-me, Amor, como te sou querida,/ Conta-me a glória do teu sonho eleito./ Aninha-me a sorrir junto ao teu peito,/ Arranca-me dos pântanos da vida. // Embriagada numa estranha lida,/ Trago nas mãos o coração desfeito./ Mostra-me a luz, ensina-me o preceito/ Que me salve e levante redimida! //Nesta negra cisterna em que me afundo,/ Sem quimeras, sem crenças, sem ternura,/ Agonia sem fé dum moribundo,//Grito o teu nome numa sede estranha,/ Como se fosse, Amor, toda a frescura/ Das cristalinas águas da montanha! 

Imagem53Aqueles que me têm muito amor/ Não sabem o que sinto e o que sou…/ Não sabem que passou, um dia, a Dor/ À minha porta e, nesse dia, entrou.//E é desde então que eu sinto este pavor,/ Este frio que anda em mim, e que gelou/ O que de bom me deu Nosso Senhor!/ Se eu nem sei por onde ando e onde vou!! // Sinto os passos de Dor, essa cadência/ Que é já tortura infinda, que é demência!/ Que é já vontade doida de gritar! //E é sempre a mesma mágoa, o mesmo tédio,/ A mesma angústia funda, sem remédio,/ Andando atrás de mim, sem me largar!

Imagem54Deixa-me ser a tua amiga, Amor,/ A tua amiga só, já que não queres/ Que pelo teu amor seja a melhor/ A mais triste de todas as mulheres.//Que só, de ti, me venha magoa e dor/ O que me importa a mim? O que quiseres/ É sempre um sonho bom! Seja o que for,/ Bendito sejas tu por mo dizeres!//Beijá-me as mãos, Amor, devagarinho…/Como se os dois nascessemos irmãos,/ Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho…//Beija-mas bem!… Que fantasia louca/ Guardar assim, fechados, nestas mãos,/ Os beijos que sonhei pra minha boca!

Imagem55

Se me ponho a cismar em outras eras/ Em que rí e cantei, em que era querida,/ Parece-me que foi outras esferas,/ Parece-me que foi numa outra vida…//E a minha triste boca dolorida/ Que dantes tinha o rir das primaveras,/ Esbate as linhas graves e severas/E cai num abandono de esquecida!// E fico, pensativa, olhando o vago…/Toma a brandura plácida dum lago/ O meu rosto de monja de marfim…//E as lágrimas que choro, branca e calma,/ Ninguém as vê brotar dentro da alma!/ Ninguém as vê cair dentro de mim!

Imagem56Évora! Ruas ermas sob os céus/ Cor de violetas roxas … Ruas frades/ Pedindo em triste penitência a Deus/ Que nos perdoe as míseras vaidades!// Tenho corrido em vão tantas cidades!/ E só aqui recordo os beijos teus! E só aqui eu sinto que são meus/ Os sonhos que sonhei noutras idades!// vora! … O teu olhar … o teu perfil …/ Tua boca sinuosa, um mês de Abril,/ Que o coração no peito me alvoroça!//… Em cada viela o vulto dum fantasma …/ E a minh’alma soturna escuta e pasma …/ E sente-se passar menina e moça … 

Imagem57Ó minha terra na planície rasa,/ Branca de sol e cal e de luar,/ Minha terra que nunca viu o mar/ Onde tenho o meu pão e a minha casa…//Minha terra de tardes sem uma asa, / Sem um bater de folha… a dormitar…/ Meu anel de rubis a flamejar,/Minha terra mourisca a arder em brasa!// Minha terra onde meu irmão nasceu… / Aonde a mãe que eu tive e que morreu, / Foi moça e loira, amou e foi amada…// Truz… truz… truz… Eu não tenho onde me acoite, / Sou um pobre de longe, é quase noite…/ Terra, quero dormir… dá-me pousada!

Imagem58Busto de Florbela Espanca, da autoria do escultor Diogo de Macedo, no Jardim Público de Évora

Imagem59

Imagem60

Olhos do meu Amor! Infantes loiros/ Que trazem os meus presos, endoidados!/ Neles deixei, um dia, os meus tesouros:/ Meus anéis, minhas rendas, meus brocados.// Neles ficaram meus palácios moiros,/ Meus carros de combate, destroçados,/ Os meus diamantes, todos os meus oiros/ Que trouxe d’Além-Mundos ignorados!//Olhos do meu Amor! Fontes… cisternas…/ Enigmáticas campas medievais…/Jardins de Espanha… catedrais eternas…// Berço vindo do Céu à minha porta…/ Ó meu leito de núpcias irreais!…/ Meu sumptuoso túmulo de morta!…

Imagem61

“Estou cansada, cada vez mais incompreendida e insatisfeita comigo, com a vida e com os outros. Diz-me, porque não nasci igual aos outros, sem dúvidas, sem desejos de impossível? E é isto que me traz sempre desvairada, incompatível com a vida que toda a gente vive…“ – Correspondência (1930)

Imagem62Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida/ Meus olhos andam cegos de te ver!/ Não és sequer razão de meu viver,/ Pois que tu és já toda a minha vida!// Não vejo nada assim enlouquecida…/ Passo no mundo, meu Amor, a ler/ No misterioso livro do teu ser/ A mesma história tantas vezes lida!// Tudo no mundo é frágil, tudo passa…/ Quando me dizem isto, toda a graça/ Duma boca divina fala em mim!// E, olhos postos em ti, vivo de rastros:/ “Ah! Podem voar mundos, morrer astros,/ Que tu és como Deus: princípio e fim!…”

Imagem63“Viverei com certeza um terço do que poderia viver porque todas as pedras me ferem, todos os espinhos me laceram. Dom Quixote sem crenças nem ilusões, batalho continuamente por um ideal que não existe; e esta constante exaltação, desesperada e desiludida, destrambelha-me os nervos e mata-me.”
“Eu julgo que a mulher verdadeiramente digna é aquela a quem repugna uma traição, seja ela de que natureza for.
” – Correspondência (1912)

Imagem64“O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades… sei lá de quê!” Fonte – Correspondência (1930)

Imagem65Este querer-te bem sem me quereres, / Este sofrer por ti constantemente, / Andar atrás de ti sem tu me veres / Faria piedade a toda a gente. // Mesmo a beijar-me a tua boca mente… / Quantos sangrentos beijos de mulheres / Pousa na minha a tua boca ardente, / E quanto engano nos seus vãos dizeres!… //Mas que me importa a mim que me não queiras, / Se esta pena, esta dor, estas canseiras, /Este mísero pungir, árduo e profundo, // Do teu frio desamor, dos teus desdéns, / É, na vida, o mais alto dos meus bens? /É tudo quanto eu tenho neste mundo?

Imagem66Tardes da minha terra, doce encanto, / Tardes duma pureza de açucenas, / Tardes de sonho, as tardes de novenas, /Tardes de Portugal, as tardes de Anto, // Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto! / Horas benditas, leves como penas, / Horas de fumo e cinza, horas serenas, / Minhas horas de dor em que eu sou santo! // Fecho as pálpebras roxas, quase pretas, / Que poisam sobre duas violetas, / Asas leves cansadas de voar … // E a minha boca tem uns beijos mudos … / E as minhas mãos, uns pálidos veludos, / Traçam gestos de sonho pelo ar …

Imagem67Mais alto, sim! mais alto, mais além / Do sonho, onde morar a dor da vida, / Até sair de mim! Ser a Perdida, / A que se não encontra! Aquela a quem //O mundo não conhece por Alguém! / Ser orgulho, ser águia na subida, /Até chegar a ser, entontecida,
Aquela que sonhou o meu desdém! //Mais alto, sim! Mais alto! A Intangível! / Turris Ebúrnea erguida nos espaços, / A rutilante luz dum impossível! // Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber / O mal da vida dentro dos meus braços, // Dos meus divinos braços de Mulher!

Imagem68

“Tenho que aprender o que ainda não sei: a ser humilde e modesta. Perdoe sempre o meu ridículo orgulho de pobre soberba; mas o orgulho tem sido a minha suprema defesa, tem sido o meu amparo e a minha força. Devo-lhe tantos e tão bons serviços!”
Fonte – Correspondência (1930)

Imagem69Meu coração da cor dos rubros vinhos / Rasga a mortalha do meu peito brando /E vai fugindo, e tonto vai andando / A perder-se nas brumas dos caminhos. // Meu coração o místico profeta, / O paladino audaz da desventura, /Que sonha ser um santo e um poeta, / Vai procurar o Paço da Ventura… //Meu coração não chega lá decerto… / Não conhece o caminho nem o trilho, / Nem há memória desse sítio incerto… // Eu tecerei uns sonhos irreais… / Como essa mãe que viu partir o filho, / Como esse filho que não voltou mais!

Imagem70Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem / Quem sou?! Um fogo-fátuo, uma miragem… / Sou um reflexo… um canto de paisagem / Ou apenas cenário! Um vaivém… // Como a sorte: hoje aqui, depois além! / Sei lá quem Sou?! Sei lá! Sou a roupagem / Dum doido que partiu numa romagem / E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!… // Sou um verme que um dia quis ser astro… / Uma estátua truncada de alabastro… / Uma chaga sangrenta do Senhor… // Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados, / Num mundo de vaidades e pecados, / Sou mais um mau, sou mais um pecador…

Imagem71A Noite vem poisando devagar / Sobre a terra que inunda de amargura… /E nem sequer a bênção do luar / A quis tornar divinamente pura..// Ninguém vem atrás dela a acompanhar / A sua dor que é cheia de tortura… / E eu oiço a Noite imensa soluçar! /E eu oiço soluçar a Noite escura! //Por que és assim tão escura, assim tão triste?! / É que, talvez, ó Noite, em ti existe /Uma Saudade igual à que eu contenho! //Saudade que eu sei donde me vem… / Talvez de ti, ó Noite!… Ou de ninguém!… /Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!

Imagem72Em ti o meu olhar fez-se alvorada,/E a minha voz fez-se gorjeio de ninho,/ E a minha rubra boca apaixonada/ Teve a frescura pálida do linho.// Embriagou-me o teu beijo como um vinho/ Fulvo de Espanha, em taça cinzelada,/ E a minha cabeleira desatada/ Pôs a teus pés a sombra dum caminho// Minhas pálpebras são cor de verbena,/ Eu tenho os olhos garços, sou morena,/ E para te encontrar foi que eu nasci…// Tens sido vida fora o meu desejo,/ E agora, que te falo, que te vejo,/ Não sei se te encontrei, se te perdi…

Imagem73Ódio por Ele? Não… Se o amei tanto, /:Se tanto bem lhe quis no meu passado, / Se o encontrei depois de o ter sonhado, / Se à vida assim roubei todo o encanto, // Que importa se mentiu? E se hoje o pranto / Turva o meu triste olhar, marmorizado, /Olhar de monja, trágico, gelado /Com um soturno e enorme Campo Santo! // Nunca mais o amar já é bastante! / Quero senti-lo doutra, bem distante, / Como se fora meu, calma e serena! //Ódio seria em mim saudade infinda, / Mágoa de o ter perdido, amor ainda! / Ódio por Ele? Não… não vale a pena…

Imagem74Deixa-me ser a tua amiga, Amor; /A tua amiga só, já que não queres / Que pelo teu amor seja a melhor / A mais triste de todas as mulheres. // Que só, de ti, me venha mágoa e dor /O que me importa a mim?!/ O que quiseres É sempre um sonho bom! Seja o que for, /Bendito sejas tu por mo dizeres!//Beija-me as mãos, Amor, devagarinho… / Como se os dois nascêssemos irmãos, / Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho… // Beija-mas bem!… Que fantasia louca / Guardar assim, fechados, nestas mãos / Os beijos que sonhei pra minha boca!…

Imagem75Procurei o amor, que me mentiu./ Pedi à Vida mais do que ela dava;/ Eterna sonhadora edificava/ Meu castelo de luz que me caiu!// Tanto clarão nas trevas refulgiu,/ E tanto beijo a boca me queimava!/ E era o sol que os longes deslumbrava/ Igual a tanto sol que me fugiu!// Passei a vida a amar e a esquecer…/ Atrás do sol dum dia outro a aquecer/ As brumas dos atalhos por onde ando…/ E este amor que assim me vai fugindo/ É igual a outro amor que vai surgindo,/ Que há-de partir também… nem eu sei quando…

Imagem76Meio-dia. O sol a prumo cai ardente,/ Dourando tudo…ondeiam nos trigais/ D´ouro fulvo, de leve…docemente…/ As papoulas sangrentas, sensuais…//Andam asas no ar; e raparigas,/ Flores desabrochadas em canteiros,/ Mostram por entre o ouro das espigas/ Os perfis delicados e trigueiros…// Tudo é tranqüilo, e casto, e sonhador…/Olhando esta paisagem que é uma tela/ De Deus, eu penso então: onde há pintor,// Onde há artista de saber profundo,/ Que possa imaginar coisa mais bela,/ Mais delicada e linda neste mundo?!

Imagem77Aguarela de Julio Resende

Imagem78Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,/  A essa hora dos mágicos cansaços,/ Quando a noite de manso se avizinha,/ E me prendesses toda nos teus braços…/ Quando me lembra: esse sabor que tinha /A tua boca… o eco dos teus passos…/ O teu riso de fonte… os teus abraços…/ Os teus beijos… a tua mão na minha…// Se tu viesses quando, linda e louca,/Traça as linhas dulcíssimas dum beijo /E é de seda vermelha e canta e ri //E é como um cravo ao sol a minha boca…/ Quando os olhos se me cerram de desejo… /E os meus braços se estendem para ti…

Imagem79Frémito do meu corpo a procurar-te,/ Febre das minhas mãos na tua pele/ Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,/ Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,// Olhos buscando os teus por toda a parte,/ Sede de beijos, amargor de fel,/ Estonteante fome, áspera e cruel,/ Que nada existe que a mitigue e a farte!// E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma/ Junto da minha, uma lagoa calma,/ A dizer-me, a cantar que me não amas…//E o meu coração que tu não sentes,/ Vai boiando ao acaso das correntes,/ Esquife negro sobre um mar de chamas… 

Imagem80“Estou cansada, cada vez mais incompreendida e insatisfeita comigo, com a vida e com os outros. Diz-me, porque não nasci igual aos outros, sem dúvidas, sem desejos de impossível? E é isto que me traz sempre desvairada, incompatível com a vida que toda a gente vive…“ Correspondência (1930)

Imagem81Horas mortas… Curvada aos pés do Monte / A planície é um brasido… e, torturadas,/  As árvores sangrentas, revoltadas,/  Gritam a Deus a bênção duma fonte!//  E quando, manhã alta, o sol posponte/  A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,/  Esfíngicas, recortam desgrenhadas/  Os trágicos perfis no horizonte!//  Árvores! Corações, almas que choram,/  Almas iguais à minha, almas que imploram/  Em vão remédio para tanta mágoa!//  Árvores! Não choreis! Olhai e vede:/  – Também ando a gritar, morta de sede,  / Pedindo a Deus a minha gota de água!

Imagem82Tardes da minha terra, doce encanto, / Tardes duma pureza de açucenas, / Tardes de sonho, as tardes de novenas, /Tardes de Portugal, as tardes de Anto, // Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto! / Horas benditas, leves como penas, / Horas de fumo e cinza, horas serenas, / Minhas horas de dor em que eu sou santo! // Fecho as pálpebras roxas, quase pretas, / Que poisam sobre duas violetas, / Asas leves cansadas de voar … // E a minha boca tem uns beijos mudos … / E as minhas mãos, uns pálidos veludos, / Traçam gestos de sonho pelo ar …

Imagem83

Imagem84Em todas as épocas houve mulheres que tiveram fins trágicos ao perseguiram um sonho, uma paixão que puseram acima da própria vida. Isadora Duncan, Joana d’Arc são exemplos, apontados nesta obra. Pode Florbela integrar-se neste lote? Apaixonada, sim, por este e aquele, entregando-se, desesperada, à procura de um deus, quando só existem  homens. Arrebatada e disfórica, a sua causa estava dentro de si e era uma ilusão.

Imagem85Mulheres de percurso excepcional que se anteciparam ao seu tempo. Em algumas, as suas vidas foram um trajeto tremendo contra os preconceitos e a ignorância ou um combate heroico pela liberdade ou o avanço científico. Simone Veil, La Pasionaria, Marie Curie marcaram gerações e o progresso. Florbela foi uma mulher livre, de voz eloquente, mas amarrada a si própria, às suas contradições, aos seus enigmas.

Imagem86Simone de Beauvoir é um dos ícones do pensamento feminista, que viveu depois de Florbela. A sua relação sexual com Sartre (não a intelectual) e a promiscuidade, não terão prejudicado a sua futura vida afetiva? Pode amar-se “este e aquele e toda a gente e não amar ninguém”? O que é amar? “Quem disser que pode amar alguém por todo o sempre, é porque mente”.

Imagem87Em Portugal, nas primeiras décadas do séc XX, a questão da libertação da mulher não era ainda formulada. Apenas na sociedade boémia lisboeta surgiam os primeiros indícios de aceitação da liberdade sexual da mulher. Depois, a Universidade de Lisboa e a sua Faculdade de Direito (onde Florbela não concluiu o curso) não era a Sorbonne de Sartre e Simone. Portugal?  Um país bucólico, rural, apenas com lampejos de modernidade, a viver as convulsões da participação numa guerra que se traduziu em enorme hecatombe. Florbela foi uma mulher adiantada  para a sua época e que esboçou a luta pela libertação da mulher. Mas ficou-se pelos sentidos. E pelos afetos, pela  sinceridade dos afetos. Êxtase, depressão, desejo da morte. E um lirismo erótico admirável em muita da sua poesia.

Imagem88“A vida é apenas isto: um encadeamento de acasos bons e maus, encadeamento sem lógica, nem razão; é preciso a gente olhá-la de frente com coragem e pensar, mas sem desfalecimentos, que a nossa hora há-de vir, que a gente há-de ter um dia em que há-de poder dormir, e não ouvir, não ver, não compreender nada.”

Imagem89“É uma resposta aos que chamam ao suicídio um fim de cobardes e de fracos, quando são unicamente os fortes que se matam! Sabem lá esses pseudo-fortes o que é preciso de coragem para friamente, simplesmente, dizer um adeus à vida, à vida que é um instinto de todos nós, à vida tão amada e desejada a despeito de tudo, embora esta vida seja apenas um pântano infecto e imundo!” Fonte – Correspondência (1916)

Imagem90Poesia
1919 – Livro de Mágoas. Lisboa
1923 – Livro de Sóror Saudade. Lisboa:
1931 – Charneca em Flor. Coimbra 1931 Juvenília: versos inéditos de Florbela Espanca (com 28 sonetos inéditos). Estudo crítico de Guido Battelli. Coimbra
1934 . Sonetos Completos (Livro de Mágoas, Livro de Sóror Saudade, Charneca em Flor, Reliquiae). Coimbra: Livraria Gonçalves.

Prosa
1931 – As Máscaras do Destino. Porto
1981 – Diário do Último Ano. Prefácio de Natália Correia. Lisboa
1982 – O Dominó Preto. Prefácio de Y. K. Centeno. Lisboa

 

Imagem92Agradecimentos a Sandra Ramos e Ana Batalha

Imagem94Recomendados:
Florbela Espanca por Rolando Galvão  www.vidaslusófonas.pt
Ensaio sobre Florbela   www.angelfire.com
A Florbela de Agustina por Maria Lúcia Dal Farra
Forbela Espanca Uma vida perdida na neurose por Lidia Craveiro  www.psicologia.pt/artigos/textos/TL0065.pdf
Tocados pelo fogo . Livro sobre a Relação da Doença Bipolar e criação artísiticas, de Kay Redfield Jamison, com prefácio de José Manuel Jara.

Os autores agradecem a colaboração de Nacional Filmes Lda