Visconti e o Romantismo

introLuchino Visconti (1906-1976) é dos mais importantes realizadores da História do Cinema Mundial. Aristocrata descendente da família Sforza de Milão, marxista convicto, absolutamente genial, dedicou-se também ao Teatro e à Ópera. Dirigiu espectáculos com Vittorio Gassmann, encenou peças de Jean Cocteau e Tenessee Williams e óperas, como “Anna Bolena” de Donizetti em La Scala de Milão (1957), com Maria Callas, apontada como um espectáculo excepcional .
Durante o fascismo italiano e no pós-guerra, os seus filmes tiveram uma matriz politica marcada, vindo Visconti a ser considerado um dos autores fundamentais do neo-realismo. “”Ossessione”  (1943) e “La terra trema” (1948) são filmes dessa época, estruturados a partir da miséria e desespero do povo a procurar sobreviver num mundo em ruínas.
A partir de “Senso” (1954), os seus filmes estribam-se numa nova estética, interrompida por “As noites brancas” (1957) e  por ”Rocco e seus Irmãos” (1960). Há opulência de cenários, côr e guarda-roupa (sempre associados a bandas sonoras belíssimas, a movimentos de câmara rigorosos  e sábios enquadramentos)  e temas recorrentes: a decadência, sobretudo da aristocracia, resultante da ascensão da burguesia, o declínio pelo tempo e a inevitabilidade da morte. Em “O Leopardo” (1963), Visconti auto-retrata-se, no papel do Príncipe de Salina – interpretado por um magnífico e inesperado Burt Lancaster, bem como aos senhores da terra que, naquele momento histórico, se viram compelidos a abdicar do seu fausto, quando as tropas de Garibaldi chegaram à Sicília. A decadência da aristocracia está presente em outros filmes como em “Violência e Paixão” (1974), também com Burt Lancaster e, nesse outro filme terrível “Os Malditos” (1969), que conta a desintegração de uma família da alta finança alemã, durante a ascensão do nazismo.
“Morte em Veneza”  (1971) é a crónica da morte anunciada do compositor Gustav von  Aschenbach (homenagem a Gustav Mahler). Gradualmente vamos acompanhando à aproximação do fim dum Aschenbach embutido na paisagem de Veneza com a obsessão da perfeição e beleza. Acreditava poder atingi-los, renunciando aos prazeres mais banais. Mas acaba por entregar-se de corpo e alma a uma relação platónica de admiração pela beleza de um jovem apolíneo. Assistimos à sua decadência, aos olhares patéticos e, por fim, a sua morte.
A obra de Visconti não pode, pois, ser considerada globalmente romântica. Mas há filmes cuja estética admirável e enredo são paradigmas românticos. Luis da Baviera, de “Ludwig” (1973), que atribui um nome de ópera à sua “noiva” e que decora os castelos com cisnes, outra figura da mitologia alemã… Aschenbach, elegante e metódico, quase a perder a compostura diante da paixão/revelação…O Príncipe de Salina, que representa o próprio Visconti, a olhar o quadro do moribundo ou a ver-se ao espelho com uma lágrima pela face tão inexorável como a morte que se aproxima…

FM

 

 

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Luchino Visconti foi um indivíduo ambivalente e de algum modo contraditório: aristocrata e marxista; homem requintado, quase toda a sua obra reflecte preocupações sociais ou relata importantes acontecimentos políticos. Como todos os artistas, falou principalmente de si. Homosexual, não escondeu a sua fixação erótica em actores, como Helmut Berger. Foi um director de actores “difícil”. Da sua filmografia extensa, é difícil seleccionar as “obras-primas”. Falamos daquelas que mais gostamos…mas não é fácil a escolha!

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A acção do filme decorre em 1866, durante a guerra que opôs os Italianos que lutavam pela unificação, e o exército austríaco invasor. As primeiras cenas de Senso (A sedução da carne), que também ele é um filme-ópera, passam-se ao som da ária “Di quella pira” do Trovatori de Verdi, que serve para uma manifestação patriótica contra os ocupantes.

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Figurantes centrais: a condessa Livia Serpieri (Alida Valli), o marido, seu primo e chefe dos patriotas e o tenente austríaco Mahler (Farley Granger). A um insulto do austríaco, o primo da condessa desafia-o para um duelo que não chega a realizar-se porque Mahler o denuncia à polícia (sabe-se depois) e ele é preso. Antes, porém Lívia tentara convencer Mahler que não atribuisse importância ao incidente… O oficial austríaco oferece-se para acompanhar Lívia e inicia-se aqui um longo passeio pelas ruas de Veneza e não sei o que será mais importante se a 7ª Sinfonia de Bruckner, se as palavras de Mahler ou ambos.

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É um processo de sedução que se vai tornando cada vez mais cego e louco. Os encontros secretos de ambos a que ele começa a faltar e que a levam a procurá-lo na casa que partilha com outros oficiais austríacos e a sujeitar-se a comentários jocosos.

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A iminência da guerra faz partir o marido para uma casa de campo, arrastando-a consigo, mas onde ela julga encontrar a paz. Porém, eis que numa noite ele aparece. Lívia tenta resistir: “Já não estamos em Veneza”…mas Mahler uma vez mais consegue seduzi-la. Não pode viver sem ela, a guerra, o horror da guerra, a possibilidade de ficar mutilado…e fala de um camarada que subornara um médico para ser considerado inapto…é uma questão de dinheiro…

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Ensaia uma pequena resistência, quando Lívia lhe pergunta quanto. À resposta, ela fica desesperada, não dispõe daquela quantia. Mas, lembra-se dum pequeno tesouro que o primo lhe confiara e que pertencia à causa patriótica. Vai buscá-lo. Entrega-lhe o dinheiro e ele parte. Recebe depois uma carta dando-lhe conta do sucesso do expediente e do local onde estava a morar, pedindo-lhe para não ir, por agora, por não ser seguro. Mas a guerra continua, está às portas de Verona, onde ele se encontra. Lívia atravessa as linhas de batalha numa carruagem preta e descobre-o, alcoolizado com uma prostituta…

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O diálogo é tremendo: Mahler diz nunca ter estado tão lúcido como naquele momento: ele não corresponde à ideia que ela tinha feito de si, pois era, de facto – um velhaco, um desertor…e acaba por expulsá-la da casa que diz ter sido paga também com o dinheiro que ela lhe tinha dado. Como também servira para pagar à prostituta…havia mulheres a quem se pagava e outras…Lívia (Alida) tem uns olhos espantosos: cabem neles toda a raiva pela infâmia da paixão emporcalhada

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Lívia vai denunciá-lo ao Quartel-General, sabendo que isso corresponde ao fuzilamento. O General lembra-lhe que a delação é uma infâmia e ela pede-lhe que ele cumpra o seu dever. O General manda proceder à prisão e execução…o que acontece…os gritos de Lívia pelas ruas de Verona, chamando pelo seu nome… Traição: dela ao marido, aos ideais políticos e a si própria. Ele: cobarde, golpista, falso, hipócrita. Romantismo: imaginar Mahler ou inventar quem quer que seja, sem estar atento aos sinais da realidade.

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Este é um filme admirável, sob todos os pontos de vista. Exemplar no modo como apresenta o personagem Lívia, idealizando um homem que só existia na sua cabeça e se recusou a entender os sinais que ele e outros lhe enviaram (as ausências aos encontros, as revelações dos camaradas de armas) sobre o carácter de Mahler. E, depois, numa ambivalência de amor-ódio leva-o à morte. Vingança? Como vingança, se quem sobrevive vai expiar para sempre essa culpa? Rever Senso é também admirar Veneza e recordar outras obras incontornáveis como o Mercador de Veneza e, sobretudo o Othelo de Shakespeare. Haverá alguma relação entre a tragédia de Desdémona vítima dos ciúmes loucos de Othelo e este melodrama histórico? Se o João Bénard da Costa pudesse responder…

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Mas Senso, Visconti e Veneza faziam parte, como não podia deixar de ser dos 50 ou 500 filmes da vida de João Bénard da Costa, como da nossa. O requinte aristocrático de Visconti, aliado a uma perspectiva histórica rigorosa fizeram dele talvez o maior cineasta do Romantismo, que estará como Wagner ou Verdi para a música. Aliás, não é por acaso, que a música de ambos está tão presente nos filmes de Visconti.

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Luís da Baviera é talvez o expoente máximo do Romantismo. Relata com rigor a vida de Ludwig que ocupou o trono da Baviera entre 1864 e 1886. Politicamente, defendia uma linha contrária à opinião popular. Profundamente misantropo, vivia isolado do mundo.

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O rei, coroado aos 18 anos, sentia enorme devoção por Elisabeth da Áustria “ma cousine”. Pedia-lhe que nunca o abandonasse. Ela, manipuladora, queria vê-lo casado com a irmã Sofia.

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Ludwig vivia a arte de forma obsessiva e dedicava grandes somas à construção de luxuosas residências com predomínio dos estilos neogótico e rococó: os palácios de Herrenchiemsee, Neuschwanstein e Linderhof.

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Acolheu com entusiasmo o compositor Richard Wagner, a quem financiou, pagou dívidas e para quem mandou construir um teatro. A correspondência entre ambos mostra quanto as relações foram importantes, sobretudo para Ludwig, mesmo que, por razões políticas, o tivesse de expulsar da Baviera.

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Não é por acaso que Ludwig chamava à sua noiva (com quem nunca chegou a casar-se) Elsa. Elsa é, nem mais nem menos, a amada de Lohengrin e este, o cisne, filho de Parsifal!

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Lohengrin é, pois, evocado pela presença de cisnes que Ludwig mantinha nos seus castelos, nomeadamente Neuschwanstein.. Segundo a lenda, Elsa teria sido acusada injustamente da morte de seu irmão, herdeiro do trono de Brabante. Sabendo-se inocente, declara estar disposta a submeter-se ao julgamento de Deus, através de um combate e invoca o protetor com o qual sonhara, e eis que surge no julgamento um cavaleiro num barco puxado por um cisne…Ele aceita lutar por Elsa desde que ela nunca pergunte o seu nome ou a sua origem, proposta essa prontamente aceite. O cavaleiro prova a inocência da princesa e, depois, pede-a em casamento.

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Porém, Elsa rompe o pacto com o cavaleiro, agora seu marido, fazendo-lhe as perguntas proibidas. O cavaleiro então anuncia diante de todos sua a verdadeira identidade: Lohengrin, um cavaleiro do Santo Graal, filho do rei Parsifal. Revela também que foi enviado pelo Cálice, mas que era hora de regressar, tendo aparecido somente para provar a inocência de Elsa.

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Ludwig teria, de acordo com um relatório psiquiátrico (que não é citado no filme), uma fobia social. No entanto, alguns criados dos palácios passam a favoritos… O alheamento dos assuntos de Estado em prol da arte, conduziram à loucura e à morte (em circunstancias que o filme não explica).

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Segundo o filme, sua prima Elizabeth acusou-o de desprezar o povo e querer passar à história à custa de Wagner e de construir obras de arte. No entanto, hoje, a monumentalidade da Baviera deve-se muito aos seus empreendimentos e Wagner teve nele um mecenas precioso.

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O expoente máximo do Romantismo em Visconti? Trata de uma figura histórica e prenuncia a proximidade do Império germânico, a importância de Bismark e a emergência prussiana. Há em Ludwig uma certa desrealização: ele tem modelos na cabeça, onde quer encaixar as pessoas, não o contrário: a noiva é Elsa sem o ser, os cisnes estão sempre presentes (o Lohengrin).

Baviera 1 Castelo de Neuschwanstein

Castelo de Neuschwanstein. Situado a escassas dezenas de quilómetros da fronteira com a Áustria. O castelo possui um estilo fantástico e serviu de inspiração ao “Castelo da Bela Adormecida”, símbolo dos estúdios Disney.

Baviera 2 Schloss Hohenschwangau

Schloss Hohenschwangau que foi a residência de infância de Luís II, mas construído pelo seu pai, o Rei Maximiliano II da Baviera. Fica localizado na aldeia alemã de Schwangau, também muito próximo da fronteira com a Áustria. O mundo de Luis II é fantástico. Mas isto não é uma “loucura”. Estas perturbações evocam uma monomania de construções e uma fobia social.

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Helmut Berger, actor que desempenhou o papel de Ludwig, aqui nos Malditos, outro filme de Visconti.

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Morte em Veneza é o filme vencedor do Grande Prémio do 25º Aniversário do Festival de Cannes. Adaptado do romance de Thomas Mann, com o rigor habitual de Visconti, relata as férias do compositor Gustav Ashenbach (Dirk Bogarde), que vive um período de crise pessoal.

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No entanto, na obra de Mann, Aschembach era escritor, e sentia que pela sua condição artística era sexual e intelectualmente superior ao seu próximo e, considerava a homossexualidade como a mais intelectual forma de amor.

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Aschenbach estava na casa dos 50 anos e sentia os sinais do envelhecimento. No Lido em Veneza, para onde viaja, apaixona-se por um adolescente Tadzio (Björn Andrésen), que está em férias com sua família. Os cuidados que manifesta para que a sua admiração/encantamento pelo jovem não seja notada, sugere o recalcamento a que a sociedade o submetia, a preocupação pelas aparências.

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Tadzio representará o ideal de beleza que Aschenbach sempre imaginou. Vive uma permanente ambivalência entre o ser metódico, racional, disciplinado, o qual por outro lado procura o desmedido e o eterno, talvez a transgressão. Este conflito fá-lo partir (escapar), tanto mais que a cólera está a chegar a Veneza. Mas é um afastamento abortado e o regresso tanto lhe deu prazer como descontentamento (mais uma ambivalência)

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O filme, como Aschenbach, é de uma admirável delicadeza, passado em cenários deco utilizando o Adágio da 5ª Sinfonia de Mahler, que parece ter sido feito de propósito para a entrada do vapor em Veneza.

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Uma vez mais parte dum diálogo do filme: “A realidade apenas nos confunde e avilta””o que é a dignidade humana?” Este fascínio pela beleza que é de Aschenbach e de Visconti…O lado sombrio da solidão evidencia o drama de Aschenbach, ao «amor» impossível de um homem de meia idade por um adolescente.

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Aschembach tem a atitude narcisista de rever a beleza do corpo (a beleza do “seu” corpo) através das formas de efebo do jovem. O tema da obra de arte é sempre o autor. A dignidade e a compostura com que chega a Veneza vão-se transformando através desta paixão que vincam a sua decadencia e prenunciam o fim.

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“Um homem tem a idade que aparenta”, comenta o barbeiro enquanto lhe pinta o cabelo, numa tentativa de rejuvenescimento. Depois na praia, quando o vemos desfalecer com a tinta a escorrer pela face e o vulto de Tadzio em contra-luz a entrar no mar, Ascenbach afunda-se no cadeirão e na vida. Serve de pouco esconder a idade (“a velhice a maior das impurezas”)

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É um filme belíssimo, que temos dificuldade em encarar, quando o objecto da paixão dum homem de meia idade é um adolescente, mesmo que se trate duma relação platónica e aquilo que são analisadas são as contradições do artista (músico ou escritor) cujo ego está em constante auto-análise. Difícil e perigoso. Mas a arte não tem de ser inócua.

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O Leopardo é outra das obras-primas de Visconti (1963). Adaptado do romance de mesmo nome, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa é um fresco da Itália da época de Garibaldi, em que se assiste à decadência da aristocracia rural e à emergência da burguesia, com a denúncia do cinismo político, que é de todos os tempos, e, uma vez mais, a dialéctica do envelhecimento.

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Na iminência da unificação da Itália, D. Fabrício, Príncipe de Salina (Burt Lancaster), aristocrata siciliano, procura preservar os seus privilégios e benesses no meio da revolução liderada por Garibaldi.

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A ascensão da burguesia é uma ameaça. Ao tomar da influência local e da fortuna recente de um administrador de propriedades, homem um tanto boçal,, arquitecta o casamento de seu sobrinho Tancredo (Alain Delon) com a filha do administrador, a belíssima Angélica (Claudia Cardinali).

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Tancredo partira a juntar-se às forças revolucionárias, mas estas seriam derrotadas…e Tancredo muda de lado. É ambicioso, associa-se a quem lhe puder ser útil…não consta que sentisse vergonha.

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“Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude.”, é o lema do sobrinho que mais tarde o próprio tio adopta

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O Príncipe é dotado de grande faro político (ou cinismo?). Os seus diálogos com o padre que representa os interesses da Igreja, são antológicos, bem como a chegada à povoação de Donnafugata onde resolve refugiar-se temporariamente com a família, cidade em que costuma passar regularmente suas temporada de férias.

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O casamento significará a harmonização entre a aristocracia decadente com a burguesia emergente e enriquecida. É uma união, anteriormente impensável (recorde-se a sonora e escandalosa gargalhada de Angélica no meio do jantar), logo depois de ouvir uma piada de duplo sentido de Tancredo), tanto mais que sacrifica a paixão da sua tímida filha por Tancredo. Mas é tudo aquilo que o Príncipe Salinas deseja. “Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude.”

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Na cena do baile há aspectos muito interessantes: o jogo de sedução entre Angélica e o Príncipe que de algum modo ela incita, o olhar de ciúme de Tancredo e como que a decisão do tio, que sente que o seu tempo se está a esgotar: pertence agora a seu sobrinho.

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A presença de nobres e burgueses, lado a lado, no mesmo nível, prenunciando a decadência de uns e a ascensão dos outros. O Principe percorre os salões. Salinas é Visconti. Há amargura. A decadência é social e dele próprio.

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Sempre o princípio e o fim em Visconti: a consciência do envelhecimento. O seu cepticismo e lucidez. Mesmo que o Príncipe ainda esteja apto a deslumbrar a assistência ao valsar com Angélica, acode-lhe a percepção da morte, simbolizada no quadro da biblioteca representando um moribundo rodeado pela família. E ao olhar para o espelho uma lágrima atravessa-lhe o rosto…Chega um padre para dar a extrema-unção a um personagem desconhecido. No baile, os últimos resistentes ensaiam um passo de dança no salão quase vazio. As premonições do fim.

 

 

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Realiza o seu último filme – O Inocente (1976) já de cadeira de rodas, depois de um AVC. A história do aristocrata que mata o seu bebé, convencido de que este resulta do adultério da mulher. Trata da culpa da aristocracia e é um final terrível para a obra de Visconti. Sobre o realizador e este filme: “…Adormecia tarde e era o primeiro a despertar. Chamou para que o lavassem, o vestissem. Recomeçaria uma vez mais a cena, com nova iluminação. O rosto de Tullio Hermil deveria estar na penumbra, só as mãos francamente iluminadas. Porque é nas mãos… Não, não, as mãos são inocentes. É no espírito que tudo tem origem; mesmo o amor; mesmo o crime. Excepto a morte. A morte era bem no seu corpo que principiava. Ali estava ela, tomando conta de si. Via-a crescer a cada instante, essa cadela. De súbito, tornara-se real, os dentes afiados, a baba escorrendo, o salto iminente. Em grande plano.” (Eugénio de Andrade/Vertentes do olhar)