Eça os fez, nós os juntámos

Eça fez uma crítica impiedosa à sociedade portuguesa do final do séc. XIX. Em Uma Campanha Alegre estão reunidos textos que, na sua maioria, mantêm toda a actualidade. Aí, passa à lupa (ou ao monóculo…) deputados, membros do Governo, padres, jornalistas…A decadência da vida portuguesa – pessoas e instituições, sem excepção, são magistralmente satirizados. Admirável o facto de a poder ter publicado – em forma de folhetim, com plena liberdade.
Porém, foi na ficção que Eça melhor denunciou vícios de carácter, não só na sociedade de Lisboa, como da província – mesquinhez, vaidade, hipocrisia, cobardia e tantos outros. Um catálogo de misérias humanas. Ele não foi só analista, tinha também uma faceta moralista: ao denunciar e ridicularizar os defeitos aguardava que tal permitisse corrigir os portadores.
São muitas as figuras que simbolizam esses defeitos, os quais não são só dessa época. Com diferentes roupagens e exuberância, existiram desde sempre, fazem parte da natureza humana. A genialidade da escrita de Eça fez que algumas das suas personagens fossem mesmo adoptadas como adjectivos que qualificam características precisas – um discurso “acaciano” é uma charla gongórica, redundante, vazia…
Cada figura é minuciosamente recortada. À medida que a narrativa avança os traços da sua personalidade e o seu aspecto físico tornam-se nítidos. São verdadeiros retratos, muitas vezes de gente grotesca e desprezível. Entre as mais hilariantes, talvez a figura de Teodorico Raposo de A relíquia, velho estudante coimbrão, amigo de estúrdia e mulheres, que no regresso a Lisboa se vê obrigado a fazer o papel de devoto papa-missas para tentar conquistar a confiança da tia…Engendra um esquema para lhe herdar a fortuna, ela que é uma beata fanática e desconfiada. Parte para a Terra Santa em peregrinação na mira de uma relíquia do Santo Sepulcro, mas o azar fá-lo trocar a coroa de espinhos pela camisa de noite de uma meretriz com quem se divertira em Alexandria…
A própria titi, D. Patrocínio das Neves. Alta, “muito seca”, sempre vestida de preto, com um grilhão de ouro no peito, e um lenço roxo sobre a cabeça a apertar no queixo. Solteira e rica. Implacável, com ódio visceral ao sexo, vive no Campo de Santana, rodeada por padres (seus consultores espirituais),.. Morre, pouco depois de ter expulsado o sobrinho de casa, após a troca da “relíquia”. A sua fortuna é repartida por padres e beatas, ficando para Teodorico apenas um óculo. Para ver a fortuna da titi – por um canudo!
Em Os Maias, outra figura exemplar – Palma Cavalão, personagem secundária, que desempenhará um papel fulcral na evolução da trama. Jornalista corrupto, cujo principal atributo seria saber lidar com prostitutas espanholas. É caricatura duma certa imprensa e de certos jornalistas que hoje titulam em letras garrafais escândalos  e vida privada do “jet-set”, “apimentando-os” quanto baste ou promovendo os seus protagonistas, à medida do marketing…“Vil bolinha de matéria pútrida”, assim é descrito Palma Cavalão. Como também “sujeito baixo, gordo, sem pescoço, com a cabeça sobre o prato, babujando uma metade de laranja”. A  pedido de outro crápula (Dâmaso Salcede), escreve uma notícia caluniosa com instruções para fazer divulgar o jornal junto de personalidades importantes. Porém, a troco de cem mil réis denuncia o mandante… Publica folhetins de baixo nível.
Há muitas outras figuras vis na galeria queiroziana, umas mais cínicas, outras mais fingidas, ou gananciosas, gabarolas, cobardes ou simplesmente patéticas. O padre Amaro e o Cónego Dias (de O Crime do Padre Amaro), Basílio e a criada Juliana (em O Primo Basílio), Artur Curvelo (em A Capital), etc. …
Vamos aqui apenas referir Dâmaso Salcede (Os Maias) e o Conselheiro Acácio (O Primo Basílio), retirando excertos da prosa de Eça de Queiroz. Esses textos são ilustrados com caricaturas de artistas de várias gerações, imagens de adaptações teatrais ou para cinema e fotografias actuais de Lisboa (quase todas), relacionadas com as narrativas.
Para concluir inventámos um pequeno folhetim em que estas duas personagens, como que saídas dos respectivos romances, passaram a ter vida própria. Em Lisboa de fim de século e à beira de mudança de regime (não de vícios), frequentando os mesmos locais, acabavam por conhecer-se. E conheciam-se, passavam nas mesmas ruas e falavam-se…


FM e PP

 

 

Os Maias retratam a vida lisboeta no final do Séc. XIX, num meio entre aristocrata e boémio. O enredo centra-se no envolvimento de Carlos da Maia e Maria Eduarda. Ele, jovem médico, “belo cavaleiro da Renascença”, regressado de Coimbra, onde fizera o Curso, e que vai viver com o avô, que o criara, após o suicídio do pai. Provem de uma família aristocrata. Culto, requintado, corajoso e frontal. Maria Eduarda vem de Paris com uma filha pequena e um brasileiro (Castro Gomes), seu suposto marido e que, afinal, não o era. “Divina”, doce, com grande sentido de dignidade. Apaixonam-se, ele aluga-lhe uma casa nos Olivais (A Toca). As peripécias são muitas até se descobrir que Maria Eduarda era, afinal, a irmã que a mãe de ambos levara quando abandonara o marido…

Na roda de amigos do Ramalhete (casa do avô, Afonso da Maia) pontificam João da Ega, anarquista excêntrico, cínico e provocador; Alencar, poeta romântico e temperamental; e Crujes, maestro e pianista, “com uma pontinha de génio”.Todos são idealistas e diletantes. A eles junta-se Dâmaso Salcede que vem a sentir-se despeitado pela aproximação entre Carlos e Maria Eduarda, ele que inicialmente fora visto com o casal Castro Gomes e insinuara a proximidade de romance com a mulher… Fanfarrão, presumido, intriguista, invejoso e cobarde. Autor de cartas anónimas para prejudicar Carlos da Maia e mandante de um artigo calunioso publicado em jornal. Instado a retratar-se ou a um duelo, prefere escrever uma carta, desculpando-se com o alcoolismo (de que não sofre)

O Primo Basílio é outra sátira, esta incidindo sobre a média burguesia de Lisboa, na mesma época dos Maias. Relata a história de um casal banal (Jorge e Luísa), em que o marido, engenheiro, tem de viajar para o Alentejo em trabalho. Um primo de Luísa, Basílio Brito, com quem namorara em jovem, regressa de Paris. É um conquistador e acaba por seduzi-la. Porém, o adultério é descoberto pela criada da casa que passa a exercer chantagem. Exigências de dinheiro, inversão de papeis (com a Senhora a servir a criada), a partida do primo para França – o qual se sentia já entediado, vão desesperando Luísa. A morte súbita da criada não resolve as dificuldades pois o marido descobre a traição. Luísa doente, acaba também por morrer.

No círculo de amizades da família destaca-se o Conselheiro Acácio, exemplo de hipocrisia, convencido, enfatuado, formalista, cultivando uma pose grandiloquente. O seu discurso é feito de banalidades, que profere em tom professoral. Ex- Director-Geral, fora nomeado conselheiro por carta régia, agraciado com a Comenda de Cavaleiro da Ordem de Santiago. Na sociedade era um moralista, com declarações a favor da sã moral e dos bons costumes. Vivia secretamente “amigado” com uma criada, que o atraiçoava.

(Ilust. de Bernardo Marques) “- Bom rapaz, este Dâmaso, dizia Alencar, travando de braço de Carlos….É lá muito dos Cohens, muito querido na sociedade. Rapaz de fortuna, filho do velho Silva, o agiota, que esfolou muito teu pai; e a mim também. Mas ele assina Salcede; talvez nome da mãe; ou talvez inventado. Bom rapaz… O pai era um velhaco! Parece que estou a ouvir o Pedro dizer-lhe com o seu ar de fidalgo, que o tinha e do grande: «Silva judeu, dinheiro, e a rodo!»… Outros tempos, meu Carlos, grandes tempos. Tempos de gente!”

“…E no silêncio que se fez, Dâmaso, que desde as informações sobre a rapariga do Ermidinha emudecera, ocupado a observar Carlos com religião, ergueu a voz pausadamente, disse, com um ar de bom senso e de finura: – Se as coisas chegassem a esse ponto, se pusessem assim feias, eu cá, á cautela, ia-me raspando para Paris… Ega pulou de gosto na cadeira. Eis ali, no lábio sintético de Dâmaso, o grito espontâneo e genuíno do brio português! Raspar-se, pirar-se!… Era assim que d’alto a baixo pensava a sociedade de Lisboa, a malta constitucional, desde El-rei nosso Senhor até aos cretinos de secretaria!…”

– Vimos agora lá em baixo – disse Craft indo sentar-se no divã, uma esplêndida mulher, com uma esplêndida cadelinha griffon, e servida por um esplêndido preto! O Sr. Dâmaso Salcede, que não despregava os olhos de Carlos, acudiu logo: Bem sei! Os Castro Gomes…Conheço-os muito…Vim com eles de Bordéus…Uma gente muito chique que vive em Paris. Carlos voltou-se, reparou mais nele, perguntou-lhe, afável e interessando-se – O Sr. Salcede chegou agora de Bordéus?”

~”Então essa senhora brasileira vive aqui?.. – [Dâmaso]Vive lá do outro lado. Estão aqui há quinze dias…Gente chique…E ela é de apetecer, Vossa Excelência reparou? Eu a bordo atirei-me…E ela dava cavaco! Mas tenho andado muito preso desde que cheguei, jantar aqui, soirée acolá, umas aventurazitas…Não tenho podido cá vir, deixei-lhe só bilhetes; mas trago-a debaixo de olho, que ela demora-se…Talvez cá venha amanhã, estou cá agora a sentir umas cócegas…E se me pilho só com ela, zás, ferro-lhe logo um beijo! Que eu cá, não sei se Vossa Excelência é a mesma coisa, mas eu cá, com mulheres, a minha teoria é esta: atracão!”

Vermute? Perguntou-lhe o criado, oferecendo a salva. -Sim, uma gotinha para o apetite. V. Exa. não toma Sr. Maia? Pois eu, assim que posso, é direitinho para Paris! Aquilo é que é! Isto aqui é um chiqueiro…Eu, em não indo lá todos os anos, acredite Vossa Excelência, até começo a andar doente. Aquele Boulevarzinho, hem!…Ai, eu gozo aquilo!…E sei gozar, sei gozar, que eu conheço aquilo a palmo…Tenho até um tio em Paris…

-E que tio! – exclamou Ega, aproximando-se. –Íntimo do Gambetta, tratam-se por tu, até vivem quase juntos…E não é só com o Gambetta; é com o Mac-Mahon, com o Rochefort, com o outro de que me esquece agora o nome, com todos os republicanos, enfim!…É tudo quanto ele queira. Vossa Excelência não o conhece? É um homem de barbas brancas…Era irmão de minha mãe, chamava-se Guimarães. Mas em Paris chamam-lhe Mr. de Guimaran…”

(Ilust. de Marly Mota) “Logo na manhã seguinte ao jantar do Central, o Sr. Salcede fora ao Ramalhete deixar os seus bilhetes, objectos complicados e vistosos, tendo ao ângulo, numa dobra simulada, o seu retratozinho em fotografia, um capacete com plumas por cima — DÂMASO CÂNDIDO DE SALCEDE, por baixo as suas honras — COMENDADOR DE CRISTO, ao fundo a sua adresse – Rua de S. Domingos, à Lapa; mas esta indicação estava riscada, e ao lado, a tinta azul, esta outra mais aparatosa – GRAND HÔTEL, BOULEVARD DES CAPUCINES, CHAMBRE N.°103.

Em seguida, procurou Carlos no consultório, confiou ao criado outro cartão. Enfim, uma tarde, no Aterro, vendo passar Carlos a pé, correu para ele, pendurou-se dele, conseguiu acompanhá-lo ao Ramalhete. Aí, logo desde o pátio, rompeu em admirações extáticas, como dentro de um museu, lançando, diante dos tapetes, das faianças e dos quadros, a sua grande frase: «Chique a valer!» Carlos levou-o para o fumoir, ele aceitou um charuto; e começou a explicar, de perna traçada, algumas das suas opiniões e alguns dos seus gostos…

…Considerava Lisboa chinfrim, e só estava bem em Paris — sobretudo por causa do género «fêmea» de que em Lisboa se passavam fomes: ainda que nesse ponto a Providência não o tratava mal. Gostava também do bricabraque; mas apanhava-se muita espiga, e as cadeiras antigas, por exemplo, não lhe pareciam cómodas para a gente se sentar. A leitura entretinha-o, e ninguém o pilhava sem livros à cabeceira da cama; ultimamente andava às voltas com Daudet, que lhe diziam ser muito chique, mas ele achava-o confusote. Em rapaz perdia sempre as noites, até às quatro ou cinco da madrugada, no delírio! Agora não, estava mudado e pacato; enfim, não dizia que de vez em quando não se abandonasse a um excessozinho; mas só em dias duples… E as suas perguntas foram terríveis…

…O Sr. Maia achava chique ter um cab inglês? Qual era mais elegante, assim para um rapaz da sociedade que quisesse ir passar o Verão lá fora, Nice ou Trouville?… Depois ao sair, muito sério, quase comovido, perguntou ao Sr. Maia (se o Sr. Maia não fazia segredo) quem era o seu alfaiate”

“E desde esse dia, não o deixou mais. Se Carlos aparecia no teatro, Dâmaso imediatamente arrancava-se da sua cadeira, às vezes na solenidade de uma bela ária, e pisando os botins dos cavalheiros, amarrotando a compostura das damas, abalava, abria de estalo a claque, vinha-se instalar na frisa, ao lado de Carlos, com a bochecha corada, camélia na casaca, exibindo os botões de punho que eram duas enormes bolas. Uma ou duas vezes que Carlos entrara casualmente no Grémio, Dâmaso abandonou logo a partida, indiferente à indignação dos parceiros, para se vir colar à ilharga do Maia, oferecer-lhe marrasquino ou charutos, segui-lo de sala em sala como um rafeiro…

…Numa dessas ocasiões, tendo Carlos soltado um trivial gracejo, eis o Dâmaso rompendo em risadas soluçantes, rebolando-se pelos sofás, com as mãos nas ilhargas a gritar que rebentava! Juntaram-se sócios; ele, sufocado, repetia a pilhéria; Carlos fugiu vexado. Chegou a odiá-lo; respondia-lhe só com monossílabos; dava voltas perigosas com o dog-cart, se lhe avistava de longe a bochecha, a coxa roliça. Debalde: Dâmaso Cândido de Salcede filara-o, e para sempre.”

“Depois, um dia, Taveira apareceu no Ramalhete com uma extraordinária história. Na véspera, no Grémio (tinham-lhe contado, ele não presenciara) um sujeito, um Gomes, num grupo onde se comentavam os Maias, erguera a voz, exclamara que Carlos era um asno! Dâmaso, que estava ao lado, mergulhado na “Ilustração”, levantou-se, muito pálido, declarou que, tendo a honra de ser amigo do Sr. Carlos da Maia, quebrava a cara com a bengala ao Sr. Gomes se ele ousasse balbuciar outra vez esse cavalheiro; e o Sr. Gomes tragou, com os olhos no chão, a afronta, por ser raquítico —e porque era inquilino de Dâmaso e andava muito atrasado na renda. Afonso da Maia achou este feito brilhante; e foi por que desejo seu que Carlos trouxe o Sr. Salcede uma tarde a jantar ao Ramalhete.”

“Este dia pareceu belo a Dâmaso, como se fosse feito de azul e ouro. Mas melhor ainda foi a manhã em que Carlos, um pouco incomodado e ainda deitado, o recebeu no quarto, como entre rapazes… Daí datava a sua intimidade: começou a tratar Carlos por você. Depois, nessa semana, revelou aptidões úteis. Foi despachar à Alfândega (Vilaça achava-se no Alentejo) um caixote de roupa para Carlos. Tendo aparecido num momento em que Carlos copiava um artigo para a “Gazeta Médica”, ofereceu a sua boa letra, letra prodigiosa, de uma beleza litográfica; e daí por diante passava horas à banca Carlos, aplicado e vermelho, com a ponta da língua de fora, redondo, copiando apontamentos, transcrições de revistas, materiais para o livro… Tanta dedicação merecia um tu de familiaridade. Carlos deu-lho.”

(Ilust. de Julio de Sousa) – “Dâmaso, no entanto, imitava o Maia com uma minuciosidade inquieta, desde a barba, que começava agora a deixar crescer até à forma dos sapatos. Lançara-se no bricabraque. Trazia sempre o coupé cheio de lixos arqueológicos, ferragens velhas, um bocado de tijolo, a asa rachada de um bule… E se um conhecido, fazia parar, entreabria a portinhola como um ádito de sacrário, exibia a preciosidade:— Que te parece? Chique a valer!… Vou mostrá-la ao Maia. Olha-me isto, hem! Pura Meia Idade, do reinado de XIV. O Carlos vai-se roer de inveja!…

…Nesta intimidade de rosas havia todavia para Dâmaso horas pesadas. Não era divertido assistir em silêncio, do fundo de uma poltrona, às infindáveis discussões de Carlos e de Craft sobre arte e sobre ciência. E, como ele confessou depois, chegara a encavacar um pouco quando o levaram ao laboratório para fazer no seu corpo experiências de electricidade… «Pareciam dois demónios engalfinhados em mim>>, disse ele à senhora condessa de Gouvarinho; «e eu então que embirro com o espiritismo!…»

“— Passei hoje um dia divino com o Maia. Fizemos armas, bricabraque, discutimos… Um dia chique! Amanhã tenho uma manhã de trabalho com o Maia… Vamos às colchas.”

(Ilust. de Antonio) “Dâmaso era interminável, torrencial, inundante a falar das “suas conquistas», naquela sólida satisfação em que vivia de todas as mulheres, desgraçadas delas, sofriam a fascinação da sua pessoa e da sua toilette. E em Lisboa, realmente, era exacto. Rico, estimado na sociedade, com coupé e parelha, todas as meninas tinham para ele um olhar doce. E no demi monde, como ele dizia, «tinha prestígio a valer». Desde moço fora célebre, na capital, por pôr casas a espanholas; a uma dera carruagem ao mês; e este fausto excepcional tornara-o bem depressa o D. João V dos prostíbulos…

(Ilust. brasileira)…Conhecia-se a sua ligação com a viscondessa da Gafanha, uma carcaça esgalgada, caiada, rebocada, gasta por todos os homens válidos do país: ia nos cinquenta anos, quando chegou a vez do Dâmaso — e não era decerto uma delícia ter nos braços aquele esqueleto rangente e lúbrico; mas dizia-se que em nova dormira num leito real, e que augustos bigodes a tinham lambuzado; tanta honra fascinou Dâmaso, e colou-se-lhe às saias, com uma fidelidade tão sabuja, que a decrépita criatura, farta, enojada já, teve de o enxotar à força e com desfeitas. Depois gozou uma tragédia: uma actriz do Príncipe Real, uma montanha de carne, apaixonada por ele, numa noite de ciúme e de genebra, engoliu uma caixa de fósforos; naturalmente daí a horas estava boa, tendo vomitado abominavelmente sobre o colete de Dâmaso, que chorava ao lado — mas desde então este homem de amor julgou-se fatal! Como ele dizia a Carlos, depois de tanto drama na sua vida, quase tremia, tremia verdadeiramente de fitar uma mulher…”

“Esta é boa! — exclamou Dâmaso ao mesmo tempo, com uma palmada na coxa. — Olha quem aqui me aparece! A Susana! A minha Susana! Carlos não despegara os olhos da página.— Ó Carlos — acrescentou ele — fazes favor? Ouve. 0uve esta que é boa. Esta Susana é uma pequena que eu tive em Paris… Um romance! Apaixonou-se por mim, quis-se envenenar o diabo!… Pois diz aqui o Figaro, que debutou nas Folies-Bergères. Fala nela… É boa, hem? E era rapariguita chique… E o Figaro diz que ela teve aventuras, naturalmente sabia o que se passou comigo… Todo o mundo sabia em Paris…, a Susana! Tinha bonitas pernas. E custou-me a ver livre dela— Mulheres! — murmurou Carlos, refugiando-se mais no fundo da revista. “

…— Passaram-se cenas com esta Susana! — murmurou ele, de um silêncio em que estivera catando películas nos beiços”

(Ilust. de Alberto de Sousa) “A sala de esgrima era uma casa térrea, debaixo dos quartos de Carlos, com janela gradeadas para o jardim, por onde resvalava, através das árvores, uma luz esverdinhada. Em dias enevoados era necessário acender os quatro bicos de gás. Dâmaso seguiu, atrás dos dois, com uma lentidão de rês desconfiada. Aquelas lições, que ele solicitara por amor do chique, iam-se-lhe tornando odiosas. E nessa tarde como sempre, apenas se enchumaçou com o plastrão de anta, se cobriu com a caraça de arame, começou a transpirar, a fazer-se branco. Diante dele Craft de florete na mão, parecia-lhe cruel e bestial, com aqueles seus ombros de Hércules sereno, o olhar claro e frio. Os dois ferros rasparam. Dâmaso estremeceu todo.”

“Dâmaso largara o Figaro para meter um charuto na boquilha; depois desapertou os últimos botões do colete, deu um puxão à camisa para mostrar melhor a marca que era um S enorme sob uma coroa de conde, e de pálpebra cerrada, com o beiço trombudo, ficou mamando gravemente a boquilha. -Tu estás hoje em beleza, Dâmaso — disse-lhe Carlos, que deixara também a revista e o contemplava com melancolia. Salcede corou de gozo. Escorregou um olhar ao verniz dos sapatos, à meia cor de carne, e revirando para Carlos o bugalho azulado da órbita: -Eu agora ando bem… Mas, muito blasé. E foi realmente com um ar blasé que se ergueu a ir buscar a uma mesa de jardim, ao lado, onde estavam jornais e charutos, a «Gazeta Ilustrada», «para ver o que ia pela pátria. Apenas lhe deitou os olhos soltou uma exclamação…

“Ora essa! Queria ver, se fosse contigo… É uma besta. É um selvagem. E repetiu mais uma vez a Carlos a história que o magoava. Desde a sua chegada de Bordéus, logo que o Castro Gomes se instalara no Hotel Central, ele fora deixar-lhe bilhetes duas vezes— a última na manhã seguinte ao jantar do Ega. Pois bem, Sua Excelência não se dignara agradecer a visita! Depois eles tinham partido para o Porto; fora aí que, passeando só na Praça Nova, vendo a parelha de uma caleche desbocada, duas senhoras em gritos, Castro Gomes se lançara ao freio dos cavalos — e, cuspido contra as grades, tinha deslocado um braço. Teve de ficar no Porto, no hotel, cinco semanas. E ele imediatamente (sempre com o olho na mulher) mandara-lhe dois telegramas: um de sentimento, lamentando; outro de interesse, pedindo notícias. Nem a um, nem a outro, o animal respondeu! Não, isso — exclamava Salcede, passeando pelo terraço, e recordando estas injúrias – hei-de-lhe fazer uma desfeita!…Não pensei ainda o quê, mas há-de amargar-lhe…

…Não pensei ainda o quê, mas há-de amargar-lhe…Lá isso, desconsiderações não admito a ninguém. A ninguém! Arredondava o olho, ameaçador. Desde o seu feito no Grémio, quando o raquítico apavorado emudecera diante dele, Dâmaso ia-se tornando feroz. Pela menor coisa falava em “quebrar caras”. -A ninguém! Repetia ele, com puxões ao colete. –Desconsiderações, a ninguém!”

“Apenas o coupé partiu, Carlos, cerrando a vidraça, fez a pergunta que desde a aparição do Dâmaso lhe faiscava nos lábios.— Mas então tu, que querias quebrar a cara a esse Gomes?…O Dâmaso contou logo tudo, triunfante. Fora tudo equívoco! Ah, as explicações do Castro Gomes tinham sido de um gentleman. Se não, quebrava-lhe a cara. Isso não, desconsiderações, a ninguém! A ninguém! Mas fora assim: os bilhetes que ele lhe deixara conservavam a sua adresse do Grande-Hôtel de Paris. E o Castro Gomes, supondo que ele vivia lá, obedecendo à indicação, mandara para lá os seus cartões, hem? É de estúpido… E a falta de resposta aos telegramas fora culpa de madame, descuido, naquele momento de aflição vendo o marido com o braço escavacado… Ah, tinham-lhe dado satisfações humildes. E agora eram íntimos, estava lá quase sempre… -Enfim, menino, um romance…Mas isto é para mais tarde!”

“Uma tarde [Carlos da Maia e Maria Eduarda] falaram do Dâmaso. Ela achava-o insuportável com a sua petulância, os olhos bugalhudos, as perguntas néscias. Vossa Excelência acha Nice elegante? Vossa Excelência prefere a capela de S. João Baptista a Notre-Dame? — E então a insistência de falar de pessoas que eu não conheço! A senhora condessa de Gouvarinho, e os chás da senhora condessa de Gouvarinho, e a frisa da senhora condessa de Gouvarinho, e a preferência que a senhora condessa Gouvarinho tem por ele… E isto horas! Eu às vezes tinha medo de adormecer…

…Para sacudir logo de entre eles esse nome, [Carlos] começou a falar de. Guimarães, o famoso tio de Dâmaso, o amigo de Gambetta, o influente da República… —0 Dâmaso tem-me dito que Vossa Excelência o conhece muito…Ela ergueu os olhos, com um fugitivo rubor no rosto. — Mr. Guimarães… Sim, conheço muito… Ultimamente menos, mas ele era muito amigo da mamã. E depois de um silêncio, de um curto sorriso, recomeçando a puxar o seu longo fio de lã:— Pobre Guimarães, coitado! A sua influência na República é traduzir notícias dos jornais espanhóis e italianos para o “Rappell”, que disso é que vive… Se é amigo de Gambetta, não sei. Gambetta tem amigos tão extraordinários… Mas o Guimarães, aliás bom homem e homem honrado, é um grotesco, uma espécie de Calino republicano. E tão pobre, coitado! O Dâmaso, que é rico, se tivesse decência, ou o menor sentimento, não o deixava viver assim tão miseravelmente… Mas então essas carruagens do tio, esse luxo do tio, de que fala o Dâmaso? Ela escolheu mudamente os ombros.

“Ega tomou então um ar grave. Escolheu lentamente na caixa uma cigarette, abotoou devagar o jaquetão. Tu não tens visto o Dâmaso? -Nunca mais me apareceu — disse Carlos. — Creio está amuado… Eu sempre que o encontro, aceno-lhe de amigavelmente com dois dedos…Devia ser antes com a bengala. O Dâmaso anda aí por toda a parte, falando de ti e dessa senhora, tua amiga… A ti chama-te «pulha», a ela pior ainda. É a velha história; diz que te apresentou, que te meteste de dentro, e como para senhora é uma questão de dinheiro, e tu és o mais rico, ela lhe passou o pé… Vês daí a infamiazinha. E isto tagarelado pelo Grémio, pela Casa Havanesa, com detalhes torpes, envolvendo sempre a questão de dinheiro. Tudo isto é atroz. Trata de lhe pôr cobro. Carlos, muito pálido, disse simplesmente: -Há-de-se fazer justiça.”

Anteontem estava eu a cear no Silva, ele veio sentar-se um bocado ao pé de mim, e começou logo com umas coisas a teu respeito, umas ameaças… -Ameaças! Que disse ele? -Diz que te dás ares de espadachim, e de valentão, mas hás-de encontrar dentro em pouco quem te ensine… Que se está aí preparando um escândalo monumental… Que se não admirará de te ver brevemente com uma boa bala na cabeça… -Uma bala? -Assim o disse. Tu ris, mas eu é que sei… Eu, se fosse a ti, ia-me ao Dâmaso e dizia-lhe: «Damasozinho, flor, fique avisado que, de ora em diante, cada vez que me suceder uma coisa desagradável, venho aqui e parto-lhe uma costela; tome as suas medidas.”

“Arrastou Carlos: e pelo Chiado abaixo falou-lhe logo no Dâmaso . Não tornara a ver essa flor? Pois essa flor andava por toda a parte que o Maia, depois do caso do Chiado, lhe dera por um amigo explicações humildes, cobardes…Terrível, aquele Dâmaso! Tinha figura, interior e natureza de péla! Com quanto mais força se atirava ao chão, mais ele ressaltava para o ar, triunfante… — Em todo o caso é uma rês traiçoeira, e deves ter cautela com ele…Carlos encolheu os ombros, rindo.— Não, não — dizia o Taveira muito sério. — Eu conheço o meu Dâmaso. Quando foi da nossa pega, em casa da Lola Gorda, ele portou-se como um poltrão, mas depois ia-me atrapalhando a vida… É capaz de tudo…”

“Imediatamente Carlos tirou da algibeira das calças um punhado de libras, que começou a deixar cair em silêncio uma a uma dentro de um prato. E Palma «Cavalão>>, agitado com o tinir do ouro, desabotoou logo o jaquetão, sacou uma carteira onde reluzia um pesado monograma de prata sobre uma enorme coroa de visconde. Os dedos tremiam-lhe; por fim desdobrou, estendeu três papéis sobre a mesa. Ega, que com o monóculo sôfrego, teve um brado de triunfo. Reconhecera a letra do Dâmaso! Carlos examinou os papéis lentamente. Era uma carta do Dâmaso ao Palma, curta e em calão, remetendo o artigo, recomendando-lhe «que o apimentasse». Era o rascunho do artigo, laboriosamente trabalhado pelo Dâmaso, com entrelinhas. Era a lista, escrita pelo Dâmaso, das pessoas que deviam receber a “Corneta”: vinha lá o Gouvarinho, o ministro do Brasil, D. Maria da Cunha, el-rei, todos os amigos do Ramalhete, o Cohen, várias autoridades, e a Fancelli prima-dona…

…Palma, no entanto, nervoso, rufava com os dedos sobre a toalha, junto ao prato onde reluziam as libras. E foi o Ega que o animou, depois de relancear os olhos aos documentos por cima do ombro de Carlos. — Recolha o bago, amigo Palma! Negócios são negócios e o baguinho está aí a arrefecer!”

“Em resumo, Dâmaso, desdiz-se ou bate-se? Desdizer-me? — tartamudeou o outro, empertigando se, num penoso esforço de dignidade, a tremer todo. — E de quê? Ora essa! É boa! Eu sou lá homem que me desdiga! -Perfeitamente, então bate-se… Dâmaso cambaleou para trás, desvairado: -Qual bater-me! Eu sou lá homem que me bata! Eu cá é a soco. Que venha para cá, não tenho medo dele, arrombo-o… Dava pulinhos curtos de gordo, através do tapete, com os punhos fechados em riste. E queria Carlos ali, para o escavacar! Não lhe faltava mais senão bater-se… E então duelos em Portugal que acabavam sempre por troça!…

…Ega, no entanto, como se a sua missão estivesse finda, abotoara a sobrecasaca e recolhia os papéis espalhados sobre a Bíblia. Depois, serenamente, fez a última declaração de que fora incumbido. Como o Sr. Dâmaso Salcede recusava retractar-se e rejeitava também uma reparação pelas armas, Carlos da Maia prevenia-o de que em qualquer parte que o encontrasse, daí por diante, fosse uma rua, fosse um teatro lhe escarraria na face…

… -Escarrar-me! — berrou o outro, lívido, recuando, como se o escarro já viesse no ar. E de repente, espavorido, coberto de bagas de suor. precipitou-se sobre o Ega, agarrando-lhe as mãos, numa agonia:- Ó João, ó João, tu, que és meu amigo, por quem és livra-me desta entaladela!”

“Exmo. Sr.” Está claro, você dá-lhe ”Excelência” porque é um documento de honra…”Exmo. Senhor – tendo-me Vossa Excelência, por intermédio dos seus amigos João da Ega e Vitorino Cruges, manifestado a indignação que lhe causara um certo artigo da Corneta do Diabo, de que eu escrevi o rascunho e de que promovi a publicação, venho declarar francamente a Vossa Excelência que esse artigo, como agora reconheço, não continha senão falsidades e incoerências e a minha desculpa única está em que o compus e enviei à redacção da Corneta no momento de me achar no mais completo estado de embriaguez”…

…”Agora que voltei a mim, reconheço, como sempre reconheci e proclamei, que é Vossa Excelência um carácter absolutamente nobre; e as outras pessoas que nesse momento de embriaguez ousei salpicar de lama são-me só merecedoras de veneração e louvor. Mais declaro que se por acaso tornasse a suceder soltar eu alguma palavra ofensiva para Vossa Excelência, não lhe devia Vossa Excelência ou aqueles que a escutassem mais importância do que se dá a uma involuntária baforada de álcool – pois que, por um hábito hereditário que reaparece frequentemente na minha família, me acho repetidas vezes em estado de embriaguez…De Vossa Excelência, com toda a estima, etc.”

(Ilust. de Santana) “Era alto, magro, vestido todo de preto, com o pescoço entalado num colarinho direito. O rosto aguçado no queixo ia-se alargando até calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto; tingia os cabelos que de uma orelha à outra lhe faziam colar por trás da nuca — e aquele preto lustroso dava, pelo contraste, mais brilho à calva; mas não tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto, caído aos cantos da boca. Era muito pálido; nunca tirava as lunetas escuras. Tinha uma covinha no queixo, e as orelhas grandes muito despegadas do crânio. Fora, outrora, director-geral do ministério do reino, e sempre que dizia — El-Rei! — erguia-se um pouco na cadeira. Os seus gestos eram medidos, mesmo a tomar rapé. Nunca usava palavras triviais; não dizia vomitar, fazia um gesto indicativo e empregava restituir. Dizia sempre “o nosso Garrett, o nosso Herculano”. Citava muito. Era autor. E sem família, num terceiro andar da Rua do Ferregial, amancebado com a criada, ocupava-se de economia política…

…:tinha composto os ELEMENTOS GENÉRICOS DA CIÊNCIA DA RIQUEZA E SUA DISTRIBUIÇÃO, segundo os melhores autores, e como subtítulo: Leituras do serão! Havia apenas meses publicara a RELAÇÃO DE TODOS OS MINISTROS DE ESTADO DESDE O GRANDE MARQUÊS DE POMBAL ATÉ NOSSOS DIAS, COM DATAS CUIDADOSAMENTE AVERIGUADAS DE SEUS NASCIMENTOS E ÓBITOS.”

(Ilust de Júlio de Sousa) “Foi por esse tempo que, num sábado, o Diário do Governo publicou a nomeação do Conselheiro Acácio ao grau de cavaleiro da Ordem de S. Tiago, atendendo aos seus grandes merecimentos literários, às obras publicadas de reconhecida utilidade, e mais partes…

“Na noite seguinte, ao entrar em casa de Jorge, todos o cercaram, felicitando-o com alarido; o conselheiro, depois de os abraçar um por um numa pressão nervosa e comovida, caiu no sofá, exausto, e murmurou: — Não o esperava tão cedo da real munificência! Não o esperava tão cedo! — e acrescentou, pondo à mão espalmada sobre o peito: — Direi como o filósofo: Esta condecoração é o melhor dia da minha vida!”

“E às onze e meia descia o Moinho de Vento, quando viu a figura digna do Conselheiro Acácio que subia da Rua da Rosa, devagar, com o guarda-sol fechado, a cabeça alta. Apenas a avistou apressou-se, curvou-se profundamente: — Que encontro verdadeiramente feliz!… — Como está, Conselheiro? Ditosos olhos que o vêem! — E V. Exª, minha senhora? Vejo-a com excelente aspecto! Passou-lhe à esquerda com um movimento solene; pôs-se a caminhar ao lado dela. — Permite-me decerto que a acompanhe na sua excursão -Decerto, com o maior prazer. Mas que tem feito? Tenho muito que lhe ralhar… — Estive em Sintra, minha querida senhora. — e parando: — Não sabia? O Diário de Notícias especificou-o!…

…Tinham entrado em S. Pedro de Alcântara; um ar doce circulava entre as árvores mais verdes; o chão compacto, sem pó, tinha ainda uma ligeira humidade; e, apesar do sol vivo, o céu azul parecia leve e muito remoto. O Conselheiro então falou do estio; tinha sido tórrido! na sua sala de jantar tinha havido 48 graus à sombra! 48 graus! — E com bonomia, querendo logo desculpar a sala daquela exageração canicular: — Mas é que está exposta ao sul! Façamos essa justiça! Está muito exposta ao sul! Hoje porém está verdadeiramente restaurador. Convidou-a mesmo a dar uma volta embaixo no jardim…

— Mas depois de vir de Sintra? Ele acudiu: — Ah! Tenho estado ocupadíssimo! Ocupadíssimo! Inteiramente absorvido na complicação de certos documentos que me eram indispensáveis para o meu livro… — E depois de uma pausa: — Cujo nome não ignora, creio. Luísa não se recordava inteiramente. O Conselheiro então expôs o título, os fins, alguns nomes de capítulos, a utilidade da obra: era a DESCRIÇÃO PITORESCA DAS PRINCIPAIS CIDADES DE PORTUGAL E SEUS MAIS FAMOSOS ESTABELECIMENTOS. – É um guia, mas um guia científico. Ilustrarei com um exemplo: V. Exª quer ir a Bragança; sem o meu livro é muito natural (direi, é certo) que volta sem ter gozado das curiosidades locais; com o meu livro percorre os edifícios mais notáveis, recolhe um fundo muito sólido de instrução, e tem ao mesmo tempo o prazer. Luísa mal o escutava, sorrindo vagamente sob o seu véu branco. — Está hoje muito agradável! — disse ela. — Agradabilíssimo! Um dia criador! — Que bom fresco aqui! …

— Grande panorama! — disse o Conselheiro com ênfase. — E encetou logo o elogio da cidade. Era uma das mais belas da Europa, decerto, e como entrada, só Constantinopla! Os estrangeiros invejavam-na imenso. Fora outrora um grande empório, e era uma pena que a canalização fosse tão má, e a edilidade tão negligente! — Isto devia estar na mão dos ingleses, minha rica senhora! — exclamou. Mas arrependeu-se logo daquela frase impatriótica. Jurou que “era uma maneira de dizer”. Queria a independência do seu país, morreria por ela, se fosse necessário; nem ingleses nem castelhanos!… Só nós, minha senhora! — E acrescentou com uma voz respeitosa: — E Deus! — Que bonito está o rio! — disse Luísa.

…Acácio afirmou-se, e murmurou em tom cavo: — O Tejo! Quis então dar uma volta pelo jardim. Sobre os canteiros borboletas brancas, amarelas, esvoaçavam; um gotejar de água fazia no tanque um ritmozinho de jardim burguês; um aroma de baunilha predominava; sobre a cabeça dos bustos de mármore, que se elevam dentre os maciços e as moitas de dálias, pássaros pousavam. Luísa gostava daquele jardinzinho, mas embirrava com as grades tão altas… — Por causa dos suicídios! — acudiu logo o Conselheiro. — E todavia, segundo a sua opinião, os suicídios em Lisboa diminuíam consideravelmente; atribuía isso à maneira severa e muito louvável como a imprensa os condenava… — Porque em Portugal, creia isto, minha senhora, a imprensa é uma força! — Se fôssemos andando?… — lembrou Luísa…

…O Conselheiro curvou-se, mas vendo-a a ir colher uma flor, reteve-lhe vivamente o braço: — Ah, minha rica senhora, por quem é! Os regulamentos são muitos explícitos! Não os infrinjamos, não os infrinjamos! — E acrescentou: — O exemplo deve vir de cima…

…Apressou o passo, ao Loreto parou. O Conselheiro olhou-a, sorrindo, esperando. — Ah! pensei que ia para casa, Conselheiro! — Já agora quero acompanhá-la, se V. Exª me permite. Decerto não sou indiscreto! — Ora essa! De modo nenhum. Uma carruagem da Companhia passava, seguida de um correio a trote. O Conselheiro, com um movimento ansioso, tirou profundamente o chapéu. — É o presidente do conselho. Não viu? Fez-me um sinal de dentro. — Começou logo o seu elogio: Era o nosso primeiro parlamentar; vastíssimo talento, uma linguagem muito castigada! — E ia decerto falar das coisas públicas, mas Luísa atravessou para os Mártires, erguendo um pouco o vestido por causa de uns restos de lama. Parou à porta da igreja, e sorrindo: — Vou aqui fazer uma devoçãozinha. Não o quero fazer esperar. Adeus, Conselheiro, apareça. — Fechou a sombrinha, estendeu-lhe a mão.”

(Ilust de Rocha Vieira) Sebastião lembrava-se de um primo seu, deputado pelo Alentejo, um gordo, da maioria, um pouco fanhoso. Se Julião queria, falava-lhe… Mas sempre ouvira dizer que a Escola não era gente de empenhos e de intriga… De resto tinham o Conselheiro Acácio…— Uma besta! — fez Julião. — Um parlapatão! Quem faz lá caso daquilo? O teu primo, hein! O teu primo parece-me bom!

(Ilust de Bernando Marques) “Não havia que estranhar aquelas opiniões católicas do conselheiro, ia observando Julião, porque tinha duas imagens de santos pendentes à cabeceira da cama… A calva de Acácio fez-se rubra: O Savedra do Século exclamou com a boca cheia: — Não o sabia carola, conselheiro! Acácio, aflito, suspendeu o trinchador sobre o paio escarlate, e acudiu: — Eu peço ao meu Savedra que não tire desse fato ilações erradas. Os meus princípios são bem conhecidos. Não sou ultramontano, nem faço votos pelo restabelecimento da perseguição religiosa. Sou liberal. Creio em Deus. Mas reconheço que a religião é um freio…

O conselheiro continuava, explicando: — Como dizia, sou liberal, mas entendo que algumas litografias ou gravuras, alusivas ao mistério da Paixão, têm o seu lugar num quarto de cama, e inspiram de certo modo sentimentos cristãos. Não é verdade, meu Jorge? Mas o Savedra interrompeu ruidosamente, com a face acesa numa jovialidade libertina:— Eu, num quarto de dormir, as únicas pinturas que admito são uma bela ninfa nua, ou urna bacante desenfreada! — Isso, isso! — bradou o Alves Coutinho. A boca dilatava-se-lhe numa admiração sensual. — Este Savedra! Este Savedra! — E baixo para Sebastião: — Tem um talento! tem um talento! O conselheiro voltou-se para Julião, e puxando o guardanapo para o estômago: — Espero que não sejam esses os painéis imorais que se vêem no seu gabinete de estudo…

Rua Vitor Cordon -… Julião emendou: No meu cubículo. Ah! não, conselheiro! Tenho apenas duas litografias — um é um homem sem pele para representar o sistema arterial, o outro é o mesmo indivíduo igualmente sem pele para se ver o sistema nervoso… O conselheiro teve com a sua mão branca um vago gesto enojado, e exprimiu a opinião — que na medicina, aliás uma grande ciência! Havia coisas bastante asquerosas. Assim, ouvira dizer que nos teatros anatômicos, os estudantes de idéias mais avançadas levavam o seu desprezo pela moral, até atirarem uns aos outros, brincando, pedaços de membros humanos, pés, coxas, narizes… — Mas é como quem mexe em terra, conselheiro! — disse Julião, enchendo o copo — é matéria inerte! — E a alma, Sr. Zuzarte? — exclamou o conselheiro. Fez um gesto de vaga reticência; e julgando tê-lo aniquilado com aquela palavra suprema, abriu para Sebastião um sorriso cortês e protetor:

…— E que diz o nosso bondoso Sebastião? — Estou a ouvir, senhor conselheiro. — Não dê ouvidos a estas doutrinas! — com o garfo mostrava a figura biliosa de Julião. — Mantenha a sua alma pura. São perniciosas. Que o nosso Jorge (o que é de lamentar num homem estabelecido e empregado do Estado) também vai um pouco para estas exagerações materialistas! Jorge riu; afirmou que sim, que tinha essa honra… — Então o conselheiro quer que eu, um engenheiro, um estudante de matemática, acredite que há almas que vivem no céu, com asinhas brancas, túnicas azuis, e tocando instrumentos? O conselheiro acudiu: — Não, instrumentos não! — E como apelando para todos: Não creio que tivesse falado em instrumentos. Os instrumentos são uma exageração. São, podemos dizê-lo, táticas do partido reacionário… Ia fulminar a doutrina ultramontana — mas a Sra Filomena colocou-lhe diante a travessa com a perna de vitela assada…”

“Beberam com ruído. Acácio, depois de limpar os beiços, passou a mão trêmula pela calva, levantou-se comovido, e começou: — Meus bons amigos! Eu não me preparei para esta circunstância. Se a soubesse de antemão, teria tomado algumas notas. Não tenho a verbosidade dos Rodrigos ou dos Garretts. E sinto que as lágrimas me vão embargar a voz. Falou então de si, com modéstia: reconhecia, quando via na capital tão ilustres parlamentares, oradores tão sublimes, tão consumados estilistas, reconhecia que era um zero! — E com a mão erguida formava no ar, pela junção do polegar e do indicador, um O: um zero! Proclamou o seu amor à pátria: que amanhã as instituições ou a família real precisassem dele — e o seu como, a sua pena, o seu modesto pecúlio, tudo oferecia de bom grado! Quereria derramar todo o seu sangue pelo trono!…

… E, prolixo, citou o Eurico, as instituições da Bélgica, Bocage e passagens dos seus prólogos. Honrou-se de pertencer à Sociedade Primeiro de Dezembro… — Nesse dia memorável — exclamou — eu mesmo ilumino as minhas janelas, sem o luxo dos grandes estabelecimentos do Chiado, mas com uma alma sincera! E terminou dizendo: — Não esqueçamos, meus amigos, como portugueses, de fazer votos pelo ilustrado monarca, que deu às neves da minha fronte, antes de descerem ao túmulo, a consolação de se poderem revestir com o honroso hábito de São Tiago! Meus amigos, à família real!…

…— e ergueu o copo — à família modelo, que sentada ao leme do Estado, dirige, cercada dos grandes vultos da nossa política, dirige… — Procurou o fecho; havia um silêncio ansioso — dirige… — Através das lunetas negras, os seus olhos cravavam-se, à busca da inspiração, na travessa de aletria — dirige… — Coçou a calva aflito; mas um sorriso clareou-lhe o aspecto, encontrara a frase; e estendendo o braço: — …dirige a barca da governação pública com inveja das nações vizinhas! À família real! — À família real! — disseram com respeito. O café foi servido na sala. As velas de estearina punham uma luz triste naquela habitação fria; o conselheiro foi dar corda à caixa de música; e, ao som do coro nupcial da Lúcia, ofereceu em redor charutos.”

(Ilust de Fernandes da Silva) “E a alta figura de Acácio adiantou-se, com as bandas do casaco de alpaca deitadas para trás, a calça branca muito engomada caindo sobre os sapatos de entrada baixa, de laço. Apenas Luísa lhe apresentou o primo Basílio, disse logo, respeitoso: — Já sabia que V. Ex. a tinha chegado; vi-o nas interessantes notícias do nosso high-life. E do nosso Jorge? Jorge estava em Beja… Diz que se aborrece muito… Basílio, mais amável, deixou cair: — Eu realmente não tenho a menor idéia do que se possa fazer em Beja. Deve ser horroroso! O Conselheiro, passando sobre o bigode a sua mão branca onde destacava o anel de armas, observou: — É todavia a capital do distrito! Mas se já em Lisboa se não podia fazer nada, e era a capital do reino! — E Basílio puxava, todo recostado, o punho da camisa. — Morria-se positivamente de pasmaceira!

Luísa, muito contente da afabilidade de Basílio, pôs-se a rir: — Não digas isso diante do Conselheiro. E um grande admirador de Lisboa. Acácio curvou-se: — Nasci em Lisboa, e aprecio Lisboa, minha rica senhora. E com muita bonomia: — Conheço porém que não é para comparar aos Parises, às Londres, às Madris… — Decerto — fez Luísa. E o Conselheiro continuou com pompa: — Lisboa porém tem belezas sem igual! A entrada, ao que me dizem (eu nunca entrei a barra) é um panorama grandioso, rival das ConstantinopIas e das Nápoles. Digno da pena de um Garrett ou de um Lamartine! Próprio para inspirar um grande engenho!… Luísa, receando citações ou apreciações literárias, interrompeu-o; perguntou-lhe o que tinha feito. Tinham estado domingo no Passeio, ela e D. Felicidade; tinham esperado vê-lo, e nada! Nunca ia ao Passeio, ao domingo — declarou. — Reconhecia que era muito agradável, mas a multidão entontecia-o…

Tinha notado, — e a sua voz tomou o tom espaçado de uma revelação, — tinha notado que muita gente, num local, causa vertigens aos homens de estudo. De resto queixou-se da sua saúde e do peso dos seus trabalhos. Andava compilando um livro e usando as águas de Vichy…

O Passeio ao domingo é simplesmente idiota!… O Conselheiro refletiu e respondeu: — Não serei tão severo, Sr. Brito! — Mas parecia-lhe que com efeito antigamente era uma diversão mais agradável. — Em primeiro lugar — exclamou com muita convicção, endireitando-se — nada mas nada, absolutamente nada pode substituir a charanga da Armada! — Além disso havia a questão dos preços… Ah! Tinha estudado muito o assunto! Os preços diminutos favoreciam a aglomeração das classes subalternas… Que longe do seu pensamento lançar desdouro nessa parte da população… As suas idéias liberais eram bem conhecidas. — Apelo para a Srª D. Luísa! — disse.

— Mas, enfim, sempre era mais agradável encontrar uma roda escolhida! Quanto a si nunca ia ao Passeio. Talvez não acreditassem, mas nem mesmo quando havia fogo de vistas! Nesses dias, sim, ia ver por fora das grades. Não por economia! Decerto não. Não era rico, mas podia fazer face a essa contribuição diminuta. Mas é que receava os acidentes! E que os receava muito! Contou a história de um sujeito, cujo nome lhe escapava, a quem uma cana de foguete furara o crânio. — E além disso nada mais fácil que cair uma fagulha acesa na cara, num paletó novo… — E conveniente ter prudência — resumiu, compenetrado, limpando os beiços com o lenço de seda da Índia muito enrolado.”

(Ilust. de David) Imaginemos, então, que os 2 romances (Os Maias e o Primo Basílio) não são ficção ou que os relatos ficaram incompletos. E que Dâmaso e Acácio, numa cidade provinciana, como era Lisboa no final do Séc. XIX, estavam condenados a conhecer-se. Os meandros dessa aproximação são desconhecidos, mas ocorreram já depois de Dâmaso se ter casado com uma filha do Conde de Águeda – e ao que disseram as más-línguas, ter sido “enfeitado”. Coisas da vida… Estava mais gordo, mais barrigudo, com a eterna flor ao peito…

“No começo da rua João de Deus, Dâmaso Salcede quase tropeça no Conselheiro. Cumprimenta-o com alguma cerimónia:- “Meu nobre amigo! Fui agora à Basílica, por causa do peditório para as vítimas das cheias do Ribatejo. Estava lá muita rapaziada dos jornais! Até estão a publicar os nomes dos beneméritos. E eu, não é pela propaganda, que não ligo a essas coisas, tinha de contribuir!. Eu, quando toca a obras de caridade, estou sempre pronto, sou um mãos-largas! É de família, já o meu pai, que Deus tenha em descanso” – e levou a mão à testa, “- era o mesmo. Muitas famílias, ajudou! Não havia infeliz que estivesse aflito e lhe batesse á porta, que não saísse sem uma ajuda!”…

…Acácio eleva o dedo indicador direito: -Tem Vossa Excelência um semblante radioso. Parece que a maleita que sei vos tem vindo a atormentar, não  retirou a bela aparência. Julgo isso um apanágio dos espíritos superiores, a quem o ruinoso relógio da vida não esmorece a jovialidade ou a pujança intelectual. No pouco tempo que a actividade política me concede, tenho publicado uma série de crónicas na “Gazeta”, que V. Exa, certamente não ignora. Aí espraio-me em divagações filosóficas ácerca do primado da mente sobre as astúcias e os ardis da carne. Que a mim me tem servido, nesta vida de castidade em que sempre vivi.” Dâmaso toma-lhe familiarmente o braço e começam a descer a Calçada da Estrela…

…”- Gota, é essa mortificação. Cada vez que belisco um salmãozinho fumado ou uma perdiz estufada, tudo coisas catitas, as juntas das mãos ficam inchadas e doem-me”. O Conselheiro interrompe-o: “-É, de facto, uma penitência. Mas deve considerá-la como certificação do refinado apetite e das esmeradas iguarias com que V. Exa se tem deleitado. Soube, há dias que o Sr. Palma Cavalão, se queixa também do mesmo. Conhece-o V. Exa?” “-Sim, sim: em tempos tivemos um negociozinho…” aquiesceu Dâmaso. “É um insigne jornalista a quem o Partido muito deve. Teve uma actividade notável, pondo a nu as torpezas dos nossos adversários, sem receio de escândalos. Foi também secretário particular do Carneiro, aquele que foi ministro!…Mas, agora é uma pessoa a quem até o nosso Primeiro-Ministro ouve com atenção!

…Dâmaso esboça um sorriso: -“O Palma, próximo do José Luciano?! Chique!. Vou meter-lhe um empenho!”